[Drops] Gratidão

Gratidão é a reunião de quatro artigos do Oliver Sacks publicados no New York Times e traduzidos por Laura Teixeira Motta. Os textos têm um fio condutor em comum: falam sobre envelhecer e sobre a morte. Não por acaso, três desses textos são publicados depois que Sacks descobre que teve metástase de um câncer tratado nove anos antes e que lhe resta pouco tempo de vida.

Trata-se de um pequeno livro sobre aceitação, as limitações da vida e seu inevitável fim. Mas não estamos falando de um livro de auto-ajuda e encontro com a espiritualidade necessária para enfrentar esse momento (apesar do formato e proposta do livro deem a entender isso). A forma como Sacks lida com tudo é muito lúcido e baseado em sua fé na ciência e humanidade.

O primeiro artigo, “Mercúrio” é o texto mais antigo da coletânea, foi publicado em 2013, e fala do seu ânimo prestes a completar 80 anos. Oliver conta sua relação com a ciência, principalmente com os elementos químicos. Nesse texto ele já introduz sua paixão pela tabela periódica (ela mesmo!) e relaciona os elementos químicos seu número atômico com sua idade.

“My own life”, publicado em fevereiro de 2015, talvez seja o artigo mais conhecido. Sack o publica quando é diagnosticado com a metastasse e sabe que lhe resta pouco tempo de vida. É o texto mais emocionante do livro, sem dúvidas. Mesmo ciente que tenha seis meses de vida, há otimismo e gratidão (alá o título do livro) para seguir produzindo, como ele fez.


“Nesses últimos anos tenho sido capaz de ver minha vida como que de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com uma noção crescente da conexão entre todas as suas partes. Isso não quer dizer que não quero mais nada com a vida. Muito pelo contrário, sinto-me intensamente vivo, e desejo e espero, no tempo que ainda me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles a quem amo, escrever mais, viajar, se tiver forças, atingir novos patamares de compreensão e descortino.”

“Minha tabela periódica” retoma algumas coisas que Sacks fala em “Mercúrio”. Neste texto, já aos 82, a idade de chumbo, ele fala de sua relação com a matéria inorgânica e elementos químicos, enquanto revisita acontecimentos da sua vida.

“Shabat”é o artigo publicado pouco antes de sua morte. Nele, o autor revê sua vida através de sua prática religiosa. Em sua infância foi criado em um bairro ortodoxo da Inglaterra, mas depois, em sua vida adulta, vai abandonando seus costumes. Mais uma forma de revisitar fatos de sua vida e também se questionar se ciência e religião podem andar juntas.

Gratidão é um livrinho poderoso e acalentador ao mesmo tempo. A lucidez de Oliver Sacks impressiona nesses pequenos textos. Uma boa forma de conhecer o autor, que tem uma vasta obra disponível para explorar

Gratidão
Autor: Oliver Sacks
Tradução: Laura Teixeira Motta
Editora Cia. das Letras
64 pgs

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