Iniciantes – Raymond Carver

“E certas coisas à nossa volta vão mudar, ficar mais fáceis ou mais difíceis, uma coisa aqui, outra ali, mas nada jamais será diferente de verdade. Acredito nisso. Tomamos nossas decisões, nossas vidas foram postas em movimento e vão seguir adiante, até a hora em que vão parar. Mas, se isso for mesmo verdade, e daí? Quer dizer, a gente acredita nisso, e mantém isso escondido, até que um dia acontece uma coisa que devia mudar tudo, só que aí a gente vê que, no final das contas, nada vai mudar. E daí?  Enquanto isso, as pessoas em volta da gente continuam a falar e a agir como se a gente fosse a mesma pessoa do dia anterior, ou da noite anterior, ou de cinco minutos antes, mas na verdade a gente está passando por uma crise, o coração sente que sofreu um estrago…

O passado está obscurecido. É como se tivesse uma película por cima daqueles anos iniciais. Não posso ter certeza de que as coisas que lembro que aconteceram tenham acontecido de fato comigo. Havia uma garota, que tinha pai e mãe – o pai era gerente de um pequeno bar, onde a mãe trabalhava de garçonete e caixa -, uma garota que, como num sonho, passou pela escola primária, escola secundária e depois, em um ou dois anos, pela escola de secretariado. Mais tarde, muito mais trade – o que aconteceu nesse meio-tempo? -, lá está ela numa outra cidade, trabalhando de recepcionista numa firma de componente eletrônicos, e faz amizade com um engenheiro que pede para sair com ela. No final, vendo que esse é o objetivo dele, se deixa seduzir. Ela tem uma intuição, naquele momento, uma sacada repentina a respeito da sedução, que mais tarde, por mais que ela tente, não consegue lembrar. Após um breve tempo, os dois resolvem casar, mas o passado, o passado dela, já está escoando depressa. O futuro é uma coisa que ela não consegue imaginar” 

Trecho do conto “Coreto”, em Iniciantes

Talvez eu não estivesse emocionalmente preparado para o turbilhão de emoções que são os contos do escritor americano Raymond Carver. O livro que me apresentou a curta obra do autor foi Iniciantes, publicado aqui em 2009 pela Companhia das Letras. Poucas vezes um livro me deixou tao impressionado como este. 


Seus contos são precisos e possuem um ritmo e estilo únicos. Existe uma simplicidade na escolha dos seus temas e principalmente na forma de contar essas histórias que escondem um domínio assombroso da sua técnica. Lendo sobre a vida do autor, descobri que ele não gostava de que chamassem a sua escrita de minimalista, mas essa pode ser uma maneira de classificar o estilo de Carver. 


Essa edição de Iniciantes tem uma história curiosa, mas antes disso vou falar um pouco sobre os contos. 

Carver escolheu como personagens principais dos seus contos, pessoas comuns, extraordinariamente banais, tristes e melancólicas em suas escolhas, suas próprias vidas. O mais distante possível do tão falado sonho americano. São alcoólatras, pessoas com casamentos desastrosos… 

Ler Iniciantes te deixa aquela sensação de um mundo muito triste, melancólico onde nada parece dar certo. À medida que você se aproxima do final do livro, a cada nova história, você meio que intui que provavelmente o final dela será terrível. O mundo depois de Carver parece um lugar muito real e triste.


A primeira história, “Por que não dançam?”, coloca você numa situação aparentemente comum de venda de garagem, mas que esconde um motivo que não fica claro em nenhum momento, mas lá no fundo você sabe o que é. O quarto conto, “Coreto”, é um bom exemplo das relações complicadas de Carver. Um casal que passa por uma crise (ele traiu ela) e não sabe muito bem como seguir em frente, mas ambos parecem imaginar que não existe nenhum outro caminho além de ficarem juntos.

Em “Quer ver uma coisa”, a falta de sono numa noite simples faz pensar no que mudou com o vizinho de quem eram amigos. “Lance” é a lembrança de uma conversa com o pai e todos os estranhamentos.

Mas é em “Uma Coisinha boa” que você percebe que está lendo algo extraordinário.No conto, uma casualidade se depara com o mistério e a realidade parece ainda mais assustadora. Já em “Diga às mulheres que a gente já vai” é a brutalidade que parece nascer das coisas banais.

O conto “Tanta água perto de casa” é uma história terrível, mas que você reluta em acreditar até a última linha. “Mudo” parece ter algo do filme Conte comigo. E caso você ainda não tenha se convencido que esse livro é inesquecível, vem o conto “Iniciantes”, que serve para acabar com você de uma vez.

Raymond Carver nasceu em 1938 e morreu precocemente em 1988, de um câncer de pulmão. Se casou jovem e com 20 anos já tinha dois filhos. Passou por muitos trabalhos, em sua maioria braçais, até conseguir começar a ter tempo para poder escrever. E teve problemas com alcoolismo.

Alguns dos seus contos foram publicados em diversas revistas literárias até seu primeiro livro em 1977. Publicou em vida quatro livros de contos e um de ensaios (poemas e contos). 

Vou explicar a curiosidade dessa edição de Iniciantes.
Nos anos 60 ele ficou amigo de seu vizinho Gordon Lish que já trabalhava como editor e depois trabalhou na parte de ficção da revista Enquire, onde publicou o conto “Vizinhos”. A partir daí nasceu uma parceria que ia durar muito tempo. Gordon ajudou na publicação dos dois primeiros livros de Carver por uma editora de Nova York e que o tornou conhecido: Will You Please Be Quiet e What We Talk About When We Talk About Love

Só que nessa relação entre eles, Gordon acabava por cortar muito do material de Carver (com a aprovação do autor) e no segundo livro isso ficou ainda mais complicado. What We Talk About When We Talk About Love (em português Do que falamos quando falamos de amor) como foi publicado em 1981 teve quase 50% do material original cortado, mudando ou moldando o estilo do autor (minimalista). A partir deste livro a relação deles mudou e Gordon passou a interferir bem menos na escrita de Carver. Na época algumas cartas do autor mostram como ele se sentia incomodado por esse estilo minimalista que muito tinham da mão do seu editor e não tanto do autor.


E daí chegamos a essa edição de Iniciantes, publicadas originalmente em 2008 e que resgata todo o texto original de Carver (aqui a Companhia publicou a edição em 2009). Um livro de 130 páginas (em sua primeira e “editada” versão) se tornou um de 240 páginas.

A Companhia das Letras publicou em 2010 o livro 68 contos de Raymond Carver e traz “todos” os livros de Carver (além da copilação de alguns outros contos), uma introdução muito boa feita por Rodrigo Lacerda (em que ele é bem mais simpático a essa relação entre o autor e seu editor, se comparado a edição de Iniciantes que tem uma introdução louvando o trabalho de pesquisa e principalmente culpando o editor pela influência na obra de Carver) e o livro What We Talk About When We Talk About Love como ele foi publicado originalmente.


Curioso pensar nessa relação entre autor/editor e principalmente poder ler dois livros que passaram por esse processo. Só li o Iniciantes, livro “original” de Carver e assim que ler a outra versão volto a fazer um texto.

Se estivesse vivo hoje, Raymond Carver faria 77 anos.

Iniciantes
Autor: Raymond Carver
Tradução: Rubens Figueiredo
Companhia das Letras

PS. a Tradução feita por Rubens Figueiredo é fantástica.

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