O ensaio

“- Porque isso é o que é o teatro? – disse a garota, rápida, pegando a bola com precisão com a ponta dos dedos e parando para responder à pergunta antes de atirá-la de volta. – O teatro não é a vida real, e não é uma cópia perfeita da vida real. É só um ponto de acesso.
(…)
– O palco não é a vida real. De modo semelhante à estátua, o palco é apenas um local onde as coisas se fazem presentes. Coisas que não aconteceriam normalmente são levadas a acontecer no palco. O palco é um local onde as pessoas podem ter acesso a coisas que normalmente não lhes estariam disponíveis. O palco é um local onde podemos testemunhar coisas de tal modo que se torna desnecessário realizamos essas coisas nós mesmos. Do que é que eu estou falando?
(…)
– Catarse – disse, por fim, de modo cantarolado. – Estou falando de catarse. É uma palavra que todos vocês deveriam conhecer. Catarse é o que faz o seu trabalho valer a pena.”
pgs. 47 e 48

Talvez essa seja a resenha mais estranha que eu já tenha feito. Apesar de ter terminado o livro assunto deste texto há uma semana, ainda estou digerindo a história e a escrita da autora. E isso pode ser uma coisa boa.

Sou dessas leitoras que muito raramente abandona leituras. Costumo insistir. Ir na manha, aos poucos, tentar domar aquilo que está me dando tanto trabalho… Só desisto quando não tem mais jeito e o narrador me dá um sono danado, ou coisa do tipo. Dito isso, a experiência de ler O ensaio foi de estranhamento durante boa parte do livro. Mas a narrativa ainda assim é fluída. De uma forma impressionante.


O livro tem dois eixos narrativos principais: a de Isolde e a de Stanley. A primeira é uma estudante do primeiro ano que se vê indiretamente envolvida em um escândalo: sua irmã mais velha, Victoria, teve um caso com um professor. Isolde tenta continuar sua vida de forma normal (apesar das fofocas e julgamentos) e, como parte fundamental de sua rotina, segue as suas aulas de sax. A professora de sax tem um papel importante neste núcleo, pois é como uma confidente de suas alunas e muito da história se desenrola nesse cenário.

O segundo eixo é a escola de teatro, com ênfase em Stanley, um calouro que tem um pai muito sinistro (pra não dizer outra coisa) e que precisa, entre as descobertas de um mundo novo, montar com seus colegas do primeiro ano uma peça teatral.

O tema escolhido pelos alunos para a criação da montagem é uma notícia do jornal, um escândalo na escola da cidade, em que o professor abusou de sua aluna. Pois é… e você pode me xingar, achando que dei um belo spoiler, mas isso é dado logo no início, ainda quando as narrativas estão se formando, e você ainda tateia um pouco para entender o que está acontecendo, quem está narrando…

Mas esta é a ligação mais primária dos dois eixos. Há mais que isso. E aí deixo a cargo de vocês descobrirem quais outros nós esta história dá.

O que mais chama atenção é a forma que Catton entrelaça as duas histórias. Como elas se unem, de forma ora caótica, ora em que parece que tudo volta a fazer sentido, para nas páginas seguintes voltar a confusão. Confesso que em muitos momentos fiquei me sentindo um pouco como o menino David:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=txqiwrbYGrs]

Is this real life???

Daí volto ao trecho que citei acima. Isso é teatro. E a vida de Isolde e sua irmã. E a vida de Isolde e sua irmã numa peça… E esse grande caleidoscópio é o que torna a coisa muito mais interessante. É por isso que a história ainda ecoa na minha cabeça.

Não há uma resposta única, ou uma solução final. E digo isso não como um eufemismo para “não-entendi-lhufas-deste-livro”, mas pelas possibilidades que Catton me deu de pensar sua ficção…

Como disse, talvez essa seja a resenha mais estranha que já tenha escrito. Mas também foi um dos livros mais “estranhos” que li nos últimos tempos. E DEFINITIVAMENTE irei me arriscar no livro novo da autora!

O ensaio
Autora: Eleanor Catton
Tradução: Adriana Lisboa
Editora Record
395 pgs

Um comentário em “O ensaio

  1. Compartilho sua opinião Ju, foi sem dúvida um dos livros mais estranhos que já li nos últimos tempos, até hoje não consegui decidir se entendi ou não… Gostar eu gostei, mas sempre com essa sensação que algo escapa. E sim, o pequeno David hahahahahahahaha
    beijos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *