[Flip 2015] Diego Vecchio

Foi divulgada ontem (dia 12 de maio) a programação da 13ª edição da Festa Literária de Paraty, a Flip. É claro que temos muitas opiniões a respeito disso, mas deixaremos isso para outro momento. A partir de hoje começamos uma série de especial sobre os autores que participam este ano.

Diego Vecchio nasceu em 1969 em Buenos Aires, Argentina, mas vive desde 1990 na França. Formou-se em psicologia na Universidade de Buenos Aires e fez doutorado em Literatura na Universidade Paris VII e sua tese é sobre o autor também argentino Macedónio Fernandez.

Estreou como escritor em 2001,com o romance Historia Calamitatum. Inédito no Brasil, o livro é inspirado no romance de Jean-Jacques Rousseau A nova Heloisa. Vecchio usou os personagens de Rousseau e criou uma história com um recorte homossexual .

Em 2010 lança Osos, uma narrativa fantástica que foi muito elogiada e considerada pelos críticos sua melhor obra. O livro conta a história do garoto Vladimir que ao perder o seu urso de pelúcia não consegue mais dormir. Para acabar com a insônia, Estrella, mãe do protagonista, compra um novo, que ganha vida. A insônia não é curada e garoto e urso passam as noites trocando e criando histórias.

É de 2006 o seu livro de contos Micróbios, que será lançado em junho no Brasil pela Cosac Naify. Cada conto se passa em um país diferente e o personagem sofre de alguma doença. Segundo Vecchio, hipondríaco assumido, o livro é inspirado em sua mania por remédios.

Diego Vecchio participa da Flip na mesa 2 – “De micróbios e soldados”, junto com o bósnio Saša Stanišić, na quinta-feira (dia 2 de julho) às 15h.

Abaixo um trecho do conto “O homem dos miolos”, do livro Micróbios, traduzido pela Paloma Vidal.

O homem dos miolos

No dia 13 de dezembro, as efemérides patagônicas celebram a Festa do Petróleo.
Naquele dia, como muitos recordarão, já faz muitos anos, um cachorro que errava pelas ruas de Comodoro Rivadavia, ao cavar uma fossa para enterrar um osso, descobriu uma baba preta e espessa que saía das entranhas da terra, repugnantemente, aos borbotões, que não era excremento de diabo, mas hidrocarbonetos parafínicos. É lamentável que quase ninguém saiba que, naquele mesmo dia, a poucos metros desse primeiro poço petroleiro, também nasceu Evaristo Robustiniano Torres, o romancista mais brilhante do território nacional de então. Se o petróleo aportou a Comodoro Rivadavia riqueza material, os romances de Evaristo Robustiniano Torres lhe deram riqueza espiritual. Ainda hoje, enquanto os pais trabalham como engenheiro ou secretária bilíngue com experiência numa refinaria de petróleo, nas escolas patagônicas os filhos aprendem as primeiras letras com os romances dele.

Evaristo Robustiniano Torres teve a genialidade de inventar Victricius, que era para o conde Drácula o que o nhandu é para a avestruz e o que o puma é para o tigre: uma espécie sul-americana menor e menos agressiva do que o vampiro. Os romances de Evaristo Robustiniano Torres contavam aventuras sanguíneas,do que sangrentas, em perfeita consonância com os avanços da hematologia.

Em 1628, William Harvey descobriu os movimentos do coração e a circulação do sangue nos animais. Em 1882, Metchnikof compreendeu a importância do leucócito na defesa do organismo. Com o nascimento de Victricius, a ficção se adiantou à ciência. Evaristo Robustiniano Torres inventou um vampiro cujas papilas gustativas podiam identificar, a partir de uma gota extraída da carótida da vítima, a composição química do sangue. Em menos de um minuto, Victricius podia saber, com uma margem mínima de erro, aquilo que a ciência ainda não era capaz de conhecer: a quantidade de glóbulos vermelhos, brancos, plaquetas, ureia, prótidos, glicose, cloro, sódio, ferro, cálcio, fósforo, fibrina e lipídios. Sobretudo lipídios.

Naquela época, a Argentina era um país de vacas gordas, com homens gordos e mulheres gordas, que bamboleavam suas carnes pelos dois milhões de metros quadrados de superfície, ocupando aquelas solidões com seu excesso de peso e de volume. Os argentinos comiam uma média diária de mil e quinhentos gramas de carne bovina, acompanhada por uma salada esquálida. As carnes vermelhas, ricas em proteínas, contêm no entanto lipídios que aderem às artérias, produzindo doenças coronárias e cerebrovasculares. Não era de se estranhar que a causa principal de mortalidade fossem os infartos e os derrames cerebrais, causados por essa dieta alta em gorduras saturadas.

Desse problema de saúde pública, Evaristo soube fazer uma fonte de inspiração. Victricius era um vampiro que só chupava o sangue de indivíduos com problemas de sobrepeso. Se a taxa de colesterol presente no sangue era inferior a dois mil miligramas por litro, Victricius abandonava imediatamente a presa. Se era superior, à dentada de inspeção seguia-se uma de purificação, cujo objetivo era não só alimentício, mas também terapêutico.

A dentada do vampiro clássico é indiferente, movida pelo mal, e só busca esvaziar a vítima de seus fluidos vitais, a fim de transformá-la em vampiro. A dentada de Victricius era altamente seletiva, movida pelo soberano bem da saúde, e só sugava lipídios e nada além de lipídios. Ao acordar, a vítima se sentia leve, como se, em vez de ter comido um quilo e meio de churrasco com miúdos, tivesse ingerido duzentos e cinquenta gramas de arroz fervido.

Victricius era um vampiro do Novo Mundo, cheio de bondade e jeito com as pessoas. Não como os vampiros do Velho Continente, movidos pela destruição. Muitas vezes, ao encontrar apenas vítimas subalimentadas, teve que se conformar em chupar o sangue de alguma ovelha. Preferia seu próprio desfalecimento a provocar o desfalecimento no próximo por absorção sanguínea. Eis a revolução lançada por Evaristo Robustiniano Torres: considerar Victricius não do ponto de vista dos romances de terror, mas da hematologia. Os vampiros não eram mais os embaixadores do mal, mas cavalheiros da ciência, a serviço do progresso.

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