Diário de Inverno – Paul Auster

“Há trinta e dois anos, ou seja, quase exatamente na metade da sua vida, veio a notícia de que seu pai tinha morrido na véspera, numa outra noite de janeiro cheia de neve, tal como esta, vento frio, tempestade, tudo igual, o tempo passando e no entanto não passando, tudo diferente e no entanto tudo na mesma, e ele não teve sorte o bastante para chegar a completar setenta e quatro anos. Tinha sessenta e seis, e como você sempre teve a certeza de que ele iria viver muito, nunca se sentiu compelido a dissipar a névoa que sempre houve entre vocês dois, e assim, à medida que você foi se dando conta da realidade daquela morte súbita e inesperada, veio uma sensação de tarefa não concluída, a frustração vazia de palavras que não foram ditas, de oportunidades que se perderam para sempre. Ele morreu na cama fazendo amor com a namorada, um homem saudável cujo coração inexplicavelmente parou de funcionar. 
(…)
Hoje faz trinta e dois anos, e você continua lamentando aquela partida abrupta desde então, pois o seu pai não viveu o bastante para ver que seu filho incompetente, desprovido de senso prático, não terminou num asilo para pobres, o que foi sua grande preocupação, mas ele precisaria de vários anos de vida a mais para compreender isso, e causa-lhe tristeza pensar que quando seu pai de sessenta e seis anos morreu nos braços da namorada, você ainda estava batalhando em todas as frentes, ainda comendo a poeira do fracasso.” 
Página 33-34

Tenho uma história curiosa com o escritor Paul Auster.

Quando comecei a trabalhar numa livraria tinha 23 anos e uma enorme inexperiência em literatura contemporânea. Uma das coisas que mais me fascinava no começo era ficar olhando as estantes e pegar um livro de algum autor que eu desconhecia e quem sabe tentar ler. E lembro de olhar um autor chamado Paul Auster, que tinha mais de 7 livros na estante. E a ‘coleção’ do autor era diferente dos outros, vinha numa sobrecapa de papelão (devem existir termos mais técnicos que esse, mas outra expressão que eu ouvi foi “Parece uma caixa de ovo”). Não sei explicar muito bem, mas era a época do lançamento do livro Homem No Escuro e saíram várias notícias e reportagens sobre o autor. Fiquei curioso e não sabia por onde começar.

É sempre uma questão fundamental não é mesmo? Como começar a ler um autor que já tem vários livros publicados?


Sinceramente não sei muito bem como responder a essa questão. Tenho dois exemplos um pouco antagônicos:

Comecei a ler Ian McEwan pelo Reparação e nada do que eu li até agora dele chegou perto (comparação baseada totalmente no meu gosto pessoal e sem tanto critério). Já com o Philip Roth comecei pelo que me foi indicado (Complexo de Portnoy) e li livros melhores dele ao longo dos tempos (e mesmo depois de algumas leituras ainda me surpreendo lendo ótimos ‘novos’ livros do Roth).

Esses dois exemplos foram pra dizer que não existe uma lógica muito clara em ler um autor, mas acredito que existam sim livros que te ajudem a gostar ou mesmo a entrar no universo de um autor.
No meu caso com Paul Auster eu pedi uma indicação para alguém que já o conhecia. Quem me ajudou nesse caso foi uma livreira de muito tempo chamada Cida. Uma dessas pessoas que conseguem acertar os livros com uma precisão inacreditável. Uma pessoa dos livros mesmo.

Ela me indicou o primeiro livro de memórias do Austes, chamado A Invenção da Solidão. O livro era dividido em duas partes: Na 1ª ele descrevia a perda do pai dele que aconteceu há pouco tempo (na época) e na 2ª parte era sobre o filho dele que acabava de nascer e como ele lidava com isso.
Ainda hoje me lembro como fiquei impressionado com a 1ª metade do livro. Uma sensibilidade e uma beleza impressionante (e também melancólica). A 2ª parte me atraiu menos, mas o livro é muito bom.

E tudo isso pra falar sobre o livro de hoje, Diário de Inverno, último livro de Paul Auster publicado aqui.

Quando soube do livro, acreditava que era sobre a mãe do autor. E até o texto de orelha confirma essa impressão. Só que o livro não é sobre isso (da mesma forma que A Invenção da Solidão não é só sobre o pai e sim sobre o momento que Auster vivia).

Paul Auster tem 65 anos (62 anos quando ele foi publicado no original) e o livro é sobre memória, uma especie de autobiografia afetiva. Um acerto de contas com o seu passado.

Até mais da metade da leitura são as memórias do autor que percorrem o livro. E a forma como ele vai contando a sua própria história é um atrativo. Ele narra de uma forma quase impessoal os fatos e em um dos meus momentos favoritos ele cita todas as casas que ele já morou, fazendo uma linha do tempo da sua história ao mesmo tempo que ele coloca o tempo que viveu em cada uma (acho que são 21 casas no total).

E são nesses momentos que o Diário de Inverno deixa de ser só mais um livro de memórias. Você simpatiza e se sensibiliza com vários momentos dos livro e cria uma conexão com o autor. Não me lembro exatamente se em A Invenção da Solidão ele já falava disso, mas ao escrever esse livro Paul, com então 32 anos (essa questão dos 32 anos após a morte do pai é uma especie de marco para o autor voltar a escrever um livro como esse) já tinha escrito três livros de poesia, tinha acabado de se separar e estava quase sem rumo na vida. É possível sentir o desespero desses momentos e na virada da vida dele.

O livro também é uma declaração de amor à sua mulher, a também escritora Siri Hustvedt. Eles se casaram há mais de 30 anos e a forma como ele fala dela no livro é apaixonante.

Em algum momento do livro o autor conta que teve alguns problemas com uma tia por conta da publicação do A invenção da solidão por revelar segredos da família. Esse tipo de desentendimento sempre pode acontecer ao fazer um diário ou um livro de memórias, mas ao ler sobre a mãe do autor, fiquei me perguntando sobre a dificuldade em escrever sobre os próprios pais e principalmente entender o enigma que foram eles. Os pais de Auster foram infelizes juntos e sua mãe “renasceu” no segundo casamento. Existe um modo correto de contar essa história? De honrar a memória deles (não no sentido bíblico e sim no de justiça, de entendimento mesmo)?

Diário de inverno é uma leitura leve, que flui bem (tradução do Paulo Henriques Britto pode ajudar nessa percepção) e de uma maneira muito honesta e até certo ponto transparente (existem momentos de sinceridade quase desnecessárias ao livro). Nos faz olhar a vida de outra pessoa e pensarmos nas nossas próprias experiências.

Diário de Inverno
Autor: Paul Auster
Tradução: Paulo Henriques Britto
Companhia das Letras
207 paginas
Mais informações aqui

Um comentário em “Diário de Inverno – Paul Auster

  1. Eu me identifiquei muito com esse post.
    O que mais me chamava atenção nos livros do Paul Auster era essa capa de papelão, uma textura diferente. O primeiro livro que eu li foi A TRILOGIA DE NY e depois desse livro, passei a caçar todos os livros do Paul Auster e ele me tornou um dos escritores Top 5 da minha lista.
    Eu juro que tentei ler O COMPLEXO DE PORTNOY do Philip Roth mas eu nunca consegui ir adiante (isso pode produção?) … e olha que eu li outros livros de Roth e gostei …

    Voltando a Auster, gostei bastante do DIÁRIO DE INVERNO. Mostra um amadurecimento do escritor mas senti falta da escrita metalinguistica dele, dos desvarios e do personagem dentro do personagem. Realmente é uma leitura leve e gostei bastante quando ele narra os natais passados em família.

  2. Kalebe, esse foi meu primeiro Auster e acredito que haja livros bem legais dele me esperando, mas de qualquer forma gostei muito de Diário de Inverno, um livro tão simples mas muito envolvente. Se quiser depois ir lá no blog também fiz texto pra ele. Beijão!!!

  3. Rafael, você me fez lembrar do Paul Auster. Eu nunca trabalhei em livraria, mas minha história é semelhante: Assim que entrei na faculdade, me sobrava tempo de sobra pra fazer o que quisesse, e eu o gastava perambulando pelas livrarias aqui perto de casa. Em uma delas, encontrei uma pilha de livros do Paul Auster e me encantei com a capa de papelão. Então comecei a ler lá mesmo, gostei muito e depois acabei comprando. O livro era “invisível”, você já leu? (A capa dele é especialmente linda, porque o título vem de uma forma meio invisível naquela capa canelada de papelão).
    Bem, voltarei a ler Paul Auster. Tenho dois livros dele aqui em casa que nunca li, devem estar guardados em algum lugar.

    Agora você está oficialmente convidado para conhecer meu blog: http://www.literasutra.com
    Será um prazer vê-lo por lá! E se você estiver interessado em uma parceria, me avise!

    Um abraço,
    Monalisa

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