[Tirando o pó] A perspicácia da independência

Por: Emanuela Siqueira
Imagem daqui

Quando você precisa, deseja ou mesmo pensa em comprar determinado título de livro, qual o primeiro lugar que vem à sua mente? Para leitores mais assíduos não é incomum ter a sua livraria ou sebo favorito, para aqueles que possuem pressa é fácil lembrar que uma grande rede de livrarias que possui uma filial perto do trabalho ou da estação do ônibus/metrô. Ou para quem quer evitar qualquer tipo de stress ou mesmo mora no interior, usar a internet é a melhor solução. Leitores e consumidores possuem seus próprios hábitos e modos de facilitar os processos de compra. A questão é que nem sempre nos perguntamos como um mercado se sustenta, como as grandes redes proliferam, como a Amazon, Submarino e Walmart conseguem praticar preços tão baixos ou como aquela livraria pequena perto da sua casa consegue se sustentar não colocando best-sellers na sua vitrine.

Desde que Jeff Bezos e a Amazon começaram um processo de globalização de seus livros e os e-books se tornaram uma realidade com celulares e computadores portáteis, as livrarias independentes e, inclusive, grandes redes, passaram a prestar mais atenção no mercado e começaram a se movimentar, buscando ações para sobreviverem no mercado livreiro de forma saudável e criativa. Em 2011 escrevi o texto A Perspicácia das Pequenas Livrarias no blog da livraria em que trabalho. Na época havia lido no The Guardian sobre a a associação de livreiros independentes da Inglaterra e a “Semana das Livrarias Independentes”, que acontece todo ano na segunda quinzena de junho, e que levou aos primeiros questionamentos sobre como os livreiros independentes no Brasil lidavam com o cotidiano e a realidade do mercado por aqui.


Em 2011 o mercado livreiro estava assustado com o fechamento de grandes redes nos Estados Unidos, Inglaterra e França, e buscava formas de incentivar os leitores a frequentar as livrarias físicas, além de colaborarem para que estas continuassem com as portas abertas. No Brasil a realidade era naquele momento um pouco diferente. O mercado editorial ainda em processo de amadurecimento, as grandes redes de livrarias estavam em expansão e ainda era necessário maiores incentivos nas políticas de formação de leitores. O cenário não mudou muito em quatro anos, as grandes redes continuam em expansão, o mercado online cresceu bastante e a concorrência é ainda mais ampla. Para os livreiros independentes nem sempre é fácil concorrer com as promoções diárias oferecidas por lojas de departamentos online ou mesmo a Amazon, que atua no Brasil desde agosto de 2014.

Assim como aconteceu em outros países, as livrarias independentes passaram a pensar melhor sobre os seus focos e como melhor sobreviver nesse mercado. Apesar da forma apocalíptica como a mídia tradicional veicula as notícias sobre o mercado livreiro e editorial, não nota-se desespero e sinais de desgaste, mas sim um novo fôlego, os livreiros ainda estão em processo de descoberta de uma identidade própria e isso tem revelado uma série de novas ideias talentosas e empreendedoras no mercado.

Por exemplo, muitas livrarias independentes – como é o caso da que trabalho há quatro anos – atuam também como sebos, e o diferencial é saber qual a personalidade do espaço. Lidar com segmentos permite que o livreiro especialize o atendimento e assim as livrarias menores podem oferecer um melhor uso de seus espaços, desde lançamentos, ambiente para leitura, espaços para discussões e outras atrações que façam o cliente e usuário se sentir confortável e parte do espaço.

No Brasil a questão da sobrevivência de livrarias independentes vai além da discussão digital e físico ou mesmo em ambiente online e offline. Há outros pontos cruciais que inviabilizam e tornam difíceis a sustentabilidade dos pequenos livreiros. Começando, por exemplo, com política de descontos das editoras e distribuidoras, praticados de forma diferenciada para grandes redes e compradores pequenos. Como um livreiro que ganha um desconto de no máximo 40% consegue vender um produto com 50% de desconto ou mesmo promoções de frete grátis?

Quando vemos ações como a dos ingleses em criar uma “Semana das Livrarias Independentes” e que os mesmos organizadores trabalham em outros pequenos eventos durante o ano, é difícil não perceber como os livreiros independentes no Brasil ainda se tratam apenas como concorrentes e não conseguem pensar em alternativas que promovam juntos a expectativa de vida dos espaços. Faz falta uma certa união, afinal cada espaço é um mundo diferente.

Outro ponto inviabilizador se refere às relações culturais do próprio leitor/comprador com o espaço em que se adquire os livros. Ainda há muito o que se fazer no que se trata de incentivar esse público a ocupar outros espaços além de shoppings, por exemplo. E por fim um problema antigo e social: ainda somos um um país que lê pouco, com uma tradição de leitura recente, com menos de um século. Temos muito chão para conquistar novos e antigos leitores.

Por esses vários fatores os independentes apostam, em um primeiro momento, na identidade própria e diálogo com os clientes nas mais diversas mídias. Quando um leitor entra em um ambiente em que ele possa sentar e sentir-se à vontade, encontra de forma mais fácil ou tranquila o que está procurando, dialogando com um livreiro que conhece o acervo, é muito possível que ele se sinta fidelizado e tenha o espaço como referência. Uma outra forma de encontrar e fidelizar público para os pequenos livreiros é participar de eventos referentes ao seu segmento. Ir até onde estão os interessados no seu acervo, dialogar mostrando como o espaço físico pode ser interessante e como ele está conectado com as necessidades deles.

Jeff Bezos, o fundador da Amazon, já disse que o livro se resume apenas ao autor e seu leitor. Como ficaria todo o conjunto de pessoas que fazem parte da cadeia de produção de um livro? E como o livro chega ao leitor, quem e com quais ferramentas se estimula o sentimento de leitura em alguém? Há uma necessidade na perspicácia das pequenas livrarias, sem romantização mas sabendo que elas têm seus próprios estímulos, além de apenas lucrar com a venda de qualquer tipo de título. Afinal, o que torna um livro grandioso quase nunca é o número de vendas do mercado ou a propaganda massiva, mas sim todo o processo que envolve pessoa por pessoa até que o livro chegue ao leitor, dando sentido e o tornando até como um objeto social de transformação.

John Makinson, CEO da Penguin, disse na Flip – Festa Literária de Paraty – de 2010 que o futuro das livrarias estava focado nos espaços independentes, principalmente os que tivessem charme e identidade. É justamente nisso que os livreiros independentes apostam. E essa insistência na independência também é um tanto de crença de que toda a cadeia do livro, desde autor, editoras e distribuição vai além de um meio de sustento. Não dá para saber muito bem como será esse ano ou mesmo os próximos, mas há um tom de coragem e criatividade pairando no ar.

Emanuela Siqueira: formação em Letras mas multitasker por opção. Feminismo, Literatura, Cinema, Cibercultura, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tenta manter o blog Bloco de Notas Aleatórias. Trabalha como livreira-faz-um-pouco-de-tudo na Joaquim Livraria, em Curitiba. É co-fundadora do projeto Igreja do Livro Transformador. Escreveu isso em terceira pessoa, pois como diria Rimbaud Je Est Un Autre

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