[Mania de Listas] Melhores Leituras da Gabriela

Por: Gabriela Francine

2015 foi o ano em que duas coisas maravilhosas e relacionadas a livros entraram na minha vida: Leia Mulheres e As Bastardas. Dois clubes de leitura, um presencial e outro virtual, que me trouxeram livros que eu não teria lido de outra forma. Por causa disso 2015 foi o ano em que me descobri e comecei a me construir feminista e isso não tem preço.

Os livros sempre mudaram minha vida, mas esse ano foi realmente uma revolução, por essa razão essa lista tem mais mulheres do que nos anos anteriores, e isso se refletiu diretamente na minha vida.

Um teto todo seu, Virginia Woolf (Editora Tordesilhas)

Como não pensei nas obviedades desse livro antes nunca saberei, mas a forma como a Virginia coloca questões presentes na vida das mulheres, e principalmente das mulheres que escrevem ficção,  ainda hoje me fazem repensar meus valores, meus preconceitos, minhas falas e minha postura frente a qualquer trabalho realizado por uma mulher.

“De fato, se a mulher não existisse a não ser na ficção escrita por homens, era de se imaginar que ela fosse uma pessoa da maior importância; muito variada; heroica e cruel, esplêndida e sórdida; infinitamente bela e horrenda ao extremo; tão grandiosa como um homem, para alguns até mais grandiosa. Mas isso é a mulher na ficção. Na vida real, como o professor Trevelyan apontou, ela era trancada, espancada e jogada de um lado para outro.” (pág. 65)

A Louca da casa, Rosa Montero (Editora Nova Fronteira)

Esse livro traz tanta informação, tantas passagens sobre outros livros, autores e sobre a vida da própria Rosa Montero, que ao pegá-lo novamente fico surpresa com o quão fino ele é.  Aqui a autora também fala sobre a vida das escritoras e das dificuldades pelas quais elas passam, mostra todo seu amor  pelos livros citando passagens marcantes de alguns deles e conta trechos   interessantíssimos sobre conversas que teve com autoras e autores ao longo dos anos.

Enquanto traz dados factuais, ela constrói uma história ficcional, que nos leva a refletir sobre realidade X ficção de um jeito que para mim foi inovador. Ela é suave, marcante e impactante, tudo ao mesmo tempo, num mesmo parágrafo, numa mesma frase.

“Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres, mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano.” (pág. 108)

Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adiche (Companhia das Letras)

Sejamos todos feministas é uma versão de uma palestra ministrada pela Chimamanda no TEDxEuston em 2012. O vídeo está no youtube, o texto aparece de graça vira e mexe em formato digital. Ainda assim eu acho que é um livro de cabeceira que todos deveriam ter. Pra ler um pouco por dia, pra ler todos os dias, pra indicar para todas as pessoas DO MUNDO.

Chimamanda fala do feminismo com a naturalidade que ele merece, expõe situações pelas quais todas as mulheres passam em maior ou menor intensidade, explica quase que didaticamente a importância desse movimento para homens e mulheres, adultos e crianças. Foi somente depois dessa leitura
que eu pude dizer em voz alta: Sou Feminista.

“Decidi me tornar uma feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens.”
(pág.14)

Livre, Cheryl Strayed (Editora Objetiva)

Além dessa minha percepção e construção feminista e também por isso, 2015 foi um ano de intenso conflito interno, de muitos questionamentos pessoais, de uma reconstrução de personalidade e de uma necessidade de novos caminhos para mim.

Livre – a jornada de uma mulher em busca de um recomeço provavelmente seria um livro que não me tocaria em outro momento da vida, inclusive na época do lançamento, em 2012, eu cheguei a sentar com ele no colo dentro de uma livraria e desistir de comprar depois de dois capítulos.

Mas esse momento de intensa reflexão me fez grudar nessa leitura com todas as forças e desidratar de chorar com o último capítulo, em que a autora completa essa chamada jornada.

Cheryl conta essa história real em que tenta se encontrar alguns anos após a morte de sua mãe, quando nada mais faz sentido, fazendo sozinha uma trilha de 1.770 km pela costa Oeste dos Estados Unidos. É isso mesmo, são mil setecentos e setenta quilômetros de caminhada para conseguir entender o que está acontecendo e para onde ir depois disso.

Nada nessa história entra na minha própria caminhada, minha mãe está viva e muito bem obrigada, eu não me entreguei ao sexo desprotegido e compulsório como ela, nem pretendo me isolar de tudo e todos por meses e meses para levar meu corpo ao limite da exaustão. Mas ao longo do livro os questionamentos que ela se faz, as certezas que deixa pra trás e as perguntas que vai construindo mexeram comigo de um jeito que eu nem imaginava possível.

“Cheryl Strayed, escrevi repetidamente numa página inteira do diário, como uma garota apaixonada por um menino com quem espera se casar. O problema é que o garoto não existia, Eu era meu próprio garoto, plantando uma raiz bem no meio de meu desgarramento. Ainda assim eu tinha minhas dúvidas.” (pág.119)

O ano da leitura mágica, Nina Sankovitch (Editora Leya)

Quem me conhece já está cansado de me ouvir dizer o quanto sou grata à internet por me trazer pessoas que amam ler assim como eu. O quanto sou grata pelos livro me trazerem pessoas que hoje são essenciais pra mim, as chamadas e amadas “pessoas dos livros”. E é muito comum ouvir dessas mesmas pessoas que antes desse encontro virtual, que muitas vezes se torna presencial, não havia quase ninguém ou  ninguém mesmo com quem conversar sobre livros, sobre leitura, para trocar essa experiência maravilhosa que só os livros são capazes de nos trazer. Encontrar OS SEUS é realmente incrível, e neste livro a autora se mostra tão absurdamente apaixonada por livros que resolve após uma grande perda ler um livro por dia durante 365 dias.

A partir daí ela nos mostra as dificuldades de uma mulher casada e mãe se organizar para esse projeto, as mudanças que precisou fazer em sua vida, o apoio da família, a descrença da maior parte de seus conhecidos e o mais importante: o lugar fundamental que os livros têm em sua vida e na construção da sua família.

Nina fala deles com tanto amor, juntando pedacinhos de cada um para construir novas partes dentro dela, para entender a vida, as pessoas e as perdas que a vontade de abraçar o livro a cada página lida é enorme. Dá vontade de gritar “eu também acho isso”, “comigo também acontece assim”, “achei que só eu pensasse dessa forma” a cada capítulo finalizado.

Cheguei a pensar em fazer um projeto para ler todos os livros citados por ela, mas percebi que foi uma escolha muito particular, num momento muito particular, e que eu deveria dentro da minha vida de leitora percorrer minha própria particularidade.

“Livros são experiências, palavras do autor mostrando o consolo do amor e a sabedoria da memória. Alegria e lágrimas, prazer e dor: tudo isso se apoderava de mim enquanto eu lia na minha poltrona roxa. Eu nunca havia passado tanto tempo sentada e mesmo assim vivendo muito.”

O Sol é Para Todos, Harper Lee (Editora José Olympio)

Esse foi o único livro escrito por uma mulher que entrou na minha lista que é de ficção. Sempre tive muita curiosidade para lê-lo e simplesmente amei essa leitura. E como todo livro muito amado, é muito difícil para mim falar dele.

Por trabalhar com crianças desde sempre essa temática me atrai naturalmente e por ter uma relação intensa com meu pai, a paternidade relatada no livro me emocionou. O livro fala de exemplos e valores extremamente difíceis de serem passados para as crianças, porque são valores que vão totalmente de encontro com o que toda uma sociedade vive e prega na comunidade em que as crianças estão inseridas. Sinceramente o racismo foi um tema secundário pra mim durante a leitura.

Não sei se amo mais o Atticus ou a Scout.

Tirza, Arnon Grunberg (Editora Rádio Londres)

Tirza foi meu livro mais perturbador do ano e por enquanto da vida. Conversei com várias pessoas que não conseguiram chegar ao fim dessa leitura, tamanhos sentimentos ele desperta.

Durante a leitura perdi o chão algumas vezes, me assustei, tive medo do que o narrador iria revelar e senti meu coração disparado quando ele contou o ápice da história que é tenebroso, de um jeito banal, quase leviano.

Anna Kariênina, Liev Tolstói (Editora Cosac Naify)

Apesar de saber de algo muito importante que acontece com Anna Kariênina, já que as pessoas acham que só porque o livro é um clássico não tem problema contar as partes principais pra quem não leu, AK me surpreendeu.

O livro traz muitas personagens, diversos núcleos que se conectam, e eu me interessei por todos eles, são 800 páginas que me fizeram mergulhar na  narrativa maravilhosa do Tolstói e questionar a protagonista, já que todas as tramas são tão bem montadas e contadas que todos em determinados momentos são protagonistas dessa história.

Pensei sobre família, paixão, feminismo, fidelidade, maternidade e mais dezenas de assuntos tratados lindamente.

David Copperfield, Charles Dickens (Editora Cosac Naify )

Durante um clube de leitura do qual participei este mês, fiquei sabendo que Dickens recebia por cada palavra escrita e desejei internamente que ele tivesse escrito ainda mais palavras. A edição de David Copperfield que li tem 1243 páginas, mas eu leria 4321 sem nenhum problema.

Em determinados momentos eu queria ter conhecido Copperfield
pessoalmente, queria que ele fosse meu aluno, meu amigo, meu tio, meu vizinho. Foi amor a primeiro capítulo, quero ler tudo desse autor, e já fico triste em saber que essa leitura assim como esse livro será finita.

A vida da personagem é detalhadamente descrita, suas relações esmiuçadas, suas qualidades me emocionaram e suas fraquezas me fizeram querer colocá-lo no colo e dizer “eu te entendo”. É um daqueles livros que quando alguém me diz que não gostou me faz questionar a sanidade alheia.

Cem anos de solidão, Gabriel García Marquez (Editora Record)

É o livro preferido de muita gente e com toda razão. O que mais me surpreendeu durante a leitura, foi que há elementos fantásticos pra ninguém botar defeito, mas em nenhum momento eu questionei nenhum deles, acreditei em cada linha como se fosse realmente a biografia daquela família.

Confesso que os nomes que se repetem por páginas e páginas, por gerações e gerações me incomodaram e confundiram diversas vezes, mas entendo totalmente essa escolha para a construção da história. Para mim a família divide espaço com o sexo, tão forte e presente nessa narrativa, o que é natural, já que um não existe sem o outro, tanto que nem o incesto tão presente, que normalmente me choca, me trouxe questionamentos.

K. e Você vai voltar pra mim, Bernardo Kucinski (Editora Cosac Naify)

Preciso falar desses livros juntos, porque além de ter lido um logo após o outro, as leituras parecem muito complementares pra mim. Fiquei sabendo desses livros e tive a oportunidade de lê-los devido a outro lindo projeto criado esse ano, o Lendo a Ditadura.

A trajetória percorrida pelo pai em busca de sua filha desaparecida em K., e os relatos dos contos de Você Vai Voltar pra Mim falam da mesma história na minha percepção. Da época da ditadura em que todos estavam ligados e envolvidos direta ou indiretamente na tensão presente nas relações e escolhas de todas as pessoas.

Como alguém pode validar ou desejar a volta desse período macabro do país foge da minha compreensão. Como defender a morte, a tortura, a dor das famílias que ainda hoje não sabem o que realmente aconteceu com seus filhos, pais e irmãos?

Os dois livros são curtos e rápidos de serem lidos, mas é tudo tão duro, tão triste e o pior, tão real, que eu não conseguia ler mais que poucas páginas por dia.

Gabriela Francine lê o tempo todo, todo o tempo. É mãe da Zoe e do Bruce. E ainda faz vídeos sobre as suas leituras no Youtube.

Um comentário em “[Mania de Listas] Melhores Leituras da Gabriela

  1. Gabi, sua lista foi a minha preferida! Amo o jeito doce e emocional com que vc fala das suas leituras. Sou feminista e por tanta coisa extrema que tenho visto, parei de dizer isso. Suas leituras e suas construções do ser feminista me fizeram pensar novamente em me reconstruir. Minha visão de feminismo vem muito de um livro chamado Mulheres que correm com os lobos, me vejo como uma mulher cuidadora e sabia. Espero que vc goste e tb se reinvente, assim como espero que farei com suas indicaçoes. Beijos!

  2. Gabi, sua lista foi a minha preferida! Amo o jeito doce e emocional com que vc fala das suas leituras. Sou feminista e por tanta coisa extrema que tenho visto, parei de dizer isso. Suas leituras e suas construções do ser feminista me fizeram pensar novamente em me reconstruir. Minha visão de feminismo vem muito de um livro chamado Mulheres que correm com os lobos, me vejo como uma mulher cuidadora e sabia. Espero que vc goste e tb se reinvente, assim como espero que farei com suas indicaçoes. Beijos!

  3. O Sol é Para Todos eu li em 2010. Releitura vem aí, por causa da tão esperada continuação. Anna Karenina está na estante desde 1982 (!). Passei o Guerra e Paz na frente e foi minha leitura do ano. K. comprei há pouco tempo e está na fila. Da lista, anotei o Tirza. Compra certa no começo de 2016.

  4. O Sol é Para Todos eu li em 2010. Releitura vem aí, por causa da tão esperada continuação. Anna Karenina está na estante desde 1982 (!). Passei o Guerra e Paz na frente e foi minha leitura do ano. K. comprei há pouco tempo e está na fila. Da lista, anotei o Tirza. Compra certa no começo de 2016.

  5. Lua, muito obrigada pelo seu comentário, desculpe a demora pra responder, mas só hoje me lembrei de vir aqui ver os recados.
    Eu sou mesmo muito emocional com minhas leituras, amo o jeito em que elas se encaixam na vida da gente de um jeito especial em determinados momentos, e 2015 foi realmente o ano do feminismo, e só poderia ter entrado na minha vida pelos livros e por essas pessoas maravilhosas dos livros.
    Beijo enorme!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *