[Favoritos da casa] Flannery O’Connor

Por: Tatianne Dantas

O primeiro contato que tive com a Flannery O’Connor aconteceu de uma forma inusitada. Primeiro, devo dizer que passei a vida achando que tratava-se de um homem. Até sair a edição da Cosac Naify na coleção Mulheres Modernistas, Flannery era, no meu imaginário, um senhor ali meio aparentado com William Faulkner. Desfeito o engano, um dia estava observando a prateleira de literatura norte-americana da biblioteca e me deparei com o título A good man is hard to find and other stories da dita escritora e resolvi arriscar. Confesso que os motivos não foram muito nobres, queria só ler alguma coisa em inglês. Mas, como muitas vezes acontece, é na despretensão que temos as melhores experiências literárias. Foi justamente isso que aconteceu. Quando terminei o conto que dá título ao livro fiquei muitos minutos olhando para o teto e pensando que era uma das coisas mais maravilhosas que já havia lido na vida. Hoje, alguns meses depois de ter terminado todo o livro, acho que o encontro com Flannery foi um dos mais incríveis que a literatura já pôde me proporcionar.

Como faço sempre que termino algo muito bom, fui pesquisar quem era Flannery, do que ela era feita, quais outros livros haviam sido publicados. Queria ler todos. Descobri que o primeiro nome dela era Mary e que havia morrido muito jovem (39 anos) de uma doença muito debilitante, o lúpus. Seu pai também sofria da mesma doença. Ressaltei esses dois aspectos porque eles me disseram muito sobre a escritora Flannery, que dedicou sua vida a ser, principalmente, uma maravilhosa contista e abordar em seus textos o conflito que existe quando se tem uma formação muito cristã.


Ela nasceu em Savannah, Georgia, em 25 de março de 1925, onde permaneceu pelos primeiros 13 anos de sua vida. Sua família era católica irlandesa e, além disso, ela teve uma educação rígida por causa da posição militar do seu pai. Durante a juventude frequentou uma escola de freiras. Mais tarde, a repressão que ela sofreu nesse lugar foi cenário de alguns de seus contos. Também aparece na literatura de Flannery as paisagens áridas do sul dos Estados Unidos no começo do século XX, assim como ao preconceito e a crueldade advindas da segregação racial. Muitos dos contos de O’Connor denunciam essa situação e percebemos como isso a incomodava. Outros aspectos de sua vida pessoal aparecem retratados em suas histórias, como a conflituosa relação com a mãe, que não suportava a ideia da filha renegar o casamento e querer ser escritora. A presença da morte torna-se algo marcante depois que Flannery descobre ser portadora da mesma doença que o pai. Suas constantes idas ao hospital para fazer transfusões de sangue deram título a um dos dois romances que escreveu, Wise Blood.

A culpa é um tema muito presente em sua obra, assim como a observação do que há de mais cru e grotesco nas condutas humanas. Como diz o título de seu conto mais famoso, “Um bom homem é difícil de encontrar”, e é isso que Flannery tenta nos mostrar em sua obra. Quando descreve os seus personagens, O’Connor mostra as complexidades do que é ser humano e como é difícil conviver com determinadas angústias e frustrações. Principalmente quando se está inserido em uma sociedade desigual. Em suas histórias, nós somos colocados diante de um espelho que reflete justamente aquilo que fica escondido. São as características monstruosas e violentas que são ressaltadas por Flannery, chocantes em um primeiro momento, mas humanas demais quando olhadas de perto.

Apesar de encontrar em “A good man is hard to find” um conto perfeito, meu conto favorito entre os que li da autora é “The life you save may be your own”. Lucynell Crater é uma senhora que mora sozinha em uma fazenda com a sua filha, que também e chama Lucynell. Essa filha tem 32 anos e é surda e muda, motivo pelo qual é tratada pela mãe como se fosse uma criança. Uma tarde, chega no local um desconhecido chamado Shiftlet, que começa a fazer perguntas e sondar a situação em que as duas se encontram. O tom cômico é dado no início do conto pela fala desse forasteiro, que apresenta diversos aspectos do “que é ser homem” a sra. Crater, desmontando as barreiras que havia criado por ser uma mulher morando sozinha com sua filha deficiente. E quando ela passa a confiar nesse homem, as coisas começam a dar errado. A capacidade que a escritora tem em nos engendrar nesse enredo e depois puxar o tapete da nossa humanidade é fascinante e desolador ao mesmo tempo. Fazendo a tradução livre de um trecho de um dos ensaios da autora, é como se suas histórias fossem marcadas por personagens que não sabem como lidar quando são agraciados com alguma coisa. Imaginemos uma pessoa que foi criada em meio a dificuldades, que sobreviveu por puro instinto e em determinado momento alguém vem lhe fazer carinho. Essa pessoa não imagina o carinho vindo, mas sim um tapa. É esse tapa que nós sentimos quando lemos alguns escritos de
Flannery.

“Atirou para trás o fósforo morto e lançou um risco cinzento no fim da tarde. Um olhar manhoso apoderou-se-lhe da face: “Minha senhora”, disse ele, “nos tempos que correm não há nada que as pessoas não façam. Posso dizer-lhe que meu nome é Tom T. Shiftlet e que sou de Tarwater, Tennessee, mas a senhora nunca me viu antes: como é que sabe que eu não estou a mentir? Como é que sabe se eu não sou Aaron Sparks, minha senhora, e nasci em Singleberry, Georgia, ou que não sou antes George Speeds e venho de Lucy, Alabama, ou que não sou Thompson Bright de Toolafalls, Mississipi?”
“Não sei coisa nenhuma a seu respeito” resmungou a velha, irritada.
“Minha senhora”, disse ele, “as pessoas já nem se importam com a qualidade das suas mentiras. Talvez o melhor que eu posso dizer-lhe seja, sou um homem; mas escute, minha senhora,” disse ele e fez uma pausa e tornou o seu tom  de voz ainda mais eloquente, “o que é um homem?” “

(Trecho do conto “The life you save may be your own” traduzido como “A vida que salvar pode ser sua” para edição portuguesa da editora Cavalo de ferro)

Eu sou daquelas leitoras que gosta de ser virada pelo avesso. Então posso dizer que a leitura de Flannery não é necessariamente uma experiência prazerosa e feliz. Talvez você dê uma risada aqui ou ali porque a ironia também é uma ferramenta muito utilizada pela escritora para falar da nossa condição. Mas, a verdade é que você corre o risco de sair de um livro (ou talvez baste apenas um conto) dela com a pele arrancada e a sua humanidade escancarada. Pelo menos foi assim que eu me senti e por isso ela me marcou tanto. Enxergar o que há de grotesco no humano e não simplificar a humanidade entre pessoas boas e ruins parece ser algo meio lugar comum, mas basta olhar as notícias nos jornais para ver como insistimos em cometer esse erro todos os dias. E é compreensível, porque olhar nesse espelho dói, ninguém quer se ver defeituoso, incompleto, imperfeito. Só que para ser humano é preciso sempre lembrar de tocar nessa ferida.

 Tatianne Dantas, psicóloga com os dois pés enfiados na pesquisa em literatura e psicanálise. Cresceu no sertão e aprendeu que pode levá-lo para qualquer lugar do mundo. Escreve sobre tudo o que gosta no blog No país das entrelinhas e fala sobre literatura no canal de mesmo nome. É uma das criadoras do clube de leituras feministas Bastardas. Seu poema favorito é Tabacaria. 

4 comentários em “[Favoritos da casa] Flannery O’Connor

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