[Retrospectiva “bafão” 2015] Livros de Colorir

Começando nossa retrospectiva n’O Espanador, com um tema que ocupou o primeiro semestre de 2015 de uma forma avassaladora: os livros de colorir.

Quem minimamente acompanha as livrarias (nem vou falar do mercado editorial, que parece tão distante) com toda a certeza viu o fenômeno dos livros de colorir. Começando pelo original, que causou todo esse frisson, Jardim Secreto (publicado pela Sextante, editora que consegue criar/descobrir best sellers) da escocesa Johanna Basford. Segundo dados do Publishnews, ano passado somente este livro vendeu 719.626 exemplares (uau!). Como se isso não fosse suficiente, o segundo colocado da lista geral também é da mesma editora e autora: Floresta Encantada (485.222 exemplares). Ainda teve o Oceano Perdido, lançado no fim o ano, mas este vendeu ‘’apenas’’ 13.850 exemplares. [A Johanna tem um canal no YouTube e ela dá umas dicas dos livros e faz alguns tutoriais]

Johanna: a rainha dos livros de colorir

Vamos começar pelo simples. Livros de colorir para adultos já existiam muito antes desse sucesso. Além das bancas de jornais, existiam alguns livros de exercícios antiestresse e também as Mandalas para colorir, alguns deles, pasmem, já estavam nas prateleiras de livrarias. Mas esses livros da “coleção” Jardim Secreto que representaram um fenômeno mundial: venderam milhares de cópias no final de 2013 em vários países e essa onda chegou aqui no começo de 2015.

Impossível saber como essa onda acontece e qual o momento de apostar em um tipo de livro, mas fica claro que quem consegue ler os sinais invisíveis do mercado consegue se dar bem. Neste caso e na última onda, respectivamente, Sextante e Intrínseca (com a série “50 tons”).

O grande problema desses fenômenos de vendas, e não foi diferente com os livros de colorir é que, ao identificar o livro de sucesso, são lançados muitas “cópias”. Afinal, todos querem vender, se dar bem… E a febre foi tão avassaladora que tomou um espaço enorme dos outros livros “normais” e acabou irritando muitas pessoas.

Começou uma discussão se os livros de colorir eram livros de verdade e o sempre polêmico Carlos Andreazza, Editor de não ficção e literatura brasileira da Editora Record, deu uma entrevista botando um pouco de fogo na discussão:

Os livros de colorir estão roubando esses leitores? 
Este produto sempre existiu. É o bom e velho caderno de atividades. A questão é em que momento ele virou livro e o que isso quer dizer do mundo em que vivemos. Dos dez livros mais vendidos da lista de não-ficção do PublishNews, nove são de colorir. Isso cria um cenário artificial, como se o mercado tivesse exuberante, imune à crise, o que é falso. Quando a moda passar, o tombo virá. A leitura sumiu das paradas e nos vemos obrigados a falar redundâncias bárbaras como ‘livro para ler’. É uma piada. Livro pressupõe leitura.
Para ler a entrevista completa, clique aqui.

Essa discussão foi algo que tomou parte do primeiro semestre e quem trabalha nas livrarias reclamava de tantos novos livros sobre o mesmo tema e as editoras que não tinham livros de pintar reclamavam pelos cotovelos da pouca exposição dos seus livros.

O sucesso dos livros de colorir foi tão grande que a Faber Castell chegou a ter seus lápis de cor esgotados entre março e abril! Normalmente o pico de vendas é em janeiro e começo de fevereiro. No mês de abril a Faber chegou a vender cinco vezes mais do que o mesmo período do ano retrasado e uma das alternativas foi aumentar de dois para três turnos a produção na fábrica em São Carlos. E o curioso dessa demanda é que maior pedido foram as caixas com 36 e 48 lápis (notoriamente o público adulto, pois são os produtos mais caros). [Dados retirados daqui]

Polêmicas à parte, por mais que tenha sido muito importante para um ano complicado no mercado dos livros (as editoras se acostumaram com venda de governo e em 2015 não rolou muita coisa nesta área), ele não é um livro como pensamos normalmente. Não é um desprezo por esses livros, mas é bem simples: não tem história, não tem texto. Ele funciona muito bem como livro de atividade, antiestresse ou algo do gênero e não existe problema nisso. Não é nenhuma novidade, ele sempre existiu e vai continuar existindo. Mas não dá pra dizer que é livro como estamos acostumados a pensar nele. Tem que ter narrativa, história.

Outra discussão muito acirrada era se o livro de colorir estava “roubando” leitores, que agora estavam felizes preenchendo desenhos com cores. Não precisaria nem dizer que achamos essa a “polêmica” mais preconceituosa que veio dessa onda.

De suruba ao apocalipse zumbi, você pode pintar quase tudo.
(ou 5 livros que talvez você não tenha visto em meio a tantas flores e reinos encantados e que valem a pena):

Suruba para colorir

Game Of Thrones para colorir

3º Gatos (aqui n’O Espanador somos entusiastas)
Gatos, o livro de colorir

Gatoterapia

Gatomania

Pinte o Pintinho (somos fãs do Pintinho)

Zumbis para colorir

Para saber mais
Livros para colorir viram febre entre adultos como ferramenta antiestresse (Uol)
Livros de colorir levam amor e ódio ao mercado editorial (Folha)

Entenda a moda dos livros de colorir (Me explica)

Livros de colorir para adultos realmente alteram a atividade cerebral? (Galileu)

2 comentários em “[Retrospectiva “bafão” 2015] Livros de Colorir

  1. Eu falei sobre os livros para colorir em meu blog também, não tratei sob o ponto de vista se é ou não livro. Para mim está óbvio que não é um livro, é um caderno de atividades. Meu foco foi mesmo sobre o modismo e o quão rápido enjoei disso. Na verdade, me deixou uma herança: voltei a colorir de vez em quando, mas apenas imagens impressas da internet. E acredito sim que colorir pode ter tomado um pouco de espaço da leitura, eu sou leitora, mas quando estava colorindo não estava lendo, então… Abraço!

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