A Ovelha Negra e Outras Fábulas – Augusto Monterroso

“Em um país distante existiu faz muitos anos uma Ovelha negra. Foi fuzilada. Um século depois, o rebanho arrependido lhe levantou uma estátua equestre que ficou muito bem no parque. Assim, sucessivamente, cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente passadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura.”

A Ovelha negra e outras fábulas do hondurenho Augusto Monterroso é um desses raros livros que quando você termina, a pergunta que fica é: de onde saiu todo esse fúria, essa acidez, esse olhar cínico sobre a humanidade? Reproduzi ali em cima a fábula do título (e está na 4ª capa do livro) e acho que representa bem o que eu quero dizer.

Sei que não é possível medir um livro por tamanho, mas com suas poucas 93 páginas e textos curtos (típicos das fábulas, mas volto a falar disso), A Ovelha Negra… é um livro poderoso, imenso.

A começar pela escolha da forma. Não consigo pensar em nenhum livro de fábulas (contemporâneo) escrito para o público adulto (alguém se lembra?).


Pensando numa definição bem simples: fábulas são composições literárias geralmente feitas com textos curtos, normalmente em prosa (mas também pode ser em verso) em que os animais são personagens principais e tem características antropomórficas (isto é, com formas e traços humanos). E a parte principal da fábulas: tem por objetivo transmitir uma lição de moral.Ainda dentro desse conceito, essa moral normalmente é uma lição ”boa”.

Dito isso, voltemos à Ovelha Negra….

As fábulas escritas por Monterroso tratam de diversos temas da natureza humana. Ainda que essa seja uma afirmação muito vaga, tenho um bom exemplo e acho que dá um pouco do tom do livro.

A segunda fábula do livro se chama “O Macaco que quis ser escritor satírico”. E já aproveitando o título auto explicativo, esse Macaco percebeu que para isso acontecer ele precisava conhecer melhor as pessoas. Ele é muito agradável e é bem recebido por todos os animais da selva e chega o momento em que ele é quem mais conhece a sociedade e as pessoas. Quando chega esse momento ele já pode escrever sobre as pessoas. Mas lógico que nada vai ser tão fácil assim. Escrever sobre as pessoas que estão do seu lado não é das coisas mais simples e requer coragem. E nesse olhar sobre a sociedade que está a maior qualidade de A Ovelha Negra….

Dentro disso, tem um outro aspecto que merece ser destacado. O aspecto político das fábulas, que sempre utiliza o humor como forma de apontar a injustiça e desigualdade.

Monterroso nasceu em Honduras, foi criado na Guatemala (terra de seu pai), onde cresceu e trabalhou secretamente contra o ditador Jorge Ubico. Na década de 1940 se muda para a Cidade do México, como exilado político. Morou também no Chile e na Bolívia. Sempre se destacou pelas narrativas breves e é mais conhecido por ser o autor do menor conto do mundo: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”

Ao terminar o livro, você se pergunta porque não existem ainda mais coisas publicadas do Monterroso por aqui. Você quer que as pessoas conheçam o autor. Porque Monterroso, definitivamente já virou um dos seus autores favoritos.

A edição lançada pela Cosac Naify resgatou a ótima tradução feita pelo Millôr para uma edição da editora Record dos anos 80.

A Ovelha Negra e outras fábulas
Autor: Augusto Monterroso
Tradução: Millôr
Editora Cosac Naify
98 páginas

PS. Encontrei 2 textos excelentes sobre o autor Hondurenho:
no Digestivo Cultural e no blog da Cosac

Um comentário em “A Ovelha Negra e Outras Fábulas – Augusto Monterroso

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