[TIROLEITE] Segura esse armário, Giovana!

Por: Bruno Leite

Eu não queria falar do meu mais novo platonismo agora, queria dedicar um 2016 todo especial pra ele, com resenhas quase semanais laureando sua obra e seus dardo de audácia mundo a fora, mas ele é tão atual, tão urgente, que uma simples matéria me trouxe a tona um de seus textos. Me refiro a Tom Wolfe e mais especificamente, me refiro a Tom Wolfe falando sobre homossexualismo e mídia em Emboscada no Forte Bragg.

Lançada originalmente em capítulos na revista Rolling Stone, acompanhamos a saga de um produtor de televisão que tem uma verdadeira obsessão em caçar os responsáveis pelo assassinato de um cabo do exército pego em pleno exercício de atos libidinosos num banheiro. Venhamos e convenhamos, existe um apelo muito grande nessa matéria, uma instituição ultra tradicional como as forças armadas possui um integrante homossexual e libertino que não obstante foi assassinato, vítima de pura homofobia. Nessa caçada rasteira, ele instala câmeras no bar que os três principais suspeitos frequentam para tentar fisgar qualquer indício de que eles sejam culpados. E ele consegue. Se o texto era delirante antes mesmo de existir qualquer indício de que os três rapazes fossem culpados,empossado de certeza, o texto da uma guinada e segue febril e virulento. Esse é o mote da história, agora voltemos ao desagradável ato de regressarmos da ficção e fincarmos os dois pés no mundo real.


Me espantei muito quando vi essa matéria, qual problema em termos cabos, capitães, brigadeiros homossexuais? A opção sexual da pessoa não determina, nem nunca determinará, o quão capacitada ela está para exercer determinada função e isso nos parece bem óbvio no calor de 2015; mas, o que a assessoria do exército não sabe dizer, Tom diz em seu livro. Num dado momento, o líder da gangue diz que o pelotão precisa de uma unidade, de uma base, que os integrantes devem confiar uns nos outros pois, quando em batalha, deve-se acreditar totalmente no seu companheiro de batalha e que segredos assim, tão sórdidos, vão minando a confiança do pelotão. Ele dá uma volta muito grande pra justificar esse argumento bem tacanha que eu tentei resumir. Mas essa não é a justificativa real, a justificativa real é de que é impensável que o país seja protegido por mulheres, por homossexuais, por pessoas que fujam do complexo estereótipo – no caso americano – WASP. Entregar o país na mão dessas pessoas seria o último decreto de falência de valores caquéticos e ultrapassados. Bem, por aqui entendemos como e porquê o exército recrimina tais atos. Mas Tom Wolfe não é militar, ele é jornalista. E aí mora a sua crítica.

Em nenhum momento a máquina midiática é poupada, o recurso do qual Tom se vale para criticá-la é exatamente o recurso que ela mais usa: a repetição. Lendo o livro temos a clara sensação de ouvirmos a mesma história algumas boas vezes, com os mesmos argumentos, as mesmas vozes sendo interrogadas, as mesmas vozes proferindo julgamentos tudo isso numa grande espiral para baixo. Também é constante a dúvida do protagonista, o produtor – constantemente alvo de escárnio por parte do narrador – da razão pela qual ele está investigando esse caso, afinal de contas ele é um judeu de classe média novaiorquino, não tem que se preocupar com assuntos tão belicosos assim, a mesma coisa se sente por parte da âncora do telejornal onde a matéria será veiculada, uma atriz fracassada, uma senhora enxuta e que não sabe como arrancar uma simples confissão dos três suspeitos pois nunca parou para pensar na igualdade de direitos e não tem a menor noção do tamanho da atrocidade cometida; melhor seria nem falarmos do diretor do jornal, um homem claramente empolgado com a repercussão de  uma notícia gerada sob sua chancela que vai lhe trazer mais fama, mulheres e aquele pozinho que não mente jamais. Afinal de contas, o que está em jogo, a conscientização da população em face ao preconceito ou apenas a especulação de um crime brutal com um verniz polêmico? A maneira como eles agiram – que de tão absurda é até divertida – transforma o caso num documento sério? Os limites da zueira e do jornalismo convergem em algum dado momento?

Fazendo valer o tema proposto, Tom expõe para nós o quanto nossa sociedade adormece hipócrita enquanto se alimenta de machetes tendenciosas e superficiais – fico imaginando o que ele escreveria tomando por base as redes sociais – o quanto a massa permanece amorfa recebendo uma informação dada na contramão, dada de maneira incipiente. Toda ajuda é bem vinda, claro, mas devemos sempre nos atentar como nos entregam essa ajuda, para que ela não avacalhe ainda mais o processo de modernização da sociedade.

Emboscada no Forte Bragg
Autor: Tom Wolfe
Editora Rocco
160 pgs 

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