[Espananews] Svetlana Alexievich – Prêmio Nobel de Literatura 2015

Na quinta-feita passada, dia 8 de outubro, a Academia Sueca anunciou a nova vencedora do Nobel de Literatura, a bielorussa Svetlana Alexievich. Apesar de ser apontada nos dias que antecederam a premiação como favorita, é possível dizer que a escritora foi uma surpresa, pelo menos para as pessoas que não costumam colocar o seu dinheiro nas casas de apostas.

Segundo o comitê que decide o vencedor do Nobel, Svetlana Alexievich foi escolhida por sua “obra polifônica, um monumento do sofrimento e da coragem em nosso tempo”.

Svetlana tem uma obra relativamente curta (cinco livros), mas muito significativa e expressiva. E o motivo de ter poucos livros publicados é o tempo que a autora demora para escrever cada um deles. Voices from Chernobyl: The history of a nuclear disaster, um dos seus livros mais conhecidos, por exemplo, foi publicado em 1997 e demorou dez anos pra ser escrito e coletou centenas de depoimentos dos sobreviventes de uma das maiores catástrofes do século passado. Essa demora da escrita dos seus livros talvez nos diga um pouco sobre o principal objetivo da escritora: o lado humano das tragédias do nosso tempo.

Seus livros formam uma espécie de coleção, que ela nomeia como “Voices of Utopia” e para compor cada um deles, a autora faz entre 500 e 700 entrevistas. Não deve ser simples escolher entre tanto material humano.

“Estou buscando a vida através de observações, nuances, detalhes. Pois o meus interesse na vida não é o evento em si, não a guerra em si, não Chernobil em si, não o suicídio em si. O que eu estou interessada é no que acontece com o ser humano, o que acontece com ele no nosso tempo. Como esse homem se comporta e reage. O quanto há de biológico nele, quanto de seu tempo há nele, o quanto de homem há neste homem.” 
[o trecho é uma tradução amadora, fique claro, de um texto do site oficial da autora]
Em língua russa Svetlana Alexievich criticou de forma implacável diversos momentos fundamentais da antiga URSS. Por este motivo, teve seus livros proibidos na URSS e posteriormente censurados na Rússia e Bielorussia. Sua crônica abrange diversas gerações, desde memórias das pessoas que sobreviveram a revolução de 1917, até aqueles que passaram pelo período entre guerras, e depois aos gulags stalinistas, chegando aos tempos presentes.

Vida e obra

Svetlana Alexievich nasceu em 1948 na cidade de Ivano-Frankivsk, na Ucrânia, mas cresceu na Bielorrússia. Se formou em jornalismo na universidade de Minsk em 1972. Trabalha atualmente como jornalista e mora na Alemanha.

Segundo a acadêmia, a autora “inaugura um novo gênero literário, entre o jornalismo e a ficção”.

Seu primeiro livro The Unwomanly Face of the War, de 1983, narra relatos de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial (segundo a autora, a guerra só foi narrada por homens, mas também foi vivida por mulheres). Em The Last Witnesses: the Book of Unchildlike Stories, a autora foca nas crianças que testemunharam a guerra. 

Seu terceiro livro, Zinky boys: Soviet voices from Afghanistan war (1989), é sobre os dez anos de guerra entre a URSS e o Afeganistão e traz mais de cem relatos de oficiais e soldados. The Chernobyl Prayer: Chronicles of the Future (1997) fala sobre as pessoas que viviam na cidade que sofreu o maior desastre nuclear da história.

O foco de seu último livro, The Wonderful Deer of the Eternal Hunt, é bem diferente dos anteriores: a autora investiga e relatos histórias de amor e a busca por felicidade.

“Cheguei à conclusão que eu venho escrevendo livros sobre como as pessoas matam uma às outras e como elas morrem. Mas isso não  representa a totalidade da vida. Agora estou escrevendo sobre como as pessoas amam umas às outras. E novamente faço as mesmas perguntas, mas desta vez sob a perspectiva do amor: quem somos nó e qual é o país em que vivemos. O amor é o que nos traz ao mundo. Eu quero amar as pessoa. Mas está cada vez mais difícil amar as pessoas.”

[o trecho é uma tradução amadora, fique claro, de um texto do site oficial da autora]

O prêmio
Svetlana foi a 14º escritora a ganhar o prêmio Nobel. Nos últimos dez anos parece que houve um equilíbrio maior na entrega dos prêmios: dos dez prêmios concedidos, quatro foram para escritoras: 2013 – Alice Munro (Canadá), 2009 – Herta Müller (Romênia), 2007 – Doris Lessing (Reino Unido), 2004 – Elfriede Jelinek (Áustria).

O incomum foi a escolha do prêmio para uma obra de não ficção. A última vez que isso aconteceu foi com o francês Jean-Paul Sartre, que foi o escolhido pela acadêmia sueca em 1964 e declinou do prêmio (o autor também escreveu ficção, mas ficou associado aos seu trabalho na filosofia).

Nos últimos anos, o Nobel tem tentado conciliar os prêmios e sua relação/importância política.Talvez o mais notório desses últimos anos tenha sido Hertha Müller, que tem uma obra bem contundente contra a ditadura na Romênia. Ainda que seja um prêmio literário, dar voz a alguém que denuncia/luta contra um regime opressivo, é sim uma forma do Nobel fazer política.

Existe uma crítica muito grande a essa forma de fazer politica do Nobel, que acreditam não ser essa a função da premiação. Mas o fato é que podemos afirmar que o prêmio deste ano foi em parte político (todos as nossas ações podem ser políticas, mas essa é uma discussão longa que não vamos entrar nesse momento), o que não coloca em questão a qualidade da obra da autora. Seja por suas críticas ao regime da antiga União Soviética, tentando desconstruir temas considerados tabus, ou através da visão do indivíduo (as mulheres que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial, ou os soldados da guerra no Afeganistão), ou ainda por dar voz às pessoas que sobreviveram a um dos maiores desastres do século passado, Chernobil, a obra da autora toca em pontos muito sensíveis da política.

Svetlana foi duramente criticada pelo presidente (no poder desde 1994) da Bielorrúsia, Alexander Lukashenko, depois da publicação do livro The Chernobyl Prayer: Chronicles of the Future e chegou a censurar o livro, por se tratar de um tabu no país. A autora também é muito crítica ao regime de Putin e a situação da Rússia. Há mais de cinco ou seis anos ela tem chamado a atenção das pessoas para a questão do nacionalismo russo e da questão com a Ucrânia, mas ninguém parecia acreditar e hoje ela afirma não saber o que pode acontecer no país.

Uma das ótimas notícias deste Nobel é exatamente podermos ter contato com uma autora que nunca chegou aqui em nenhuma tradução. Esse prêmio deve servir como impulso para as editoras brasileiras traduzirem um pouco dessa voz tão impressionante.

[ATUALIZAÇÃO] A editora Companhia das Letras anunciou no dia 22 de outubro que lançará 4 títulos da autora aqui no Brasil. Sem previsão para lançamento, a editora comprou os direitos de Time second hand, War’s Unwomanly Face, Last witnesses e Voices from Chernobyl.

Para saber mais sobre a autora e a repercussão do prêmio, separamos textos interessantes:

“Se alguém tem interesse na ex-União Soviética, é preciso ler seus livros. Esse é o tema central de sua obra, seu material, sem a intervenção dos analistas.”
Site do El País

“As repercussões políticas do Nobel de Literatura de 2015 talvez não estejam na geopolítica. Mas na afirmação de que o jornalismo, quando feito de forma séria, empenhada e, por que não?, obsessiva, continua a ser um instrumento fundamental de leitura crítica do mundo. Por mais que parte significativa da imprensa insista em mostrar o contrário.”

Paulo Roberto Pires, no Blog do IMS

“Claro que, antes de mais nada, a honraria faz justiça a gerações de escritores que lidaram com o real para relatar grandes e pequenos dramas, aspectos pouco observados da realidade ou que ajudaram a iluminar fatos que, muitas vezes, estavam debaixo do tapete.”

Leandro Sarmatz, no blog da Companhia das Letras

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