Primeira Morte, A – Maíra Ferreira

primeira morte, atoda a diferença.
saímos
ele segurou minha mão
entre as suas
dançou meu corpo
com o seu
saímos
e de presente me deuum livro:
com carinho, eu.
mas embaixou errou a data
eu também não disse
nada e depois
terminou.
saímos
e eu voltei com cem
galáxias mas para ele
era dia 20 e pra mim
foi 22
e isso
sim
fez toda
a diferença
pág 11.
A criança que se ofende com a beleza da borboleta no poema de abertura, que dá titulo ao compêndio, e os velhos pressupostos no tempo pedindo perdão em seu encerramento não estão localizados à toa em um livro que tem a audácia de dividir a morte em várias. Há uma sensação de círculo iminente já pressuposto no próprio título da obra. E ao ler o último poema, desconsiderando a lírica agradecimento em seu final, a sensação predominante é de que as ideias que nos perseguiram por sensações têm um final simbólico.
Alguns mais radicais dirão que isso não existe, muito menos o arranjo entre um poema e outro, e acho difícil acreditar que os autores ficam meditando horas para descobrir onde é o melhor lugar de se colocar um poema Seguindo este ou aquele? Assim como as bandas e cantores, não devem matutar muito para a organização do álbum. Mas para mim, um álbum ou um volume de poesia que me marca é o que tem coerência da parte com o todo, e de preferência que termine com um boom. Dito isso, o que mais me surpreendeu no presente volume foi, que apesar de conhecer alguns dos poemas de antemão eu fiquei surpreso com a concisão de todos eles dentro do volume. E isso é para mim primordial.

Maíra é uma poeta de momentos, não vai falar explicitamente de sentimentos ou se preocupar com rimas, mas vai criar imagens poderosas seja por meio de associações


houve um dia em mim
o nascimento de uma pequena mariposa
entre a terceira e a quarta vértebras
quase chegando ao coração.
ou mesmo por meio de assonâncias de palavras.
melancólicas magnólias
jazem sobre o seu umbigo
Procedimento este que me lembrou demais algumas técnicas do mestre Murilo Mendes. Neste trecho em específico e outros, pois apesar de ser considerado o mestre o do surrealismo, muitas vezes seu surrealismo era com a construção imagética da cena e sim pela assonância surrealista da palavra como no clássico exemplo: Os jardins da palavra Jamais. Momentos desse lirismo linguístico existem na poesia de Maíra, mas creio que o predominante seja um tom quase prosaico na construção de seus versos. O cotidiano esparramado pelas linhas do poema que rendem uma pérola da vida:
nó de corda
ônibus não chegam
céus não passam
brisa disse que vinha
(cachorro de rua passa gemendo chagas de uma vida toda)
Em alguns momentos, como em “Quando cruzar a ponte rio-Niterói”, parece que a prosa está lá tão forte, que poderia ser uma poema em prosa, uma forma que eu acho que seria interessante arriscar. Em outros momentos temos escondidas referências culturais nas entrelinhas ou mais explicitas:

se uma Isabella Huppert jogada no chão
do banheiro sujo estendendo mão
ao som de pianos corretos não
te convence
Não sei se achei todas, mas já é mais um motivo para revisitar seus poemas. Além da própria intensidade de sua lírica que combina um hermetismo, seja visual ou linguístico, com os momento breves que molda nossa vida como no poema acima, em que um simples erro de data pode significar muito.
Com relação ao livro em si, ele é bonito editorialmente falando mas faço uma crítica a edição no quesito impressão, que tem o tamanho bom para um livro de poemas, mas parece bem menor (cerca de 60 páginas), pois na contramão de uma edição normal que tem somente a página da direita com mancha, a presente edição apresenta todas as páginas, frente e verso, com poemas. “Mas que frescura”, você poderá pensar, e está coberto de razão por um lado, por outro minha década nesse ramo atesta que parecer um livro muito pequeno não é bom, e ter uma lombada somente branca e sem título também. Agora na ocasião do lançamento ele ficará exposto mostrando um bela capa, mas quando for para prateleira, corre o risco de ser uma lombada branca entre Eucanaã Ferraz e Millor Fernandes, um bela companhia, mas menos do que a edição merece.
Sendo assim o término de A Primeira Morte é conciso, pois os temas se entrelaçam e dançam, e também por termos uma poeta jovem de 22 anos que fala sobre o cotidiano para criar sua poética. É quase impossível não se identificar, mesmo que sua geração seja um pouquinho mais à frente (rsrs). A poesia de Ferreira tem intensidade, delineia a poética dessa geração de passagem do juventude, a adolescência, e tem algum erotismo colocado em doses certas. A primeira morte pode ter ocorrido, mas é uma passagem para outra coisa. O que será, só o próximo volume irá dizer. No mais, aguardo ansioso.
A primeira morte
Autora: Maíra Ferreira
Editora: Oficina Raquel
60 pgs

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