[Retrospectiva “bafão” 2015] Fim da CosacNaify

Possivelmente a notícia mais impactante no mercado editorial em 2015 chegou às 21h do dia 30 de novembro. Em uma entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, o fundador e dono da Cosac Naify, Charles Coisac, anunciava o fim da editora.

A entrevista (entre tantas que ele deu nos dias seguintes) é muito esclarecedora sobre algumas das questões (ou motivos) do fechamento da Cosac. Para quem ainda não viu, aqui está o link.

Antes de continuar falando sobre a entrevista, vamos falar um pouco mais sobre a Cosac.

A editora surgiu em 1997, com o lançamento do livro Barroco de Liríos do artista contemporâneo Tunga. Livro com mais de 10 tipos de papéis, 200 ilustrações e ainda vinha com a fotografia de uma trança que se desdobrava chegava a mais de um metro.

Charles Cosac (que fundou a editora com o seu cunhado americano Michael Naify) começou a editar livros de uma forma que não haviam sido editados aqui no Brasil. Principalmente monografias de artistas nacionais, crítica de arte, arquitetura e design.

Com a chegada de Augusto Massi, a editora começou a publicar títulos de literatura, antropologia, cinema e infanto-juvenis e diversificou o catálogo. Massi assumiu a direção da Cosac e o editor foi o responsável pelas publicações entre 1999 e 2011 e principalmente o crescimento da editora. Na sua saída houve trocas de acusações, alguns diziam que o editor era responsável pelo rombo financeiro da editora, mas o próprio Charles nunca se declarou sobre isso.

Em 2000 a editora lança a sensacional coleção “Prosa do mundo”, trazendo grandes clássicos em novas traduções (direto do original), com textos adicionais que complementam a edição. A coleção começou com os títulos: O diabo e outras histórias, de Liev Tolstói, e Niels Lyhne, do dinamarquês Jens Peter Jacobsen. Outra característica da coleção foi trazer grandes livros de autores desconhecidos e incluir em sua coleção textos de teatro e livros malditos como A História do Olho, de Georges Bataile.

Vieram outros destaques e coleções inesquecíveis como a “Coleção Ensaios”, “Coleção Particular”, “Mulheres Modernistas”, “Shel Silverstein”, as edições de Maurice Sendak, os livros de design, “Coleção Mitológicas”, Os Miseráveis, livros do Liev Tolstói (em traduções fantásticas do Rubens Figueiredo)… Poderíamos dar destaque para mais livros ou coleções, mas são livros que primavam pela excelência.

Até mesmo pela excentricidade do seu dono, a Cosac sempre pareceu não se importar muito com as regras do mercado e publicou livros que pareciam inviáveis ou dificilmente interessaria mais que um pequeno nicho de pessoas. E essa pareceu a proposta desde sempre. De certa forma sempre pareceu um negócio inviável e que ao final se mostrou extremamente mal administrado.

E nesse ponto que voltamos à entrevista do dono da editora.

Podemos começar pela informação que Charles deu a notícia a seus funcionários na tarde do dia 30, mas aconteceu com pouquíssimas pessoas e quase 90% dos funcionários só souberam pela imprensa. E óbvio que a culpa de ter “vazado” a notícia do fim da editora foi a imprensa e não do próprio dono da editora, que não os notificou.

Boa parte dos funcionários nunca chegaram a saber de nada pelo dono da editora. Quase todas as informações foram conseguidas através da imprensa.

O grande mérito da editora foram as pessoas que trabalhavam ou já trabalharam lá. Verdadeiros talentos e diversas áreas. Mas nada disso impediu o dono de agir de uma forma desrespeitosa ao informar os funcionários através de uma notícia na imprensa ou um e-mail que chegou duas horas depois do “vazamento” (se você tem dúvida disso, até mesmo esse e-mail foi vazado, é só procurar).

Curioso pensar que diante do tamanho pesar na perda cultural do país e ninguém se lembrava que a maioria das pessoas ali ficariam desempregadas. Mais vale celebrar o excêntrico inconsequente.

Ainda na entrevista Charles comenta sobre a decisão do fim: “Somos uma editora cult, cujos livros são destinados a professores acadêmicos e estudantes de arte, e não gostaria de ver nossa linha editorial desvirtuada”.

As maiores críticas à editora sempre foram dela ser elitista e com os livros caros. E por mais que houvessem mudanças nos preços de alguns livros dos últimos anos, a ideia do dono é bem clara quanto ao alcance dos livros. Ou mesmo do público alvo.

Mais adiante citando a matéria: “Eu vejo a editora se descaracterizando, se afastando daquilo que fez dela tão querida, e prefiro encerrar as atividades a buscar uma solução que possa comprometer seu passado”, diz, referindo-se a uma possível fusão com grupos editoriais poderosos, como tem sido frequente no mercado. Ironicamente, poucos dias depois saiu a notícia de um acordo em que alguns dos principais títulos da Cosac vão ser publicados pelo Grupo Penguim Companhia das Letras.

Ainda seguindo na matéria talvez a declaração mais importante da entrevista: “Como disse, não criei a editora para recauchutar obras em domínio público”, observa. “Quero que ela termine como começou, não gostaria que ela entrasse em decadência.” Charles, colecionador de arte sempre se interessou em publicar monografias de artistas brasileiros (foram mais de 50), como a de Elizabeth Jobim lançado em novembro. Tiragem de 1.500 exemplares.

Ainda em outubro a Cosac lança Contos Completos de Liev Tolstói em tradução direta do russo por Rubens Figueiredo. Críticas positivas na mídia, recepção entusiasta do público e tiragem de 8.000 exemplares (média da editora ficava entre 1.500 e 2.000 exemplares) esgotadas em pouco mais de 1 mês.

Contos do Tolstói, obviamente se encaixava como obras em domínio público recauchutadas.

Acreditamos que a empresa tem que ter a cara do seu dono. Ele tem que se identificar com ela. Só que em todas as manifestações que vimos de pesar pela Cosac Naify, nenhuma delas foi porque talvez nunca  mais existisse o livro da Elizabeth Jobim (nada pessoal, apenas questão de gosto). Ou de algum outro artista plástico. Todos os pesares eram porque não existiria mais o Tolstói, o Contos maravilhosos do Grimm, O bartleby, o Escrivão, da “Coleção particular”, Os Miseráveis na caixinha, a Coleção “Prosa do Mundo” nova sem os títulos na capa, as “Mulheres Modernistas” com aquelas capas duras incríveis… Posso continuar essa lista, mas em nenhum momento eu vi qualquer comentário sobre essas monografias.

A verdade é que ainda que seu dono insista que seu público é diferentão, ninguém se importava tanto com essas monografias. Não dá pra aceitar que digam que não existe um publico de leitores no Brasil. Eles existem sim, e estão aumentando cada vez mais. Só que o público de nicho de arte é infinitamente menor e jamais sustentariam uma editora.

O mais triste de tudo é saber que tudo aquilo que você pensava ser legal, ele não se importava. Simples assim.

E ficou claro na entrevista que o fim da editora é sim uma vontade pessoal, afinal a editora sempre pareceu uma aventura, um capricho para o milionário Charles Cosac.

3 comentários em “[Retrospectiva “bafão” 2015] Fim da CosacNaify

  1. Com devido respeito ao colunista, fui funcionário da Editora durante cinco anos, onde pude participar de quase toda a transformação nela feita. Acredito que independente da decisão tomada pelo nosso presidente, nada desonera a pessoa, que por tanto tempo procurou meios de enriquecer o publico com obras tão distintas e grandiosas; não as li todas, mas digo que com honradez, o Sr. Charles humanizava com todos lá dentro. Uma decisão pessoal não pode derrubar a personalidade e caráter, deste que foi um idealizador. Os poucos tempos que pude desfrutar de sua pessoa, a mim foram maravilhosos, portanto respeito integralmente a atitude por ele tomada, desempregado … sim, mas orgulhoso de um dia poder ter passado por lá. Obrigado pelo espaço – Jean Vabre Filho

  2. Se você afirma que ninguém se importava tanto com as monografias, você apenas prova o ponto do Charles Cosac de que a editora se desvirtuou e se transformou em algo diferente do planejado.
    A Cosac realmente vai fazer falta no mercado pelas edições caprichadas, mas não dá pra interferir numa decisão pessoal ou de uma empresa privada. O texto salvo por algumas outras marcas já me consola.

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