[Favoritos da casa] Bukowski

Por: Michelle Henriques
Conheci Bukowski por acaso. Quer dizer, conheci há muito tempo, sempre via o nome dele ali e aqui, quando as redes sociais ainda estavam engatinhando. Até que um dia, no finzinho de 2007, um amigo me emprestou uma pilha de livros e no meio estava O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram o navio de Charles Bukowski. Foi o primeiro livro dele que li e foi paixão instantânea.
Eu tinha quase 20 anos, sabia pouco de livros e da vida (não que hoje eu saiba muito, mas enfim…), e me identifiquei com tudo que eu li nos textos dele. Devorei todos os seus romances, parti para os contos, crônicas e até mesmo os caça-níqueis que as editoras lançam. Guardei as poesias para depois, elas requerem mais tempo, mais intimidade e eu também não quero esgotar toda a obra dele de uma vez.
Num rápido bater de olhos, fica a impressão que ele só fala sobre mulheres, bebida e vagabundagem. Dependendo da interpretação, pode parecer só isso, mas para mim sempre teve mais. Após ler biografias, entrevistas, ver documentários eu fiquei com a nítida impressão de que ele era uma pessoa muito solitária e que essas coisas eram placebos para ele. Inclusive, em algum texto ele disse que só não se matou por causa de sua única filha, Marina.

Quando comecei a ler Bukowski eu estava em meu primeiro emprego “de verdade” e estava prestes a terminar a faculdade. Uma cena do filme Clube da Luta não saía da minha cabeça. Eles estão no banheiro conversando e há um diálogo mais ou menos assim: “Quando terminei a faculdade perguntei para o meu pai o que eu deveria dizer. Ele me mandou arrumar um emprego. Perguntei o que fazer depois, ele mandou eu me casar”.
Acho que é normal você se questionar sobre essas coisas nessa altura da vida e Bukowski caiu forte contra tudo a que eu me sentia pressionada a fazer. Em seus livros ele sempre questionou o papel do homem na sociedade. Um trecho de Factótum resume bem o que ele queria dizer: “Como, diabos, pode um homem gostar de ser acordado às 6h30 da manhã por um despertador, sair da cama, vestir-se, alimentar-se à força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?” (pág. 107)
Além de questionar essa rotina dita como normal, Bukowski sempre deixou bem claro seu desprezo pela humanidade. Ainda no livro Factótum ele nos diz: “Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.” (pág. 33)
Bukowski usou sua vida como matéria-prima para seus textos. Ele criou Henry Chinaski, seu alter ego, e muito de sua vida pessoal foi retratada através dele. O tom niilista é bem marcado em suas obras (como no exemplo citado acima), mas Bukowski também se utilizou de um humor auto depreciativo e ácido em suas obras.
Anos depois resolvi voltar a ele. Propus a mim mesma a releitura de seus romances em ordem cronológica e Cartas na Rua não me convenceu tanto da segunda vez. Mas foi o primeiro romance dele, há a questão da maturidade (minha e dele), então vou seguir com a ideia.
Mas confesso que isso me dá um pouco de medo. Passaram-se sete anos desde que o conheci, minha cabeça é completamente outra e hoje me identifico como feminista. Fico aqui lembrando de uma entrevista dele com sua esposa, Linda, em que eles discutem e ele a agride. Como continuar gostando da obra dele depois disso? E como separar a obra do autor?
Esse texto da Clara Averbuck me fez pensar no assunto e eu concordo plenamente com ela, ainda mais nessa passagem: “Me identifico com a solidão dele, me identifico com o desgarramento, com a decepção diante do ser humano (e pra se decepcionar você precisa ter algum tipo de esperança), me identifico demais com os poemas de pessoa durona com coração, demais, demais.”
Bukowski não é para qualquer leitor. Sua escrita é dura e crua, ele mostra a realidade em seu pior aspecto, pode despertar nojo naquele que não está acostumado a prestar atenção em detalhes do dia a dia. Mas em mim foi o contrário, ele me abriu os olhos e me fez questionar tudo que eu achava até então ser certo.
Com o advento de redes sociais a obra dele foi bastante banalizada, com trechos fora de contexto jogados ao vento. E o pior, há quem acredite que sua obra é sobre ser vagabundo, alcóolatra e mulherengo. Ele foi bem além disso. Acho que poucos escritores conseguiram falar da solidão e dar dor da existência com tanta clareza.

 

Para quem quer se aventurar pelo mundo de Bukowski, recomendo o romance Misto Quente, que conta a vida de Henry Chinaski desde a infância. Ao conhecermos esses detalhes, passamos a entender melhor alguns comportamentos apresentados em outros romances e contos de Bukowski.
Michelle Henriques, 28 anos, louca dos gatos e dos livros. Vive em São Paulo e reclama todos os dias dos preços nos cinemas. Vive de obsessões, a atual é David Foster Wallace. Escreve no blog …in a handful of dust e também é uma das organizadoras do clube de leitura Bastardas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *