Dias Perfeitos – Raphael Montes

dias perfeitos
“Ele sorriu para ela.
“Não é assim que funciona…”
“Me dá a chave… Ou vou atirar na sua cara.”
“Você não teria coragem de fazer isso…”
Téo se aproximou, passos calculados, mãos levantadas. Clarice puxou o gatilho. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Puxou o gatilho. O tambor executou um giro completo, indiferente. Teo avançou e bateu nas mãos dela. Sentia um misto de angústia e raiva. Esbofeteou Clarice.
“Eu disse que nunca te faria mal! Pensou mesmo que andaria com uma arma carregada?”
Deu outro tapa nela. Clarice caiu da cama, escondeu-se sobre a coberta, fechou os olhos. Uma mancha roxa surgia na altura da boca. Téo pensou em sedá-la outra vez. Era o que ela merecia. Chegou a pegar a seringa, mas desistiu. Buscou os separadores de pernas e braços na Samsonite. Clarice gemia, suplicava perdão. Ele vestiu a mordaça nela. Não tinha mais nada a dizer. Puxou-a pelos cabelos e prendeu seus membros às extremidades do aparelho. Fechou os cadeados, apertou fivelas, destacou velcros. Arrastou a estrutura até o chão frio do banheiro. Deixou a luz acesa. Clarice passaria a noite ali, crucificada, pensando na merda que tinha feito.”
Pág 104

Se houve um livro em 2014 que surpreendeu e ganhou vários admiradores, desta vez não foi Chiquinho e sim o segundo romance de Raphael Montes: Dias Perfeitos, ou I wanna be Dexter (desculpe eu não resisti, o personagem principal é um estudante de medicina para ser legista!). Com certa expectativa e algum receio eu encarei a leitura que demorou demais pela sua extensão e escrita, e saí com sentimentos contraditórios. Apesar de ter certeza que não gostei do livro, entendo as suas qualidades e o porquê de ter se tornado um cult da literatura.

O motivo principal, eu adianto, é que dentro do que se entende hoje por literatura brasileira, o romance de Montes é completamente diferente por tentar, primeiramente, contar uma história, pois muitos romances pegam o artifício modernista de usar uma história banal e criar um complexidade dentro dela. O exemplo mais claro é o Leite Derramado de Chico Buarque, que é uma história fragmentada; Dois irmãos segue mesma premissa, e esse são os grandes representantes da literatura brasileira. Mas essa é uma tendência em quase todos os romances que li nos últimos anos, dos que gostei e dos que não-gostei. A história de Montes é acima de tudo uma história muito interessante.
Em segundo lugar, o tema é também pouco usual na literatura brasileira atual: o policial. E qualquer experimentação fora dos já usuais drama regional e fluxo psicológico já é válida. Apesar de não se encaixar perfeitamente no policial normal, que costuma focar no ponto de vista do investigador durante investigação de um crime, ele bebe com canudo gigantesco do agora popular personagem de Jeff Lindsay, o Dexter, do ponto de vista cínico do personagem com relação ao mundo, e pelo fato de acompanhar a história do ponto de vista do “vilão”. E o Teodoro, personagem principal de Dias Perfeitos, é um vilão e não dos mais carismáticos.
O romance segue Teodoro, um homem de 22 anos, estudante de medicina (e futuro legista) em seu primeiro amor na vida adulta. Ao conhecer Clarice, uma mulher instigante, em uma festa, decide que é a hora de se ter um relacionamento sério. Ele a segue, descobre seu telefone, sua morada, fuça seus interesses na surdina e quando parte para a conquista, recebe um não na cara. Obviamente ele reorganiza seus planos, resolve acertar a cabeça dela, pegar seu corpo inerte e levá-la para um verão maravilhoso presa a uma cama, para dar a chance dela o conhecer melhor… Porque é assim que se faz, coleguinhas. A partir daí, o romance se torna uma sucessão de momentos dolorosos para a Clarice que incluem assassinato, estupro, um quase turnover e outras surpresinhas que Teodoro faz para demonstrar seu amor.
A história é interessante em seus três atos, e nas mãos de um diretor habilidoso há grandes chances de virar um filme fantástico. Aliás, considerando que a sub-trama do livro é um roteiro que Clarice está escrevendo chamado “Dias Perfeitos”, e os diálogos são tão cinematográficos, esse livro também é: I wanna be a movie. Se você entrar na história pelo ponto de vista do narrador e for embalado pelo seu ritmo, vai se divertir, mas se você for chato como eu e não entrar na do narrador vai empacar. Dito isso, só continue a leitura se quiser a crítica da narração do livro, se você já leu ou se não se incomoda com isso. 
Quando eu analiso a forma do romance, há alguns detalhes que me incomodam, pois foi o que mais incomodou durante a leitura. O foco narrativo é onisciência seletiva, o narrador é em terceira pessoa e às vezes entra na cabeça no protagonista. Isso cria o efeito prático de um distanciamento do narrador com o personagem que é um psicopata. É uma falsa primeira pessoa: apesar do narrador estar em terceira só temos o ponto de vista de Teodoro. Nada errado aí, mas não precisava deixar TODOS OS PERSONAGENS COADJUVANTES RETARDADOS:
– Um deles guarda para Teodoro – que diz ter uma moça que só “consegue dormir com remédios” – a identidade e pertences de uma terceira pessoa no porta luvas. E diz: “tudo bem!”
– A mãe da menina, após 83 ligações dela e da polícia, escuta uma história de paranoia da filha, vinda de Teo (que nunca tinha aparecido antes para ela) e o que ela faz? Dá um tapinha nas costas dele.
Apesar de certo esforço em embasar essas situações, parece muito mais idiotice do mundo que cerca o personagem do que inteligência metódica do protagonista em levar adiante por tantos meses um sequestro. Eu não duvido da incompetência dos nossos órgãos de investigação, nem mesmo a mídia em cima de um corpo esquartejado faz com que se ache o assassino, mas beira o ridículo os coadjuvantes da história. Até mesmo Clarice é desprovida de uma construção psicológica mais complexa, ela é uma moça bonita, revolucionário-liberal que não se dá bem com a família e isso é tudo, o texto faz com que ela não seja um mistério.
Essa onisciência seletiva cria também períodos de choque na escrita em que Montes aponta um período que indicaria uma retomada de consciência do protagonista, para depois na justificação do ato:
“Não queria parecer doente ou maníaco. Com o tempo, ele ia provar a Clarice que ela estava errada. Jamais seria capaz de cometer abusos: faltava-lhe o instinto animal que os homens ganham ao nascer. Esse era apenas uma de suas qualidades. Se houvesse mais gente como ele, o mundo seria melhor.”
(…)
Ao enfiar Clarice numa mala e trazê-la para casa teria se tornado criminoso? Nada havia sido premeditado, tampouco queria resgate. Queria apenas o melhor para Clarice. (…) E se ela não o perdoasse?
Não podia soltar Clarice.”
pág 46
“Antes de desligar, ele explicou novamente que o celular não funcionava no hotel e que não sabia quando voltaria. Despediu-se da mãe com um “eu te amo também” – queria mostrar que era um rapaz de família”
pág 82
E antes da metade do livro esse recurso foi utilizado tantas vezes que não choca mais, a não ser quando em seu ápice, mas é bem odiosa, que eu não vou descrever para não dar spoiler.
(SPOILER ALERT! Se não quiser ter sua leitura direcionada pule para o próximo parágrafo). Some: 1 – tudo conspirando para o narrador, + 2 – essa tentativa de sempre chocar o leitor, mais a construção de um suspense que não vinga. Pois não adianta colocar tantas possibilidades de escapatória no começo, vide que a história está longe de terminar e quando Clarice finalmente consegue eu tive um sentimento muito estranho apesar de ter uma súbita excitação de que finalmente ela iria se vingar de Teodoro – no meu consciente eu já havia notado que o narrador gosta muito do personagem de Teodoro e dificilmente algo iria acontecer com ele. Dito isso, só vi um jeito dessa história acabar bem lá na metade (e também um jeito ruim), e foi exatamente assim que ela acabou. Eu adivinhei o final da história e isso não é legal para mim. (Fim do spolier)
Feito essa considerações, acho que Dias Perfeitos é uma tentativa diferente de literatura. Eu o achei fraco como narrativa na minha leitura, mas sou a favor de sair do escopo de livros que tentam ser muito cabeçudos. Se você é um fã de policial ou de leituras densas, passe longe. Se está a fim de um livro com uma história interessante e que fica brincando com as expectativas do leitor, vá fundo. Posso não ter gostado da narrativa e tiraria umas 100 paginas do livro, mas não significa que eles seja ruim, só que não foi tudo isso para mim.
Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Cia. das Letras
278 pgs

Um comentário em “Dias Perfeitos – Raphael Montes

  1. Esse livro está na minha “listinha” (que na verdade é um caderno de 10 matérias recheado de nomes e indicações de livros kkkk) e a tempos quero comprá-lo mas me falta tempo… espero que a história me prenda e me surpreenda. Conheci o blog justamente por esta resenha e me apaixonei! Li várias postagens e elas me fizeram querer ler ainda mais! Kkkkk Juliana – Curitiba.

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