[Mania de Listas] Retrospectiva de leituras do Eduardo

Por: Eduardo Rodrigues

2015 tá sendo mais um ano de muitas leituras incompletas, infelizmente. Disparado o ano em que mais precisei deixar de lado livros incríveis e maravilhosos, que com certeza cabem numa lista à parte dos meus melhores livros abandonados em 2015… Talvez eu até faça isso, provavelmente…



Porém, e justamente por esse fato, não vou listar as minhas melhores leituras do ano (até porque o vencedor é sempre o mesmo, imbatível e soberano Gabo). Esse meu top 10 será uma lista cronológica, ordenando livros que foram importantes e que me causaram impacto ao longo desse ano ímpar e repleto de surpresas… Espero que o editorial aprove! 😉

Vambora!!

Em janeiro, quando certo desencanto estava tomando conta dos meus dias, fui atrás de uma releitura leve, divertida e deliciosa na minha prateleira de favoritos. Tenho um bom leque de opções que me salvam a pele em momentos de renovação, e o Firmin, do Sam Savage, é uma preciosidade para os amantes dos livros e das bibliotecas e cumpre o papel de alegrar qualquer alma! Muito simpático e sensível, conta a história de um ratinho que vai ficando cada vez mais inteligente e sagaz à medida que devora os livros da biblioteca onde vive. 

Fevereiro, março e abril foram meses dos quais não me lembro. Sei apenas que mudanças grandes aconteceram na minha vida, e que fui tomado por um furacão que me sugou por completo enquanto os dias passavam… Mas no fim de maio e início de junho, quando o coração aquietou um pouco e as emoções ficaram mais vivas, chegou o Correr, do Drauzio Varella, livro memorialista que analisa o afeto desse multimídia de 70 anos de idade pelo movimento, que além de tudo o que faz, ainda corre maratonas! O texto é incrível como sempre, mas vai além, porque radiografa a alma das ruas de São Paulo e de grandes capitais ao redor do mundo. Foi o livro que levei comigo para as férias, enquanto explorava as ruas e arriscava alguns quilômetros de corrida no Tiergarten, Barceloneta e às margens do Sena… Valeu e vale cada metro!!
Voltei de viagem em meados de junho me sentindo mais vivo do que nunca, arrepiando potência por todos os poros enquanto eu era invencível! E para avivar ainda mais o espírito, chegou às minhas mãos o espetacular Não derrame o leite!, da editora Pequena Zahar (é preciso até abrir um parêntese para dizer que 2015 foi o ano em que mais li livros infantis! Mais até do que quando me aventurava fazendo pequenas contações… Foram mais de 80 livros, com certeza, para mergulhar profundamente no universo Letrinhas e Alfaguarinha… aqui também cabe uma lista de melhores livros infantis lidos no ano… talvez eu também faça uma dessa). Mas fato é que Não derrame o leite! me amarrou com tanto amor, através das ilustrações, dos traços e versos lúdicos, da poesia, mas principalmente através da emoção amorosa. Sou um romântico incorrigível, e levar a tigela de leite integral gordo com a Penda é para quem tem coração de manteiga…

Mas as fortes emoções não findaram, e no começo de julho, Liniers estava em São Paulo, trouxe seu macanudismo, seu universo apaixonante, e eu acompanhei tudo ao vivo, filmando cada detalhe delicado com olhos de encanto, e depois, em casa, durante algumas noites, me deliciei com as páginas caramelizantes do Bonjour! Sendo bem sincero, em um ano de poucos quadrinhos lidos, é bonito olhar pra trás e recordar que teve isso, que aconteceu de verdade, que teve Liniers, que teve Olga & lt;3…

Como que para voltar à realidade a tapas, no final de julho, dois bons amigos me chamaram de canto e falaram com propriedade convincente sobre o breu que Stephen King tinha espalhado no mundo…  Com Escuridão total sem estrelas.

O livro escuro e que quase não foi publicado, devido à tamanha maldade humana contida em suas páginas, me nocauteou no meio do ano com dois contos poderosos e espinhentos, mas principalmente o “Extensão justa”, que tem 30 páginas muito perigosas. Eu já falei desse livro para muita gente, e continuarei falando, porque é um dos melhores contos que já li, embora seja do mal…

Daí em agosto aconteceu o milagre: como que empurrado por uma força sobrenatural, finalmente fui até um dos encontros do [Leituras Compartilhadas]. Também pudera, após dois anos de gentis e insistentes convites do grande Kalebe, meu livro favorito da vida estava na roda! Justamente no ano em que tinha decidido quebrar a tradição de lê-lo anualmente, Gabo veio com força e eu me apaixonei, e não apenas pelo clube.

Relembrando agora, aquela sexta-feira até faz mais sentido. Ursula teria me levado de qualquer jeito, os Aurelianos me fariam companhia eternamente na introspecção se eu não tivesse ido, e os Josés Arcádios com certeza cuspiriam no meu rosto com desgosto. Eu precisava ir e fui! Cheguei atrasado, mas na hora certa para sentir de novo o que eu já considerava impossível… Cien años de soledad é meu livro da vida! Porque ele literalmente mexe com a minha vida! Como é lindo saber que você existe, Gabo!!!

Em setembro, ainda acalorado, o [Leituras Compartilhadas] leu Zambra, e seu Formas de voltar para casa surpreendeu. Frases curtas e afiadas, todas cheias de vida e memória, como se fosse um recado constante, ecoando para sempre ser ouvido. É um dos livros que mais grifei e conversei, é o livro que gritou comigo para não ser um personagem secundário de mim mesmo, um livro de anestesia invertida, para sentir de verdade, mais ainda, e a cada frase um abraço dizendo que tava tudo bem, que ia dar certo, que a gente vai passar, mas ao mesmo tempo vai continuar… Zambra foi belíssimo!!

Outubro passou despercebido, mas novembro, enquanto perdia devastadoramente seu conceito de mês espetacular após dez anos de intensidade, me reservou duas leituras apaixonantes!! Rosa Candida foi lido em silêncio e contemplação (eu me esforçava apenas no exercício de imaginação, tentando perceber reações conjuntas, sentir junto)! Jamais vou me esquecer dessa flor raríssima que me trouxe um pouco de paz enquanto outras flores perdiam o sentido. O mês mais gangorra do ano, reservou também a semana mais íntima de todas. Com um balanço necessário para entender de uma vez e para sempre que algumas coisas já ficaram para trás, e o que importa realmente, de verdade, é viver a vida, e não sofrer a vida, por mais auto-ajuda de calçada que isso possa parecer. Leiam a incrível nórdica Audur Ava Ólafsdóttir e cantem seu nome por aí! Ela é linda!

O segundo livro marcante de novembro é culpa do essencial Leia Mulheres, e foi o magistral Antonio, da Beatriz Bracher! Fazia muito tempo que eu não me sentava para ler um livro e focasse completamente até terminá-lo, até sugá-lo por inteiro, como se ele já fizesse parte do meu corpo há uma vida. Foi lido literalmente num dia (na madrugada de sexta para sábado e depois na manhã e tarde até antes do jantar). 

A narrativa é brilhante, a tragédia familiar se aproxima da minha realidade, e os personagens estavam a meu lado o tempo inteiro, sussurrando tudo pra mim. Mais uma mulher forte como exemplo maior a ser seguido e venerado! E a questão da loucura e do silêncio que enlouquece. Livro grifado quase que de parágrafo a parágrafo, principalmente nas falas da fodástica Isabel e do trágico Teodoro. Este é um livro maravilhoso! Simplesmente maravilhoso.

E enfim, dezembro. Mais um ano de leituras acabando, mais um ano de vida se aproximando do recomeço e da continuidade. Graças a uma perda lamentável, Gratidão foi impresso, e o olhar precioso de Oliver Sacks sobre a vida e como deveríamos encarar nossas dificuldades e conquistas com uma ótica de agradecimento constante me conquistou. 

É muito difícil manter a calma e pensamento pacífico, já que somos bombardeados constantemente por tristezas e frustrações, e isso é uma certeza, tal qual a morte. Todos nós também chegaremos ao fim e dessa realidade partiremos para alguma outra que apenas a fé individual pode acalentar. Ter isso em mente pode ser muito frustrante e perigoso para quem não tem fé e apego num eventual pós vida. A saída de Sacks, dentre tantas pepitas num livro tão pequenino, é ser grato. Nós já conhecemos a maioria das coisas que existem neste mundo, e mesmo sem viver empiricamente a sensação de passar por todas elas, de alguma maneira misteriosa nosso eu lírico existencial identifica os sentimentos de dor, perda, desgosto, carinho, paixão e amor. Ser grato a uma vida plena é uma lição que só poderia ser ensinada por alguém que viveu muitas décadas e muitos elementos químicos… Apreender isso dentro de mim aos 31, como espero guardar e partilhar com pessoas queridas, é a maior das emoções que um livro e toda uma vida podem proporcionar.

Até agora foi um baita 2015, louco, insano, frustrante, ativo, apaixonante, aventureiro e com amor, de novo. E ainda não acabou…
Eduardo Rodrigues é livreiro há mais de onze anos, e sabe no íntimo o que precisa fazer para encerrar esse ciclo. Apaixonado sensível por coisas e pessoas, muitas vezes de modo exagerado, mas sempre sincero, descobriu, após a crise dos 30, e acredita fervorosamente, que movimento é vida!

Um comentário em “[Mania de Listas] Retrospectiva de leituras do Eduardo

  1. Estou começando com Liniers. adquiri todos os 8 volumes de Macanudo lançados até agora, mas só vou começar a ler a partir do volume #1 que ainda não peguei (já comprei, mas falta chegar na loja) Mas amanhã (10/06) estarei indo na livraria para pega-lo e vou comprar o BONJOUR.

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