[TIROLEITE] O Bom Brasileiro

Por: Bruno Leite

Se outrora eu afirmei que Philip Roth era “como se fosse um tio mais velho, sábio e solitário, sempre a espreita e que sempre vai estender a mão”, agora falo de se extremo oposto: do tio folgazão, aquele que saiu de casa pra correr o mundo e contar como era do lado de lá, aquele que descobriu o sentido da vida na simplicidade, no humor quase sempre cínico, no calor dos tristes trópicos. Falo dele: João Ubaldo Ribeiro.

João surgiu em minha trajetória literária em meados de 2005 quando li A Casa dos Budas Ditosos. Que achado! Me lembro de me sentir muito feliz por ter tão finalmente ter encontrado alguém debochado com a forma e as normas, com seus toques de gênio. E não me refiro apenas a potência sexual da narrativa que é mais que evidente, a graça dele reside no primeiro parágrafo do livro, lá na epígrafe que diz assim:

“No final do ano passado, depois que alguns jornais noticiaram que a editora responsável por esta publicação me havia encomendado um texto sobre o pecado da luxúria, os originais deste livro e o recorte da nota de um dos jornais em questão foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde trabalho, acompanhados de um bilhete assinado pelas iniciais CLB. Informava que se trata de um relato verídico, no qual apenas a maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua autora é uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. Autorizava que os publicasse como obra minha, embora preferisse que eu lhes revelasse a verdadeira origem. “Não por vaidade,”, escreveu ela, “pois até as iniciais abaixo podem ser falsas. Mas porque é irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar.” Assim foi feito, e com justa razão, como o leitor haverá de constatar, após o exame deste depoimento espantoso.”

Depois vieram Já podeis da pátria filho, O albatroz azul, Sargento Getúlio e o melhor dele que li até agora: Um brasileiro em Berlim. Este livro narra a trajetória desse muso tropical durante sua estada em Berlim e, de maneira extremamente habilidosa, desconstrói nosso conceito de que alemães são frios e distantes (prevendo a festa que ia ser essa copa do mundo no Brasil), ao mesmo tempo em que mostra como nós brasileiros somos sim conservadores e preconceituosos. E sabe o melhor disso tudo? Sem ferir ninguém. Sem precisar ser melhor que ninguém. A sensação de olho no olho é constante, e isso é tão singular e tão precioso na prosa. 

Fica aí uma saudade. Claro que faltam muitos outros a serem lidos, como Viva o povo Brasileiro e O sorriso do lagarto (que virou uma minissérie na Globo no começo da década de 90 e que mamãe e madrinha assistiam avidamente), mas eles estão aqui na prateleira e serão lidos quando eu sentir que chegamos em nosso momento, pois Ubaldo é sempre necessário. Principalmente aos domingos em sua coluna que vai deixar um vazio profundo, somado a falta que Daniel Piza também faz.

Mas, penso eu que não temos que falar em falta, saudades, vamos nos ater à imagem daquele senhor de sorriso largo, com o copinho de chopp numa mão, cigarrinhho na outra, o vozeirão tomando conta da audição de todos com sua cadência e simpatia desconcertantes. Aos que desconhecem essa faceta, eis aqui o estilão desse tio amoroso.

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Nem marginal, nem herói. Adeus, João Ubaldo Ribeiro e obrigado por tudo até aqui e depois!

Bruno Leite: Um taurino neurótico. Um beatlemaníaco que samba. Porque literatura é luz, raio, estrela e luar.

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