Sobre reler Cem Anos de Solidão. Ou como é reler o seu livro favorito

Ilustração de Carybé, que está em várias versões de Cem anos de solidão 

Existem aqueles livros que se encaixam naquela categoria máxima do leitor: o “Livro Favorito” (aqui também se encaixa as denominações “Livro da Vida”, “O Número 1”, entre outras definições). E seria impossível tentar justificar o porquê desses livros chegarem nesse patamar. Subjetividade sem fim. Não é essa a minha vontade e menos ainda a intenção. 

Fato é que para o [Leituras Compartilhadas] (para quem não sabe, este é o nome do clube de leitura presencial – e mensal –  d’O Espanador) de agosto de 2015 o livro escolhido foi Cem Anos de Solidão, do colombiano vencedor do Nobel (1982) Gabriel Garcia Marquez. O meu “Livro Favorito”, entre todos os livros, esse é o “Meu Número 1”. Essa mania de fazer listas que não me deixa em paz. 
Provavelmente eu não saberia dizer assim de cara quais são o número 2, 3 ou o 7. Claro que eu tenho uma ideia de quais livros poderiam estar, mas essa falta de clareza só reforça o peso e a importância de Cem Anos de Solidão.
Fazia um tempo que eu não relia o livro, acho que mais de cinco anos. E desde que eu li da primeira vez, eu tentei ler ele novamente pelo menos a cada três anos.
E o que eu encontrei nesta última releitura de Cem Anos de Solidão foi que ele parece cada vez melhor. Não é exatamente melhor, mas parece que meu amadurecimento como leitor me permite que eu aprecie detalhes que antes não me chamavam tanto a atenção. O livro dialoga cada vez mais comigo. Meio egoísta dizer isso, dessa forma, mas os livros favoritos têm essa tendência ao egoísmo. Um sentimento de posse, como se o livro fosse só nosso.
Dessa vez eu vi outros personagens com um olhar mais curioso. Depois de conhecer Úrsula, José Arcadio e o coronel Aureliano Buendía, fica difícil não torcer sempre para eles. A presença desse trio é imponente e o carisma é simplesmente arrebatador. Sempre pensei que o livro perde um pouco a força na parte final do livro, justamente no momento que o trio deixa de ter a atenção principal. Mas dessa vez consegui me apegar mais a alguns personagens da quinta, ou mesmo da sexta, geração. A percepção política de Gabo sempre foi umas das coisas que mais me atraia no livro, mas a divisão entre os liberais e os conservadores feitas pelo Coronel Aureliano Buendía ganham uma força ainda maior frente a tempos tão estranhos como esse que vivemos.

Nessa nova releitura, foi impossível não pensar porque esse livro é tão importante para mim. Talvez essa história seja repetitiva, mas eu era um leitor normal com uma bagagem bem pequena de leitura e quando li Cem Anos de Solidão pela primeira vez. E foi como se eu tivesse descoberto um universo que eu nunca imaginei ser possível.

Pode parecer complicado dimensionar esse impacto, mas eu não conseguia pensar que um livro conseguiria equilibrar elementos do descobrimento de um novo mundo (os ciganos trazendo o gelo), uma família que lembrava um pouco todas as famílias (principalmente quem tem parentes do interior), uma pessoa que come terra, guerras entre conservadores e liberais, história da América Latina e tantas outras coisas.

Fazer a releitura de Cem Anos de Solidão de tempos em tempos acabou sendo uma forma de voltar a esse livro tão fundamental na minha formação. Como se eu pudesse descobrir novas maneiras de ler e principalmente ver como a minha experiência de vida enriquece a nova releitura. Eu quero que esse livro me acompanhe sempre.

Dividir Cem Anos de Solidão com outras pessoas
Talvez duas coisas foram as mais marcantes nessa releitura.
1 – A Juliana leu Cem Anos de Solidão pela primeira vez e gostou bastante do livro
Para quem ainda não a conhece, a Juliana, minha companheira de Espanador (e da vida) nunca tinha lido Cem Anos de Solidão. E infelizmente a responsabilidade é um pouco minha. Explico melhor: Eu sempre falei desse livro, só que eram sempre com elogios exagerados. E com isso a Juliana foi adiando cada vez mais a leitura.

Pode parecer que não tem nada de extraordinário nisso, mas ler o livro ou mesmo ver o filme favorito de alguém que você ama é sempre muito problemático. Existe uma expectativa que é difícil controlar. Óbvio que não é o final do mundo se a outra pessoa não gostar, mas quando você gosta muito de algo, é normal querer que outras pessoas também gostem. Ainda mais quando essa pessoa é tão importante pra você.

2- O Clube de Leitura

[Leituras Compartilhadas] discutindo Gabo
No mês em que o [Leituras Compartilhadas] completou dois anos de muito amor, o livro escolhido foi Cem Anos de Solidão. O tema do mês era livro de cabeceira e o meu foi o mais votado.
Já falei diversas vezes da experiência do clube de leitura, de como nossa leitura expande e muda quando é compartilhada com outras pessoas que leram o mesmo livro e estão ali pelo mesmo motivo. Esses fatores já tornam o clube uma experiência única. 
Eu me emocionei e confesso que não lembro tanto do que foi falado exatamente. Alguns estavam relendo, outros leram pela primeira vez. O que me marcou foi perceber um pouco das nossas heranças do interior, contando histórias malucas que mais parecem inventadas, impressão de várias pessoas presentes no encontro. 
Teve a descoberta que esse é também o livro favorito do Eduardo Rodrigues, amigo dos livros de longa data e que muitas pessoas afirmam que somos idênticos e que foi no clube pela 1ª vez justamente no Cem Anos de Solidão. Mais uma das nossas inúmeras (e assustadoras) semelhanças. 
Queria falar de cada umas das pessoas que estiveram lá, mas a memória já me trai. Esperei pelas pessoas que não gostaram e consegui ver os “defeitos” apontados sem nenhum problema. É preciso tentar ser um bom mediador, mesmo com seu livro favorito. 
Acho que eu já me arrastei nesse texto, mas queria só falar uma coisa. Quem falou por último no clube foi um amigo nosso, Philippe. 
Ele veio da França e casou com uma amiga nossa e já fala bem o português há muito tempo. Foi ela quem deu o livro para ele e disse algo como “Para você entender como a América Latina é”. E ele disse que ficou impressionado com o livro e disse: “A América Latina não é para os fracos”.

Eu escolhi essa frase pra terminar esse texto pelo que ela representa.

Quando eu penso em Cem Anos de Solidão, o que me vem a cabeça é como um autor conseguiu dar voz e história a um continente que nunca parecia ter uma voz. E por mais que o Brasil em alguns momentos pareça tão distante dos países irmãos que compõem a América Latina, ele também faz parte. E com este livro Gabo conseguiu construir uma identidade, compartilhar um pouco de histórias desse continente tão maltratado.

Curioso que foi justamente com um olhar de fora que eu percebi o quanto esse livro é significativo nessa questão de identidade da América Latina.

Entender tudo que passamos (verificar também outro livro fundamental, mas dessa vez de não ficção, As veias abertas da América Latina, do Eduardo Galeano), é realmente perceber o quanto temos de história por trás de tudo. É poder afirmar com toda a certeza que a América Latina não é para os fracos.

Melhor jeito de terminar esse texto não há. 

Um comentário em “Sobre reler Cem Anos de Solidão. Ou como é reler o seu livro favorito

  1. Ahhhh, mas que textão bom de ler e lembrar dessa noite que foi realmente incrível!!
    com certeza demorei tempo demais para participar do Leituras Compartilhadas, mas se algo pode ser dito, é que momento mais oportuno não seria possível… que as ótimas coincidências assustadoras continuem a surgir!! abraço, meu bom!!!

  2. Também li nessa fase de “pouca experiência de leitura” (na qual ainda me encontro)… posso dizer que tbm é um dos meus livros da vida e que, com certeza, contribuiu muito para minha aproximação com os livros, com a literatura. Fico pensando que o motivo por eu n ver mta graça em diversos livros recentes é porque já li “Cem anos de solidão”, difícil de achar livros desse nível, que encantem dessa forma.

    Bjs!
    Laís

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