Outro lado da sombra – Mariana Portella

“Pensei no mar e fechei os olhos. Sofia não falou mais, a fumaça no quarto tornou-se mais densa e o cheiro de canela, mais forte e penetrante, O sofá me puxava para baixo e quase conseguia sentir o rumor do mar dentro de uma concha. Uma manhã de sol incerto, o mar agitado e eu sozinho em uma praia onde a areia era escura e grudenta. Quando caminhava sentia enfiar-se  sob as unhas e formar uma segunda pele sob os pés. O mar lançava-se com violência sobre a orla, que a cada onda perdia terreno e se encurtava mais. À minha volta, ninguém. Nem mesmo um caranguejo, um seixo, nenhum ser vivo. Ouvi gritos vindos do meio das ondas, não parecia longe, embora não desse para ver ninguém. Assim como estava, sem mesmo tirar a roupa, começava a entrar na água, coma primeira onda me engolfando. A maré não estava alta e conseguia caminhar, apesar do jeans aumentar o atrito e dificultar meu passo. O vulto que pedia socorro tornava-se mais nítido, e a sua voz eu não podia deixar de reconhecer: era meu irmão. As perna começaram a mover-se mais velozmente, e o passo mais ágil. E no entanto continuava sem ver ninguém, mas a voz parecia estar ali bem diante de mim. Atrás, ninguém. A margem agora estava distante e a água chegava-me até os ombros. Gritei: “Carlo é você? Não o vejo, Carlo, onde você está?” Ele me respondia: “Estou aqui não me abandone, estou me afogando! Soren, me ajude, me dê a sua mão!”

Carlo não estava ali! Poderia jurar. A aflição de ouvi-lo e não poder ajudá-lo empurrava-me além, com os braços para a frente comecei a nadar com a cabeça alta, tentando encontrá-lo.”
pág 136
A beleza e tristeza de alguns trechos deste romance de estreia da carioca Mariana Portella tem uma força pouca vezes vista numa primeira incursão à arte da ficção. Podemos visualizar o sentimento palpável da melancolia, seja no confronto do eu de maneira direta, seja em cenas oníricas que permeiam o romance do começo ao fim. Dito isso, Portella parece Lewis Hamilton em começo de carreira, pois para consolidar seus belos trechos e movimentos, há uma barbeiragem que quase põe tudo a perder e entre altos e baixos vamos caminhando sob a perspectiva de Soren, o narrador, na busca de nosso eu interior.
Mas não fiquem tão chocados, caros leitores, pois ser comparada a Hamilton, um dos melhores pilotos da geração pós-Schumacher é algo bom, e creio que devemos ficar de olho nesta autora intrigante. O outro lado da sombra me atraiu com suas promessas de leitura densa ao adentrar no mundo de um jovem melancólico em viagem à Dublin, que deve ser um dos lugares mais legais da terra, na minha imaginação. Pouco sabemos dos motivos da viagem e quem é o protagonista, mas em poucas linhas já sentimos uma geladeira nas costas do mesmo e esse é o principal atributo da prosa de Portela, que quando se limita a olhar com microscópio para os sentimentos do protagonista nos faz, enquanto leitores, ter uma bad-trip, não no sentido de ser muito pesada, mas em criar um atmosfera de desconforto do personagem com a vida que vive.

Vida essa que vai sendo descoberta aos poucos no primeiro ato, centrado na ida à Dublin. Descobrimos seu medo da morte, o acidente de avião que matou seu pai, Carlo, seu irmão que desapareceu na juventude, e uma antiga namorada que aparece durante a viagem para deixa-lo ainda mais desconfortável. Quando chegamos à cidade irlandesa em busca de paz e autoconhecimento junto do protagonista, logo entra em cena um bandido que tenta rouba-lo, e em uma briga cai da janela junto com o protagonista, que em seu último momento lúcido percebe: é o meu irmão! 
Nesse ponto, o que era uma trama intimista centrada no “eu” do protagonista, parece com esse plot twist que deveria ser imaginada com dublagem dessincronizada, Talia de coadjuvante e vinheta do SBT. Primeira derrapagem quando vemos o macro, a história terá em seus pontos de catarse alguns acontecimentos de novela mexicana, que não seriam necessários. Uma das coisas que notei é que o esmero para construir a história geral não e tão grande quanto no micro, ao terminar a leitura para contar a história de uma maneira a embarcar todos seus desdobramentos o romance precisaria de mais umas 100/150 páginas, pois muitos acontecimentos, em especial na terceira parte, ficam suspensos.
A segunda parte começa com o narrador desenvolvendo melhor o que foi sua vida, partindo deste irmão que estava desaparecido há tantos anos, se centrando nas circunstâncias de seu desaparecimento, chegando a uma vizinha-amante de Soren, também vítima de melancolia e que num belo dia, quando o narrador avista uma carta de tarô da morte voando da casa da dita cuja, ele solta solta o bordão “não acredito em coincidências” e (tan-tan-tan!) Ela se suicidou… um tema fortíssimo que, para alguém que teme a morte, deveria ser melhor desenvolvido, mas que vai ser a inspiração para sua viagem e aí retomamos tudo novamente até chegar na queda e ele se encontrar em uma cidade sinistra à la Silent Hilll. E o botão do surreal é ligado e o romance realmente engrena, ainda que por vias muito óbvias, por imagens cada vez mais oníricas com Soren tentando compreender… e novamente sai um diálogo tão expositivo sobre o que está acontecendo no mundo que doía minha alma, e isso após um piada sobre David Lynch, que nada explica ao espectador, para que destruir nossa diversão?
A terceira parte tem ideia interessantes, é uma consequência lógica de tudo que ocorreu, e traz um final… ruim, na minha opinião, mas isso vai de cada um, pois a grande chave é a identificação com o personagem. E se comecei compreendendo sua angústia, terminei entendo o movimento da mudança em sua personalidade, mas não aceitando, pois a maneira como a história é contada acaba simplificando demais algumas coisas, e ainda traz mais em um diálogo expositivo entre Soren e seu amigo no bar. 
Não vou recomendar a leitura, mas não digo para passar longe. Para quem for ler, imagino que se surpreenderá com a escrita, mas não comprará a história como um todo, ficando a sensação de que falta algo ou que é como um filme em que até vemos que o roteiro é bem construído mas a execução do diretor foi só razoável, em um material que poderia ser melhor desenvolvido. Este livro traz conflitos familiares, temas provocantes como psiquê deturpada, a perda da memória, suicídio por depressão e não desenvolve nenhum deles, se limitando a fazer um estudo de personagem que apesar de ter um arco interessante, mas pode ser considerado inconclusivo. Então… eu gostei, por motivos pessoais de identificação com o personagem, mas poderia ser muito melhor. A boa notícia é constatar que a autora é bem promissora.
O outro lado da sombra
Autora: Mariana Portella
Editora Rocco
208 pgs

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