Anthony Browne redescoberto

Muitas vezes aqui no blog ficamos muito impressionados com o poder da ilustração de uma obra, desde seu minimalismo com Aperte Aqui, de Hervé Tullet, às construções complexas de um Lacombe ou Rebecca Dautrémer. Contudo umas das experiências mais interessantes de minha vida como leitor foi redescobrir a literatura infantil não como uma coleção de personagens e histórias engraçadinhas, mas como instrumento de mensagens mais complexas e instigantes.

Um fato que passa despercebido quando temos 6 anos e andamos inocentemente com a Chapeuzinho Vermelho pela floresta, mas se torna primordial quando já adultos nos deparamos como uma obra que tem uma mensagem tão clara à ausência paterna quando Bernardo encerra sua história com a inocente frase: “Mas eu não sou o Bernardo, eu sou um monstro.”, em Agora não, Bernardo, o livro que decididamente abriu meu olho em relação as múltiplas camadas de interpretação que um texto infantil pode ter.

A partir daí seria um pulo para chegar na poética de um Flicts ou a tristeza/dureza que a vida representa na obra-prima Fico à Espera, e que Enamorados da Rebecca Dautrémer me ganhe pela vivaz intersecção entre a poética do texto e a beleza do traço, ainda são os pequenos textos que representam uma secura no estômago que mais admiro. E essa é a obra de Anthony Browne, autor inglês na ativa desde o final dos anos 70, finalmente redescoberto pela Jorge Zahar.

Entretanto devo fazer um parêntese para elogiar a editora. A gente aqui não puxa saco de ninguém, muito pelo contrário. O [Hello Editoras!] É para puxar orelha, e eu especificamente, adoro falar mal de um monte de coisa, inclusive quando a edição é feia. Mas também tiro o chapéu quando a coisa é bem feita, e a linha editorial da Pequena Zahar já é melhor seleção editorial deste ano, especialmente porque não tem nem dois anos de vida e acertou na maioria dos títulos que saíram até então. E apesar de Browne já ter títulos publicados pela Martins e FTD, somente agora que com duas obras recém-editadas, teve seu destaque merecido.

NA FLORESTA

Este não é um livro para todos, ainda que adultos. Isso porque sua interpretação será muito diferente para cada um dos leitores. Devo confessar que sua estrutura tem pelo menos duas rupturas na narrativa e no visual que vão determinar se você gostará ou mesmo formará uma interpretação.

A história do livro é simples, mas impactante. Seguimos um menino que começa a narrativa dizendo que seu ”era uma vez” começou quando seu pai foi embora de casa. Nesse breve prólogo, o mais tocante é a ilustração que mostra o menino grudando bilhetinhos pedindo o retorno do pai. Poderíamos aí pensar que esse é um livro de superar a separação dos pais, mas a segunda parte vem como uma bomba estranha nos indagar o que estamos lendo eventualmente.

O menino tem que levar uma cesta para sua vó, e acaba pegando o atalho na floresta para chegar mais rápido, pois seu pai pode estar lá. A partir daí, a história vai ficando mais parecida com Chapeuzinho Vermelho, encontrando uma série de outros contos de fadas que estão sofrendo. Um detalhe importante é a concepção visual do artista quando cria suas cenas na floresta, criando um mundo real, em preto-e-branco com exceção do personagem, mas que quando visto com olhos psicanalíticos revela ser ao mesmo tempo real mas com um ‘quê’ de distorcido.

A terceira parte é a chave da perdição, pois nada diz especificamente com seu final, e, contrariando as expectativas, pode ser até surpresa dependendo da leitura. Na minha interpretação, apesar de todas as rimas com contos de fadas, essa é uma experiência mais emocional de crescimento do que qualquer outra coisa, mas também vejo a possibilidade de se ver um final de tempestade no copo da água e até mesmo espírita (?!). Browne não fecha sua história e isso pode incomodar, ou intrigar.

VOZES NO PARQUE



Mas se você quer um final fechado e uma obra-prima, sendo adotado por vários colégios estrangeiros e vários brasileiros, o livro essencial é essa pequena joia de 1998, um livro que me ganhou pelo simples fato de introduzir um recurso literário incomum na literatura infantil: o foco narrativo.

Na verdade a história é bem mais simples de ser explicada, é um encontro no parque entre duas crianças… e como é bonito… e como é triste… e como é real.  Os personagens são macacos antropomórficos, uma mãe, seu filho e um cachorro de um lado, um pai, sua filha e um cachorro de outro. E falo lados sem nenhuma culpa, pois o tema central que está sendo discutido na história é o preconceito social entre as pessoas.

A mãe é uma burguesa que esnoba todos que a cercam, o pai é um trabalhador preocupado com o dia cansativo de hoje e de amanhã, e as duas primeiras vozes que somos apresentados são a desses dois personagens que deixam claro a distinção social entre eles e a maneira como encaram o mesmo mundo, e tarefa de levar seus respectivos filhos ao parque. Depois temos as vozes das crianças e a diferença absurda de perspectiva quando vemos o mundo pelos olhos delas, e o nascimento de algo que pode ser interpretado como um amor em estados bruto, os cachorros também ao se encontrarem se divertem mais que os personagens, pois também são ainda mais inocentes. A cena final no discurso da menina que vê a tristeza no olhar do menino é de cortar o coração.

Lindíssimo livro, de uma habilidade narrativa fenomenal e lidando com um ponto muito complexo e difícil para um país de desigualdade social ainda mais berrante. Essa deveria ser uma obra adotada em todos os colégios do país. Browne vale a leitura e tem ainda mais coisas publicadas na Inglaterra que espero que cheguem logo por aqui.

Na Floresta
Texto e ilustração: Anthony Browne
Tradução: Clarice Duque-Estrada
Editora Pequena Zahar
32 pgs

Vozes no parque
Texto e ilustração: Anthony Browne
Tradução: Clarice Duque-Estrada
Editora Pequena Zahar
32 pgs

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