A amiga genial

“Naquele último ano da escola fundamental, a riqueza se tornou uma ideia fixa. Falávamos dela  como nos romances se fala de uma caça ao tesouro. Dizíamos: quando ficarmos ricas, faremos isso e aquilo. Quem nos ouvia achava que a riqueza estivesse escondida em algum canto do bairro, dentro de arcas que, ao serem abertas, chegavam a reluzir, só à espera de que as descobríssemos. Depois, não sei por que, as coisas mudaram e começamos a associar o estudo ao dinheiro. Pensávamos que estudar muito nos levaria a escrever livros, e que os livros nos tornariam ricas. A riqueza era sempre um brilho de moedas de ouro trancadas em cofres inumeráveis, mas para alcançá-la bastava estudar e escrever um livro.

‘Vamos escrever um, nós duas’, disse Lila certa vez, e a coisa me encheu de alegria.

Talvez a ideia tenha ganhado corpo quando ela descobriu que a autora de Mulherzinhas ficou tao rica que deu uma parte de sua fortuna à família. Mas não tenho certeza. Pensamos sobre o assunto, eu disse que podíamos começar logo depois do exame de admissão. Ela concordou, mas não soube resistir. Enquanto eu tinha muito o que estudar, inclusive por causa das aulas vespertinas com Giglilola e a professora, ela estava mais livre, se lançou ao trabalho e escreveu um romance sem mim.” pgs 63 e 64

Elena (Lenu) e Rafaella (Lila) são amigas há mais de sessenta anos. Certo dia, Lila some sem deixar vestígios. Roupas, documentos, fotos… Tudo foi levado ou “apagado”. Como forma de vingança, ou ainda de resgatar a amiga perdida, Elena resolve escrever tudo que se lembra da história das duas. É assim que começa A amiga genial, primeiro volume da tetralogia Napolitana.

Antes de qualquer consideração sobre o livro, é preciso fazer um pequeno esclarecimento. Muitos foram os que compararam a série de Ferrante à do norueguês Karl Ove Knausgård (do qual também li o primeiro livro). Mas devo dizer que tratam-se de animais de espécies bem diferentes. É claro que há a semelhança no “objetivo” do livro (dizem que Ferrante trata de sua vida na tetralogia, que a Elena ser a narradora da história não é mero acaso), mas isso é muito pouco para se parelhar dois livros. A forma narrativa faz toda diferença aqui. Enquanto em Karl Ove temos uma narrativa muito autocentrada (para não dizer totalmente – e não digo isso como demérito), em Ferrante encontramos um panorama muito mais amplo, que vai além da relação de Lenu e Lila. O livro constrói o panorama de uma época e de um local muito específico. E isso faz toda a diferença na construção dos personagens. 

É preciso também mencionar o mistério Ferrante. O nome que assina o livro é o pseudônimo de uma autora que é reclusa, jamais se revelou e acredita que os livros, quando lançados, têm vida própria, não precisam de seus autores.


A amiga genial é o primeiro livro de Ferrante no Brasil. E faz parte dessa tetralogia acima mencionada, que seria uma espécie de lembrança de sua juventude em Nápoles. Ainda que soubesse dessa história, confesso que li este livro como uma obra de ficção. Não sei ao certo o porquê dessa minha interpretação, pois a autora é realmente convincente. Mas fiquei fascinada com a ideia de todo esse enigma. Independente disso, é um belo livro, que te envolve e de repente você não consegue sair até chegar à última página.

A história se passa em um bairro de subúrbio napolitano do pós guerra (a narrativa começa em 1948), numa Itália que tenta se reerguer e encontrar uma identidade em comum. A miséria e a violência parecem ser intrínsecos aos moradores e vão além de problemas familiares, temos também o fantasma dos colaboradores do fascismo, que enriqueceram às custas de denúncias e mortes, e também integrantes da camorra (a famigerada máfia napolitana), que assombram os moradores do bairro.

“Suas violências de pai eram ninharia se comparadas à violência difusa no bairro. No bar Solara, com o calor, entre perdas no jogo e bebedeiras funestas, muitas vezes se chegava ao desespero (palavra que em dialeto significava ter perdido toda a esperança, mas também, simultaneamente, ficar sem um tostão) e, por fim, à pancadaria. Silvio Solara, o proprietário, grandalhão, com uma pança imponente, olhos azuis e uma testa enorme, guardava um porrete escuro atrás do balcão e não hesitava em usá-lo contra quem se negava a pagar a conta, quem lhe devia lhe devia dinheiro emprestado e não queria pagar no prazo, quem fazia acordos de qualquer tipo e depois não os cumpria, e muitas vezes era ajudado por seus filhos, Marcello e Michelle, rapazes da idade do irmão de Lila, mas que batiam ainda mais forte que o pai. Ali se batia e se apanhava. Depois os homens voltavam para casa exasperados com as perdas no jogo, com o álcool, com as dívidas, com os prazos, com as sovas e, à primeira palavra atravessada, espancavam a família, numa cadeia de erros que geravam erros.” pgs 76 e 77

E é neste contexto que as duas garotas se tornam amigas: a filha do sapateiro (Lila) e a do contínuo da prefeitura (Lenu). E é deste local que as meninas, já mais maduras, pretendem sair. Querem sair desta lógica de pobreza e desolação. Já desde crianças, como um pacto, decidem que vão enriquecer, mudar de vida. E este primeiro volume mostra como as trajetórias delas tomam rumos distintos a partir daí.

Em A amiga genial acompanhamos Rafaella e Elena dos 7 aos 17 anos. Apesar de morarem em prédios vizinho, é na escola que a amizade nasce. Lila é uma garota insubordinada, mas brilhante. Lenu, a criança adorável e bem comportada, fica fascinada pela audácia e esperteza da amiga e parece se conformar, de início, com o segundo lugar da classe. No entanto, quando terminam a escola e devem seguir para o que seria o ensino fundamental, a família de Lila não permite que ela continue os estudos, por falta de dinheiro (além do preconceito – para que uma mulher precisa estudar?), e Lenu consegue prosseguir na escola.

A partir dessa ruptura, a amizade entre as duas ganha elementos importantes: um misto de dependência e competição entre elas. Pelo olhar de Elena vemos como a dinâmica entre as duas funciona. Enquanto Lila parece autossuficiente e despreocupada, Lenu se esforça em agradar e em manter os estudos. E como ainda com essas diferenças, há uma certa equidade.

“Por isso, quase para espantar a sensação de repulsa que aqueles pensamentos me causavam, quase para sublinhar meu valor e minha indispensabilidade, lhe disse de chofre que iria para o ginásio. (…) Fiz isso porque queria que ela desse conta de quanto eu era única e rara, e que, mesmo se ela ficasse rica fabricando sapatos com Rino, jamais poderia prescindir de mim, assim como eu não podia prescindir dela,” pg 126

Ferrante narra todos esses pequenos detalhes de forma seca e ao mesmo tempo envolvente, Depois de algumas páginas somos fisgados pela história de Lenu e Lila. Na sua última página, mais uma ruptura. Uma agonia. E agora? A própria autora fala em sua entrevista à Paris Review que a ideia é essa mesmo, de criar essa apreensão pelo próximo volume. Compartilhamos agora também da dependência das amigas.

“Você é minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres.” pg 312

A amiga genial
Autora: Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora Biblioteca Azul (Globo Livros)
332 pgs

2 comentários em “A amiga genial

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