[Flip 2015] Leonardo Padura

 

Leonardo Padura Fuentes foi o primeiro quase nome desta Flip. Desde o começo do ano o nome dele circulava entre boatos de possíveis autores da Festa, mas nunca era confirmado. Isso só aconteceu na coletiva de imprensa que aconteceu no mês passado que anunciava a programação completa.

Padura nasceu em Havana, Cuba, em 1955. É formado em letras e já trabalhou como jornalista, crítico e escritor.

Autor de mais de 19 livros, nos anos 90 ficou mais conhecido por uma séries de livros policiais na tetralogia chamada “As quatros estações”, formada pelos romances Paisaje de otoño, Passado perfeito, As máscaras e Ventos de Quaresma (os três últimos publicados aqui pela Companhia das Letras), que tinham como protagonistas o tenente Mario Conde. Mas foi com o lançamento do romance histórico O homem que amava os cachorros, publicado no Brasil pela editora Boitempo, que Padura ganhou reconhecimento mundial.


O livro narra a trajetória de um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e a partir de um encontro com um homem que passeava com seus cães e a ele revive os últimos anos de vida do revolucionário russo Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader.

Em entrevista, Padura já falou que O homem que amava os cachorros é uma espécie de acertos de contas de uma geração. O livro critica vários países comunistas, entre eles Cuba (principalmente a crise que o país passou nos anos 1990), onde o autor vive e critica abertamente (e teve seu livro publicado lá, o que não é um costume do país).

Leonardo Padura participa da mesa 19 “De frente para o crime”, domingo (dia 5 de julho) às 12h, com a britânica Sophie Hannah.

Abaixo o booktrailer e dois trechos do livro O homem que amava os cachorros :

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=kOXocRsYLNU]

Capítulo 1

Havana, 2004

– Descanse em paz – foram as últimas palavras do pastor.

Se alguma vez essa frase batida, tão impudicamente teatral na boca daquele personagem, fez algum sentido, foi nesse preciso instante, quando os coveiros, com uma habilidade despreocupada, desciam pela cova aberta o caixão de Ana.

A certeza de que a vida pode ser o pior dos infernos e de que, com aquela descida, desapareciam para sempre todos os lastros do medo e da dor invadiu-me como um alívio mesquinho e pensei se, de alguma forma, não estaria invejando a passagem fi nal de minha mulher em direção ao silêncio, pois estar morto, completa e verdadeiramente morto, pode ser para alguns o que há de mais parecido com a bênção daquele Deus com quem Ana, sem grande sucesso, tinha tentado envolver-me nos últimos anos de sua penosa vida.

Mal os coveiros acabaram de deslizar a lápide e se dedicaram a colocar sobre ela as coroas de fl ores que os amigos mantinham nas mãos, dei meia-volta e afastei-me, decidido a fugir de novos apertões no ombro e das consabidas condolências que nos sentimos sempre obrigados a dizer. Porque nesse momento todas as outras palavras do mundo eram demasiadas, só a fórmula habitual do pastor tinha um sentido e eu não queria perdê-lo. Descanso e paz: o que Ana tinha finalmente conseguido e do que eu também precisava.

Quando me sentei dentro do Pontiac à espera de Daniel, percebi que estava à beira do desmaio e convenci-me de que, se meu amigo não me afastasse do cemitério, eu seria incapaz de encontrar uma saída em direção à vida. O sol de setembro queimava o teto do carro, mas não me senti em condições de me mover dali. Com as poucas forças que me restavam, fechei os olhos para controlar a vertigem de perda e fadiga, enquanto sentia que um suor de emanações ácidas escorria das minhas pálpebras e bochechas, brotava das minhas axilas, do meu pescoço, dos meus braços, e encharcava minhas costas calcinadas pelo banco de vinil até se transformar numa corrente quente que fluía pelo precipício das pernas em busca do poço dos sapatos. Pensei se aquela transpiração fétida e o enorme cansaço não seriam o prelúdio da minha desintegração molecular ou, pelo menos, do enfarte que me mataria nos próximos minutos, e achei que qualquer um deles podia ser uma solução fácil, inclusive desejável, embora francamente injusta: não tinha o direito de obrigar os meus amigos a suportarem dois funerais em três dias.

– Está se sentindo mal, Iván? – A pergunta de Dany, que se debruçara na janela, sobressaltou-me. – Caralho, olha isso, como você está suando…

– Quero sair daqui… Mas não sei como, merda…

– Já vamos, parceiro, não se preocupe. Espera um pouco, deixa eu dar uns trocos pros coveiros… – Disse, e assim recebi das palavras do meu amigo um sentido evidente de realidade e vida que me era alheio, decididamente remoto.

Fechei novamente os olhos e permaneci imóvel, pingando, até o carro se colocar em marcha. Só quando o ar que entrava pela janela começou a me refrescar é que me atrevi a abrir as pálpebras. Antes de sair do cemitério pude ver as últimas fileiras de campas e jazigos, carcomidos pelo sol, pela intempérie e pelo esquecimento, tão mortos como seus inquilinos, e (com ou sem qualquer razão para fazê-lo nesse momento) voltei a perguntar a mim mesmo por que motivo, entre tantas possibilidades, alguns cientistas distantes tinham escolhido justamente o meu nome para batizar aquela que seria a nona tempestade tropical da temporada.

Embora a essa altura da vida já tivesse aprendido (ou melhor, já tivessem me ensinado, e com modos não muito amáveis) a não acreditar em acasos, foram muitas as coincidências que levaram os meteorologistas a decidir, com vários meses de antecedência, que chamariam Iván (nome começado pela nona letra do alfabeto, em castelhano, masculino e nunca antes utilizado para semelhantes fins) àquela tempestade. O embrião do que seria Iván tinha gerado uma acumulação de nuvens agourentas nas imediações de Cabo Verde, mas só alguns dias depois, já batizado e transformado num furacão com todos os devidos atributos, atingiria o Caribe, colocando-nos em seu devorador ponto de mira… E já verão por que penso ter razões de sobra para acreditar que só um acaso retorcido pode ter determinado que aquele ciclone, um dos mais ferozes da história, tivesse o meu nome, justamente quando outro furacão se aproximava da minha vida.

(…)

Capítulo 3

– Sim, diga-lhe que sim.

Ramón Mercader recordaria pelo resto de seus dias ter descoberto a densidade doentia que acompanha o silêncio no meio da guerra segundos antes de pronunciar as palavras destinadas a mudar sua existência. O estrépito das bombas, dos tiros e dos motores, as ordens gritadas e os uivos de dor entre os quais vivera durante semanas tinham se acumulado em sua consciência como os sons da vida, e a súbita queda daquele mutismo espesso, capaz de provocar um desamparo muito parecido com o medo, transformou-se numa presença inquietante quando compreendeu que, atrás daquele silêncio precário, podia esconder-se a explosão da morte.

Nos anos de prisão, dúvidas e marginalização a que o conduziram aquelas cinco palavras, Ramón se dedicaria muitas vezes ao desafi o de imaginar o que teria acontecido com sua vida se tivesse dito que não. Insistia em recriar uma existência paralela, um trajeto essencialmente romanesco no qual nunca deixara de se chamar Ramón, de ser Ramón, de agir como Ramón, talvez longe de sua terra e suas lembranças, como tantos homens de sua geração, mas sendo sempre Ramón Mercader del Río, de corpo e, sobretudo, alma.

Caridad chegara umas horas antes, acompanhada pelo pequeno Luis. Tinham vindo de Barcelona via Valência, conduzindo o potente Ford confiscado de alguns aristocratas fuzilados no qual costumavam deslocar-se os dirigentes comunistas catalães. Os salvo-condutos, decorados com assinaturas capazes de abrir todos os controles militares republicanos, tinham lhes permitido chegar até a encosta daquela montanha agreste da serra de Guadarrama. A temperatura, vários graus abaixo de zero, obrigara-os a permanecer no interior do carro, cobertos com mantas e respirando o ar viciado pelos cigarros de Caridad, que deixaram Luis à beira da náusea. Quando Ramón conseguiu finalmente descer à segurança da encosta, incomodado pelo que considerava uma das intromissões habituais da mãe na vida de todos que se relacionavam com ela, seu irmão Luis dormia no banco traseiro e Caridad, com um cigarro na mão, dava voltas ao redor do carro, chutando pedrinhas e amaldiçoando o frio que a fazia expirar nuvens condensadas. Assim que o viu, a mulher envolveu-o com seu olhar verde, mais frio que a noite da serra, e Ramón recordou que desde o dia em que se reencontraram, havia mais de um ano, a mãe não lhe dava um daqueles beijos úmidos que, em sua infância, costumava depositar com precisão na comissura dos lábios para que o sabor doce da saliva, com um travo persistente de anis, descesse até suas papilas e provocasse a necessidade sufocante de preservá-lo na boca por mais tempo do que o concedido pela ação de suas próprias secreções.

Há vários meses que não se viam, desde que Caridad, convalescente das feridas causadas em Albacete, fora enviada pelo Partido a uma viagem ao México com o objetivo de obter ajuda material e solidariedade moral para a causa republicana. Nesse tempo, ela havia mudado. Não porque o movimento do braço esquerdo estivesse ainda limitado pelas lacerações provocadas por um obus; tampouco devia ser por causa da notícia recente da morte de seu filho Pablo, o adolescente que ela própria obrigara a marchar para a frente de batalha de Madri, onde foi destroçado pelas esteiras de um tanque italiano. Ramón atribuiu essa mudança a alguma coisa mais visceral, que descobriria nessa noite em que a sua vida começou a ser outra.

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