A Confraria dos Espadas – Rubem Fonseca

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Após anos desde que visitei o clássico escritor brasileiro contemporâneo eis que me caem na mão dois livros dele, o primeiro é um livro de crítica/crônicas que provavelmente não vou resenhar, pois não consigo resenhar um livro de crítica. O segundo, A confraria dos espadas, é um livro de contos lançado primeiramente em 1998 e finalmente reeditado. Segundo Silviano Santiago este é o livro que marca a terceira guinada na obra de Rubem Fonseca. O fraco posfácio do livro cita isso mas não desenvolve para nos explicar quais seriam as características das fases na obra de Fonseca, mas após o término da leitura imagino que tenha algo a ver com minimalismo, e que me lembrou muito a última incursão na obra de Rubem com o romance, com O seminarista e como eu detestei o livro na época. E se por um lado isso não foi uma boa lembrança durante a leitura, por outro há concisão na impressão de Santiago, pois A confraria dos espadas tem muito mais a ver com esse romance de 2009 em termos estéticos do que com as outras obras superiores que li do escritor. Uma pena.
Antes de mais nada, vamos a alguns fatos deste resenhador: 1 – Ele odeia minimalismo; 2 – livros de contos são 8/80 com ele, ama muitos, odeia vários; e 3 – Ele tem uma descrença na humanidade. Bem.. talvez esse último não tenha tanto a ver em primeira instância, mas o ponto que saliento quando digo minimalismo na obra de Fonseca é que assim como o romance O seminarista há uma diminuição da narração para um termo tão simplificado da linguagem que ela não tem conteúdo emocional. Parece que tudo segue em uma linguagem de descrição cinematográfica das ações e não do ambiente. Some-se a isso aos temas urbanos comuns ao autor, violência e sexo, e temos o tom de todos os contos, por mais que alguns tentem inovar na técnica. A simplificação do período de narração está longe de ser uma técnica ao estilo Graciliano, que comprime em três frases mais sentidos que muito autor em três páginas, e sim uma simplificação que parece simplesmente deixar a história mais ágil, rápida e consequentemente sem emoção.

Isso eu já sentia n’O seminarista, tanto é que hoje só lembro da sensação, nem mesmo a história do livro tem algum vislumbre em minha memória, a não ser que se tratava de um crime, mas até aí resumimos 99% da obra do autor. É muito triste não lembrar a história de um livro, ainda que seja um que você não gostou, mas mais triste ainda é não lembrar a história dos contos depois de dois dias que você leu, e confesso que tive que voltar aos primeiros hoje, pois já havia me esquecido de como começava essa coletânea.
Dito isso, há sim uma concisão nas histórias. Elas tratam menos de um mundo cruel que cerca os personagens e mais um busca incessantes destes para uma redenção, ou um prazer. No conto central do livro, “À Maneira de Godard”, um casal de rivais intelectuais descobrem ter a mesma fobia pela visão do sexo oposto e criam um jogo para superar essa fobia. Em “A confraria dos espadas”, que dá título ao volume, um narrador cria um grande monólogo para explicar como os participantes do grupo secreto buscam o orgasmo sem ejaculação. No conto “AA” ainda que haja um certo mistério sobre o que é a sigla tão temida pelo protagonista, quando esta é revelada, na história mais original do livro, ela é simplesmente uma alegoria da violência masculina e do prazer gerado por ela. Prazer este já presente no primeiro conto do volume, que é uma sucessão de cartas de psicopata para uma mulher em que relata sua visão da morte e das implicações filosóficas da mesma. Não há mistério no livro, há violência, há sexo e histórias que subvertem aquilo que conhecemos como civilização ocidental. Seu mote é a busca pelo prazer e suas ramificações. E ponto. Nada mais.
Nenhum personagem memorável. Nenhum subtexto diferente ao que foi apresentado e quando a forma do conto muda para teatro ou poema, nada mais é que uma pirotecnia que não tem muito sentido a não ser provocar o leitor. Em um conto temos um personagem parvo que vai de encontro a uma situação kafkiana querendo fazer o bem, mas a obviedade da situação estranha e da mentira que o personagem está entrando não instiga a simpatia pelo conto. No suspense em torno do significado do termo AA, há imaginação e suspense, mas depois que cai o véu nunca fica claro qual é a subversão daquela situação (não vou dar spoiler do único conto surpresa), mas o melhor exemplo da falta de elementos dentro dos contos é “À Maneira de Godard”, o título central da obra com 60 páginas, e escrito como peça de teatro.
Apesar da forma inusitada (teatro), da extensão e do tema abertamente sexual, de dois protagonista criando um jogo para superar o próprio nojo deles pelo sexo oposto. é um conto bem simples e nada memorável. A demora na conclusão do jogo e a falta de uma abordagem mais complexa das emoções que castigam os personagens nos deixam bem longe do drama que é ter nojo do sexo oposto. Nem mesmo como símbolo ele se define bem. Some-se a tudo isso, as barbeiragens semânticas, pois o casal deste conto é convenientemente chamado de Romeu e Julieta (!). O jogo criado pela Julieta consiste em explora o corpo do outro enquanto recita alguma coisa sem nexo para enganar o cérebro e com isso o nojo/medo. Quando Julieta explora o membro de Romeu, eis que ela descreve um bonsai japonês (!!). As descrições que vão de encontro com as situações tem grande previsibilidade nesse recurso.
Ou seja, “À maneira de Godard” é um conto com tamanho de novela escrito como se fosse teatro que subverte as regras do teatro na estética do andamento do conto e ainda discute filosoficamente o sexo, que ainda é tabu. Uma forma bem complexa, mas que o sentido ao final é muito simplificado e não justifica. Assim como os filmes de Godard, nisso temos que tirar o chapéu para Fonseca.
Nesse ponto os outros dois contos que precedem este tem uma temática abertamente sexual e parecem partilham a mesma temática de “À maneira de Godard”, ainda que isso dê uma concisão ainda maior aos temas abordados, eles também não desenvolvem qualquer questionamento que tenha ficado neste conto, parecem somente reinterpretações da mesma estória contida no Romeu e Julieta sexual.
Para quem já fez o tour de force de O cobrador, que tem uma das cenas mais terríveis da história da literatura e é uma das interpretações mais inquietantes da metrópole urbana e sua crueldade, ou que criou uma história que aborda corrupção e pontos de vista conflitantes para criar a trama de Caso Morel, Confraria dos Espadas é um livro bem pálido. Se você gosta desta época na obra de Rubem dificilmente vai gostar, talvez estejamos vacinados a estética de choque da prosa. Se nunca leu talvez ache interessante, mas aconselho começar por outros livros, pois ainda assim esse não é um volume memorável.
Agora está 2 (adorei) X 2 (odiei), mas eu ainda espero mais do Rubem Fonseca.
A confraria dos espadas
Autor: Rubem Fonseca 
Editora Nova Fronteira
144 pgs

3 comentários em “A Confraria dos Espadas – Rubem Fonseca

  1. Olá, Rafael, bacana conhecer sua recepção ao livro de Rubem Fonseca. Só uma coisa: acho que o título é “Confraria dOs espadas”, e não “Confraria dAs espadas”, conforme você escreveu em toda a postagem. Parabéns a vocês tod@s pelo blog!

  2. Sou um grande apreciador de Rubem Fonseca, inclusive estou devorando o recém-lançado Calibre 22. Realmente “Confraria” fica muito aquém no todo de sua obra, mas sou apaixonado por alguns contos, principalmente pelo “Anjos das Marquises”, com a sua obviedade ainda que misteriosa. Acho que essa falta de emoção na linguagem que você citou vem justamente da tentativa de mostrar o quanto o mundo é frio, perverso e desesperançoso.

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