Parafusos

A beleza dos quadrinhos (na minha singela opinião) é o mundo de possibilidades que ele permite. É possível abordar qualquer assunto e fazer coisas bacanas usando os seus recursos. E inventar outros. Ellen Forney usou os quadrinhos para falar de sua pofissão, além de ser uma forma de terapia, de escape e de confissão. E é sobre tudo isso Parafusos – mania, depressão, Michelangelo e eu.

Ellen é uma quadrinista que já teve uma série de relativo sucesso, mas que é cheia de ideias para novos projetos (os quais nunca consegue concluir por ter outras ideias legais), que planeja a sua grande festa de aniversário, na qual receberá amigos e familiares e fará uma performance, que pratica natação, além de uma série de exercícios… E nesse meio tempo resolve fazer terapia. E descobre que está na fase de euforia. Ellen é diagnosticada com um transtorno bipolar.

O livro conta, de forma muito sincera, todo o processo de Ellen a partir do momento em que ela é diagnosticada. Suas dúvidas, dilemas, pirações, as fases da doença e do tratamento.

Como disse acima, o que impressiona é justamente a sinceridade da autora durante todo o processo. Desde a aceitação da sua condição, até o dilema de tomar ou não remédios – Ellen temia que eles poderiam bloquear a sua criatividade. E a partir da sua decisão, todos os sintomas, os medos, as pesquisas são retratadas com detalhes.
A partir do momento em que recebe o diagnóstico, Ellen começa a pesquisar sobre a sua doença e principalmente sobre artistas que sofriam de algum problema parecido com o seu. Essas pesquisas se tornam quase uma obsessão da autora, que tenta encontrar respostas para ela e, quem sabe, algum conforto. Ver que outras pessoas passaram por isso e puderam superar. Ellen acreditava que a arte poderia ser seu tratamento e por isso se entrega tanto às pesquisas. Mas vê que o tratamento com remédios (no seu caso) é inevitável.
A experiência com os medicamentos é retratada de forma bem detalhada. Os efeitos colaterais, as melhoras e recaídas, tudo está ali. Inclusive páginas de um diário que Ellen começa a fazer para anotar seu humor durante diferentes horários do dia, além de qualquer outra coisa que passe por sua cabeça.
O traço de Ellen parece acompanhar o seu estado, da euforia à depressão. A forma também varia muito durante toda a história. Há páginas só de diálogos (sem imagens), outras só de ilustração, misturando estilos e referências… A autora experimenta bastante, inclusive nos balões.
Parafusos é um grande mergulho na vida de sua autora, que, por sua vez, faz um grande mergulho em sua doença. Como disse lá em cima, o livro é uma forma de terapia, de escape e confissão de Ellen. 
Parafusos – mania, depressão, Michelangelo e eu
Texto e ilustrações: Ellen Forney
Tradução: Marcelo Brandão Cipolla
Editora WMF Martins Fontes
256 pgs

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