[Favoritos da casa] Julian Barnes

Por: Bruno Leite

“Então a vida tomou seu curso e o tempo se acelerou. Em outras palavras, eu arranjei uma namorada. Evidentemente, eu tinha conhecido algumas garotas antes, mas ou a autoconfiança delas me fazia sentir desajeitado, ou o nervosismo delas aumentava o meu. Havia, aparentemente, algum código masculino secreto, passado de corteses rapazes de vinte anos para trêmulos rapazes de dezoito, que, depois de dominado, lhe permitia “pegar” garotas e, em certas circunstâncias “transar” com elas. Mas eu nunca o aprendi nem entendi, e provavelmente ainda não entendo. Minha “técnica” consistia em não ter técnica; outros, sem dúvida com razão consideravam isso incompetência. Até a supostamente simples sequência de que-tal-um-drink-quer-dançar-eu-acompanho-até-em-casa-que-tal-um-café? envolvia uma coragem que eu não tinha. Eu só ficava ali por perto e tentava fazer observações interessantes esperando estragar tudo. Eu me lembro de me sentir triste depois de beber numa festa no meu primeiro semestre, e quando uma garota passou e perguntou simpaticamente se eu estava bem, eu me vi respondendo “Acho que eu sou maníaco-depressivo” porque na época isso pareceu mais interessante do que dizer “Estou um pouco triste”. Quando ela respondeu “Outro não” e se afastou depressa, eu percebi que longe de me destacar da multidão animada, eu tinha usado a pior cantada possível.”
(O Sentido de um Fim)

Sempre que escrevo sobre um autor que considero um pedaço precioso de mim, da minha formação como leitor, eu sofro. Primeiro que eles são melhores com as palavras do que eu, logo, tudo que eu for escrever vai ser nada perto dos textos que eles tecem. Segundo que EM TESE eu tenho que ser imparcial na minha abordagem, coisa que não consigo quando estou apaixonado e o autor de hoje é um desses caras por quem eu sou e acho que serei sempre apaixonado: Julian Barnes. Mas não vou enumerar os vários componentes da minha atração por esse inglês maravilhoso, vamos aos livros que são mais interessantes que meu platonismo, mas antes, comecemos por uma de suas melhores obras, que é um dos melhores justamente por ser único.


Arthur e George começa contando em paralelo a vida de Arthur, o Conan Doyle – menino de imaginação fértil e ambições grandes e George Edalji- menino de origem indiana com ambições tão grandes quanto o pequeno Arthur. Os dois crescem e enquanto Arthur se torna o pai do legendário detetive Sherlock Holmes, George  acaba sendo condenado por uma série de crimes bárbaros sem solução; ao sair da cadeia, George decide pedir ajuda para Arthur para ambos desvendarem esses mesmos crimes. Para quem é fã de Sherlock Holmes o livro funciona como um panorama geral da época e do seu autor, o livro quase beira a biografia pois os protagonistas existiram de verdade e tudo é desvendado de maneira tão elegante e sublime que não tem como não se apaixonar, mas, para piorar, fizeram esse hotsite  com 10 motivos pelos quais você deve ler esse livro e a obra do Julian. O livro é único porque é o mais extenso dos trabalhos de Julian, porém, o autor gosta desse limite entre biografia como nos livros Um Toque de Limão e O Papagaio de Flaubert.

Em O Papagaio de Flaubert vemos o senhor Geoffrey caçando a verdade por trás de dois papagaios empalhados que teriam servido de inspiração a Flaubert, porém, com uma ironia tipicamente inglesa, Julian vai entrecortando todos os gêneros possíveis e imagináveis com muita inteligência e toques soturnos sobre literatura, vida, universo e tudo mais.

Aliás, Julian gosta muito da França e dos seus autores, tanto que escreveu um livro de contos – engraçadíssimo diga-se de passagem – chamado Do Outro Lado da Mancha que narra as peripécias de alguns ingleses em solo francês ao longo do tempo; meu conto preferido desse livro é “Eternamente”, a história de uma simpática senhorinha que passeia pelo cemitério imaginando as histórias e circunstâncias que levariam aquelas pessoas ao óbito e no final do livro temos um relato do próprio Julian sobre a (con)vivência com os franceses de modo geral.

Num outro livro de contos em que ele brinca com os limites da ficção e da biografia é Um Toque de Limão, um livro soturno com contos deliciosos que trazem pessoas como Jean Sibelius e Ivan Turgenev para falar sobre as dores da vida e principalmente sobre os mistérios da morte. Como vocês podem perceber, Julian adora escrever contos e o meu livro preferido e um dos mais recentes dele é Pulso que traz o meu conto favorito dele “Um Vento do Leste” que conta a história de um homem fascinado por uma imigrante do leste europeu na sólida e cristalina paisagem do litoral britânico. O que mais me impressiona nesse conto é a total incapacidade dos personagens serem sinceros, verdadeiros e se fazerem entendidos.

Sentimentos são sempre muito muito complicados nas mãos do Julian, não espere ler um grande romance com sentimentos eloquentes e febres delirantes. Há sempre uma atmosfera gótica em torno de suas histórias, um sentimento de perda e de pesar muito grande que alternam de forma muito precisa, o que não impede sua escrita de ser bastante engraçada em certos momentos. E por falar em graça, um dos meus livros preferidos dele é de um humor finíssimo. Em Tom de Conversa narra um triângulo amoroso encabeçado pelo marido traído, seu melhor amigo e algoz e sua ex mulher; a cada momento é dado o poder de voz a um personagem, como se estivéssemos numa peça de teatro. Só que não estamos, o formato do qual Julian lança mão é fascinante e os diálogos truncados dão ainda mais graça ao grande pastiche sentimental no qual os três estão envolvidos. Pastiche esse tão elaborado que foi preciso mais um livro para que Julian pudesse dar conta dessa história Amor, etc – que preserva a estrutura do livro anterior. Porém, a graça deste é dada pelo sentido imediatamente oposto, se antes estavam todos defendendo suas paixonites e medos, nessa segunda parte o objeto a ser defendido é um mínimo de dignidade, um mínimo de credulidade e uma enésima parte do charme que foi se esvaindo ao longo desses dez anos de relacionamentos errados. Absolutamente genial.

Gostaria de ser mais disciplinado e poder dizer um pouco mais sobre De frente para o Sol e Nada a Temer, mas como não li esses prefiro não manifestar maiores entusiasmos. Mas se por ventura você, criatura fantástica do outro lado, tiver lido um deles e quiser comentar fique a vontade para fazê-lo.

Ele também é um grande cínico político e podemos ver muito disso em Inglaterra, Inglaterra, livro que relata a construção de uma miniatura de hábitos, culturas e monumentos tipicamente ingleses em uma ilha periférica da Grã Bretanha, ilha essa que vai superar a cópia e que apareceu nesse meu especial sobre britpop . Sendo mordaz ao extremo, Julian consegue, ao contrário da proposta, maximizar os problemas mais genuinamente ingleses nesse pequeno parque temático e nos fazer refletir não apenas sobre a vida dos súditos da rainha, mas sim, da vida moderna num todo. Outra brincadeira só que não tão jocosa assim é O Porco-Espinho livro que narra a queda e morte de um líder comunista num país longínquo do leste europeu e que coloca em xeque os valores vindos tanto do leste comunista decadente e do oeste capitalista progressista animalesco.

Existe uma curiosidade sobre o Julian. Uma não, duas. Uma é que ele adora cozinhar e que através dessas mãos prodigiosas nasceu O Pedante na Cozinha, que nada mais é que um confessionário de todo aquele que se aventura a cozinhar; entre as histórias de como ele ganha livros absolutamente dispensáveis, de como ele escolhe as receitas e os livros de receitas. Há relatos cômicos como o caso da coqueteleira que ele comprou mesmo não sabendo fazer nenhum drinque e pior ainda, não gostando de drinques e os utensílios quebrados, mas lindos, que ele acumula na cozinha de modo a emprestar a ela um ar mais aconchegante e a elaborada tarefa de montar uma biblioteca DENTRO de uma cozinha. Sinceramente, o melhor livro sobre culinária que eu já li, o amadorismo, o humor e a delicadeza com que ele fala da cozinha só vão te estimular a cozinhar. Outra coisa sobre o Julian é que ele possui um pseudônimo com o qual escreve livros policiais; Dan Kavanagh tem quatro títulos publicados lá fora e ainda não temos previsão de quando e por onde ele pode vir a ser lançado aqui no Brasil.

Mas falar do Julian é difícil sem falar do livro mais lindo que ele já escreveu, livro esse que lhe rendeu projeção mundial ao ganhar o Man Booker Prize: o avassalador O Sentido de um Fim. Esse livro narra o acerto de contas de Tony Webster com o seu passado, com os seus sentimentos e mais importante de tudo, com o sentimento mais precioso que lhe fora permitido sentir: a amizade. No rastro de suas lembranças e reminiscências, Tony vai tentando reconstituir seu passado melancólico e promissor no auge dos anos sessenta. Por ser uma novelinha de leitura rápida e fácil, falar mais sobre é estragar o livro e é com ele que eu desejo que você comece a despetalar a obra desse escritor maravilhoso e espirituoso que a cada lida só se mostra mais e mais generoso, inteligente e divertido.

Bruno Leite: Um taurino neurótico. Um beatlemaníaco que samba. Porque literatura é luz, raio, estrela e luar.

Um comentário em “[Favoritos da casa] Julian Barnes

  1. Amei fazer esse passeio pelos livros do Julian Barnes, um dos escritores que certamente está no meu ranking dos 10+. O que mais gosto ao ler o autor é o humor afinado, o sarcasmo que ele tem. Sem falar a maneira como aborda os relacionamentos.

    Beijos, Livro Lab

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