Barreira – Amilcar Bettega Barbosa

“Como em uma conversa pelo Skype, de repente tudo fica muito próximo, e uma noite maldormida sobre a poltrona que não reclina grande coisa, sem saber onde enfiar as pernas e embalado pelo rumor constante das turbinas, é suficiente para te jogar no outro lado da história, com poucas horas sob a luz fria e sempre imutável temperatura dessas verdadeiras bolhas artificiais que são os saguões dos aeroportos, toda a tua dificuldade para dar o primeiro passo em direção ao que até bem pouco julgavas distante demais te parece de um ridículo extremo, já tudo tem outro aspecto a partir do momento em que deixas a tua cidade, desde as pessoas, o jeito de elas se vestirem ou andarem ou de se dirigirem a alguém, até as lojas, os cafés e os produtos vendidos nessas lojas e cafés, tudo tem outra cara e outra cor, mesmo que essa cara e essa cor não possam ser mais insípidas do que são sempre as caras e as cores em um grande aeroporto internacional como este de Paris por onde tu vagas ainda meio insone e sem saber o que fazer para matar o tempo até a partida do próximo voo para Istambul porque perdeste a conexão quase imediata que a vendedora da agência de viagens em Porto Alegre exaltava como a grande vantagem do itinerário que ela compusera para ti (…) por enquanto és obrigado a te contentares com a observação do que se passa à tua volta enquanto esperas, e a pensares no que te espera nessa tua volta a Istambul após uma ausência que se não fosse Fátima insistir tanto ainda se estenderia por muito tempo sem que sequer te soprasse o espírito  ideia de um dia tentares encontrar a outra ponta do teu passado em vez de passares todo o tempo tentando negá-lo e, assim fazendo, afirmá-lo cada vez mais, pela recusa, pelo desprezo ou por esta fuga que fizeste durar até o último momento, quando então acabaste cedendo ao apelo de tua filha (…)”
Página 20-21

Quando foi lançada, a Coleção Amores Expressos causou uma certa polêmica. Para quem ainda não conhece, a coleção tem uma ideia interessante: 16 autores foram convidados a passar um mês nas principais capitais do mundo. E a partir dessa experiência escrever um livro (conto ou romance, pelo menos até agora).

A polêmica sobre o projeto começou em 2007 quando o produtor Rodrigo Teixeira, criador do “Amores Expressos” (com o apoio do escritor João Paulo Cuenca) tentou conseguir recursos via Lei Rouanet para bancar a coleção, orçada em R$ 1,2 milhão.

Muitos escritores se enfureceram pela possibilidade do financiamento público para o projeto, tanto pela temática quanto o critério da escolha dos autores (a acusação era terem privilegiados amigos de Teixeira e Cuenca).

Teixeira desistiu das leis do incentivo e financiou o projeto (reduzido a R$560 mil) e ficou com o direito de adaptar os romances para o cinema. E o acordo estimava para cada livro ficaria pronto 1 ano após a viagem. Mas é claro que não dá pra apressar os livros dessa forma e o processo da escrita de alguns desses livros ‘encomendados’ demoraram um pouco mais que o normal e alguns casos nem chegaram a sair.
Pra saber mais sobre o caso, clique aqui.


Até agora já foram lançados 10 livros:

Cordilheira (2008), do Daniel Galera;
O filho da mãe (2009), do Bernardo Carvalho;
Estive m Lisboa e lembrei de você (2009), do Luiz Ruffato;
Do fundo do poço se vê a lua (2010), do Joca Reiners Terron;
O único final feliz para uma história de amos é um acidente (2010), do João Paulo Cuenca;
Nunca vai embora (2011), do Chico Mattoso;
O livro de Praga – Narrativas de amor e arte (2011), do Sérgio Sant’Anna;
Ithaca Road (2013), do Paulo Scott;
Digam a Satã que o recado foi entendido (2013), do Daniel Pellizzari; e
Barreira (2013), do Amilcar Bettega Barbosa.

O livro de hoje foi o lançamento mais recente da coleção, o Barreira, do Amilcar Bettega Barbosa.

Barreira tem como fundo a cidade de Istambul, capital da Turquia. E é uma história de identidade. Ou melhor, da busca dela. Fátima é uma jovem fotógrafa que vai morar na cidade convence o pai a visitá-la. Justamente a cidade que ele deixou para trás há mais de 50 anos. Só que quando ele chega nesta cidade que ele não consegue reconhecer, começa a busca por Fátima que desapareceu misteriosamente há alguns dias. Ibrahim tenta refazer os passos da filha, que parece ter se envolvido com um artista experimental e estranho chamado Ahmet, mas ele não tem sucesso e aos poucos ele vai descobrindo e conhecendo essa cidade da qual ele parece ter fugido sua vida toda.

Enquanto isso, o autor de guias de viagem, Robert Bernard perde seu filho e essa busca para entender o que aconteceu também o leva à arte de Ahmet, que parece usar a sua própria vida como parte da sua arte.

Esse é o primeiro romance do contista Amilcar Bettega, que passa longe de term uma forma linear de contar a história.

Na verdade, o que interessa ao autor são os experimentos, as sensações e não necessariamente a história.
Na primeira parte da história (Ibrahim procurando Fátima), as descrições são mais longas e detalhadas sobre a cidade que ele desconhece. Mas em nenhum momento o texto consegue fluir, apesar de conseguir criar belas imagens. Só que na segunda parte, quando Ibrahim não tem muitas esperanças (ou pistas) em encontrar o paradeiro da filha, é Fátima a narradora, e os capítulos se repetem com algumas variações, que criam uma espécie de dejá vu, ou algo do tipo.

Eu entendo que este é um recurso de estilo, que o autor quer causar essa ou outras sensações no leitor, mas confesso que não foi isso que aconteceu comigo. Pensando nesse estranhamento durante a minha leitura, que se arrastou por mais de dois meses (e confesso que não o abandonei por ter escolhido ele na parceria com a editora), fui pesquisar algumas entrevistas com o autor e encontrei exatamente essa busca por essa experimentação e estilo. Eu consigo entender tudo isso, não sei se foi o momento, mas a leitura de Barreira foi uma experiência muito ruim.

Ainda sobre a coleção, outra coisa me incomoda. Entendo que a principal atração da coleção é justamente a cidade escolhida. Mas qual é a melhor forma de ‘encaixar’ ela na história? Em vários momentos de Barreira as descrições de Istambul mais pareciam a demonstração do autor de tentar parecer natural, mas acabam soando forçadas e cansativas e não conseguem representar a cidade. Pareceu um pouco confuso, mas as descrições não pareciam naturais. A cidade infelizmente não é um personagem do livro. E foi assim em outros livros da coleção (dos que eu li): Cordilheira, do Daniel Galera e Estive em Lisboa e lembrei de você, do Luiz Ruffato.

Até Agora da coleção, Já li seis dos dez publicados e gostei mesmo de um, o livro do Bernardo Carvalho, Filho da Mãe (curiosamente o autor não parece se importar com a cidade em questão, São Petersburgo, e mesmo assim fez um livro memorável, incrível), outro eu me diverti bastante apesar da bizarrice (Do Fundo do poço se vê a Lua, do Joca Terron) e não gostei dos outros três (Ruffato, Cuenca e Galera).

Barreira 
Amilcar Bettega Barbosa
Editora Companhia das Letras

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