Por lugares incríveis – Jennifer Niven

por lugares incriveis
O suicídio é um tema forte, quem já perdeu alguém por essa tragédia sabe o quão pesada a vida se torna, e o quão difícil é entender a cabeça da pessoa que se foi, pois muitas vezes parece uma ruptura com aquilo que conhecíamos, como se um dia a pessoa estivesse bem e no outro… é um choque. O grande acerto da narrativa de Por lugares incríveis é conseguir transmitir um pouco dessa sensação com o desenrolar da história. Infelizmente isso mais parece ser a consequência de um grande erro, do que um efeito estruturalmente planejado. Jennifer Niven vai nos contar a história de dois adolescentes que por motivos distintos acabam no parapeito de um prédio, prontos (ou quase prontos) para dar fim a vida e ao se conhecerem começam a ter um amizade, que as poucos vai se tornando (adivinhem?!!? … cuidado que vai ser chocante) um caso de amor, e por meio de alguns clichês ela tece essa história que tenta dar um tom leve ao suicídio e isso é tão… frustrante.
Dia desses vi um livro que fala um pouco sobre suicídio, ele tem o estilo/plágio do Destrua esse diário da Keri Smith, o que poderia ser uma ideia bem interessante, entretanto o autor resolveu ser um pouco mais “específico”: ele fala exatamente de suicídio provocado por espinhas… ¬¬. Não foi o auto-corretor, foi isso mesmo que você leu. Não vou entrar no mérito do quão bizarra é a ideia, só acho que se alguém comete o ato final por causa disso provavelmente é uma questão mais de auto-imagem x mundo em que vivemos do que de pus, mas isso serve para ilustrar o quanto isso é às vezes romantizado demais querendo ser o novo Werther, ou suavizado de forma excessiva, e é este o caso aqui.

Por Lugares Incríveis não chega a ser um livro ruim, é uma história concisa e escrita de uma maneira ok, mas está longe de ser bom, pois tem problemas. Ele fica numa zona de conforto em todos os sentidos, ganhando aquele joinha do regular. O que é uma merda, pois não te faz sentir nada. Não é difícil de ler, na verdade até é extenso em suas 340 páginas, mas você lê rápido e às vezes se parar para pensar durante a leitura, percebe que poderia cortar muita coisa. A concisão na história não faz, entretanto, mágica. O casal principal não tem muita profundidade e não escapa do clichê de um romance juvenil, e ainda há uma diferença bisonha de construção dos personagens. Isso foi o que mais me incomodou.
Violet perdeu a irmã em um acidente de carro, ela tem o tom certo e uma progressão interessante. Ela está no parapeito meio que por transe, perdida na vida e quase em depressão. Ela se aproxima da idade em que a irmã perdeu a vida, se sente culpada e não tem ninguém próximo para ajudar a juntar seus pedaços. Até que ela conhece Finch no parapeito e ele se torna o confidente, o amigo, o amante. Nesse momento o livro de Niven se encaixa como uma pluma no mundo da literatura Juvenil, e se for moderninho na verdade é YA (Young adults) – apesar que eu não engulo essa tentativa de encaixar o padrão americano no nosso dia-a-dia, mas enfim… divago. O que importa dizer é que a estrutura Personagem Y perdido na vida encontra X que o ajuda a superar as dificuldades e ver a vida com outros olhos, é um padrão bem básico em Literatura Juvenil/YA, e Finch encaixa como uma luva dentro do papel do personagem X. Se ficasse só no arroz com feijão ok, mas considerando que Finch tem pensamento suicidas, ele deveria ser um personagem complexo… mas não é.
Finch, aliás, é muito fraco como personagem, ele trata seu pensamentos suicidas como brincadeira, você nunca o leva a sério aquilo que está pensando sobre o tema, isso porque apesar de ser um personagem que está a todo o tempo refletindo em estatísticas, maneiras, e etc, ele é rebelde, solitário, não se encaixa na sociedade, brilha no sol e um vamp… Peraí! Livro errado, mas é quase isso. Ele também é brincalhão, intrépido e muito mais sóbrio com relação a seus pensamentos do que Violet, por isso ele acaba fazendo o papel de salvador. Sua ideia de fazer um trabalho final de conclusão do colégio visitando vários lugares da Indiana, é o que os aproxima e que é o mote principal do livro.
Porém ele tem esses pensamentos suicidas a todo momento em tom leve. Por vezes faz coisas esquisitas que rompem com o entendimento do personagem e quando é revelado o motivo da revolta com a vida, se resume a problemas com o pai, família e o divórcio. Agradecemos que temos menos adolescentes como ele ou a raça humana estaria com problemas de continuidade. Não que esses motivos não sejam o suficiente para ser uma causa. Eles são uma causa na maioria da vezes. Mas do jeito que isso aparece na narrativa e a pouca problematização desse aspecto não é verossímil. Aliás a grande palavra é essa: Violet até existe como uma personagem, mas ele é inverossímil, oscilando muito entre o galã da novela das seis, um James Dean fora de época, e um menino com problemas. Mas como você não compra os problemas dele, sua progressão fica fraca. Como consciente dessa oscilação de humores do personagem, a autora resolve insinuar bem diretamente que ele pode ser bipolar, e tipo. não. não. nãonãonãnao!!!!!
Ok, você pode pensar, às vezes o personagem não é compreensível para leitor mesmo. Sim, caro leitor, você está certo. Mas vamos fazer um passeio pelo incrível mundo do foco narrativo, tirando a poeira do Bacharel de Letras. Vou evocar uma tipologia de pontos de vista para explicar o principal problema da história. Lembrando que uma tipologia é uma convenção, mas dá certo na maioria das vezes, tendo por vezes exceções. Quando fazemos ou lemos um história, o ponto de vista direciona o quão próximo estamos dos personagens. Ele pode ser em terceira pessoa, olhando de fora e se intrometendo, ou não. Isso dá mais liberdade aos personagens de fazer o que quiser, com um narrador narrando o que eles fazem. Quando estamos em primeira pessoa, o narrador tem que ter completo domínio do personagem e este vai te narrar a sua história, então é mais pessoal.
Por Lugares incríveis tem dois personagens intercalando capítulos, e narrando em primeira pessoa a história. Um problema menor: eles parecem ser o mesmo personagem, mas pode ser uma leve impressões minha. Um problema maior: a autora não narra no passado, ela faz personagens narrarem no presente como se tudo estivesse acontecendo enquanto eles contam. Um ótimo recurso para colocar intensidade na narrativa, mas ela não faz isso. A narrativa é sóbria e isso me incomoda muito, pois é o mesmo peso para tudo. Tipo assim: “Acordo e passeio pelo parque. Subo na torre, penso em me matar, mas tem outra pessoa aqui. Escovo os dentes. Perco a virgindade dentro do carro. Dou uma volta de bike. Ela me olha estranho. Chego em casa e meu pai bêbado me lança na parede. Penso em como seria engraçado me matar assim. Durmo e sonho com sorvete de limão.” Há vários momentos de intensidade na história em que os personagens estão narrando as coisas assim, sem emoção, catarse, poesia, etc… fazendo o arroz com feijão da narração. Então o fato de não comprar o personagem de Finch, mesmo com ele narrando a SUA história no presente, é um grande problema.
Enfim, apesar de ter feito várias piadinhas, eu sinceramente não achei ruim de todo, mas não consigo indicar. É um livro muito ok. Sem problematizar o tema, com um história que segue religiosamente os três atos de uma história, personagens que encaixam dentro de seus respectivos papéis da história de garota/o encontra garoto/a. Fica claro que o foco é Violet e Finch é o agente da transformação, mas como personagem é fraco e a construção do Romance tem problemas. Não indicaria, mas é um livro que pode levar a reflexão do tema a partir da história e não dentro dela.
Por lugares incríveis
Autora: Jennifer Niven 
Tradução: Alexandra Esteche
Editora Seguinte (Cia. das Letras)
336 pgs 
(Comentários extras, recheados de spoiler, para quem não liga ou já leu)
Minha resenha só fecha bem se eu disser o porquê de abrir o texto falando que o livro só fez uma coisa certa, mas foi meio que acidente, coisa que não dá para explicar nos parágrafos acima. No terceiro ato do livro, Finch acaba fazendo o derradeiro ato, e a minha reação foi um pouco surpresa. Como disse acima, eu não o achei verossímil, eu o achei um herói. O fato dele sumir na narrativa e o encontrarmos morto cria uma sensação de deslocamento e de tentar entender como isso aconteceu, isso é bem verossímil. Dura pouco. Eu credito isso a uma cau…consequência da narração: fazer o Finch um cara muito na boa, engraçado e que não dá para levar a sério sua ideia de suicídio, pois ela é muito idealizada. Pode ser estratégia da autora? Duvido. Seria muito mais poderoso se tivéssemos só ponto de vista de Violet, seria mais conciso e todos problemas que vi na narração de Finch sumiriam. Aqui chamo de terceira parte, pois o livro é dividido assim, mas ela é tão curta que seria um epílogo.
A autora tenta criar uma final poético de Violet seguindo a ideia original da trilha de Finch por Indiana, e percebe que ele fez sem ela, e ela vê sinais de sua passagen pelos lugares e chega em um lugar que ela acha um bilhete endereçado para ela, provando que ela o amava e ele também. Que lindo… só que não! Toda a cartase que ela poderia ter é substituída por esse final clichê que ainda por cima romantiza o ato de Finch. Enfim, fraco.

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