F. – Antônio Xerxenesky

“Havia muito mais o que escrever sobre o filme, mas Michel recomendou que eu fosse sucinta. Cinéfilos possuem um a boa memória visual, eu não precisaria registrar todas as minhas impressões. Além do mais, é sempre bom esquecer certos detalhes, pois rever um grande filme sempre nos faz notar coisas que não percebemos na primeira vez. Olhei para aquela anotação sobre Teorema. Tinha sido minha primeira. Mas nela eu não tinha respondido a minha pergunta, a questão que reapareceria em minha mente recitada pela voz de Orson Wells, quando eu olhava um prédio de arquitetura diferente, quando eu visitava uma igreja, quando eu ouvia uma música, quando eu lia um poema, quando eu assistia a um filme. Pensei pensei em Teorema e lancei a caderneta: “Arte, sim”

A estrutura rígida micheliana logo foi se desintegrando e cedendo espaço para a curta fórmula wellesiana. Fui ao Louvre pela primeira vez (“é ofensivo pensar que você vai voltar aos Estados Unidos sem ter ido ao Louvre”, disse Antoine), gastei umas três horas percorrendo aqueles corredores que apreciam ter mais história que o meu país, observei alguns orientais se estapeando para fotografar a Mona Lisa, e registrei na caderneta: “Louvre. Arte. Mas que saco.” Subi ao apartamento de Antoine – acho que pela quarta vez – e foi a melhor de todas. Anotei a data em minha caderneta, coloquei uma estrelinha do lado e senti necessidade de acrescentar: “Arte, talvez, mas provavelmente não.” (…) A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero. Arte. A Aventura, de Antonioni. Dormi – e nunca durmo em filmes. Não Arte. Como era verde meu Vale. Eca. Não Arte (…)The Hurting, do Tears for Fears. Arte. Pequena casa azul que encontrei no quatrième arrondissement, próximo ao Sena. Arte. O Quarto verde. Não arte. E chato, muito chato.Cléo das 5 às 7. Arte.
pág. 95-96
A enigmática capa em neon com a concisão de um título que a toma por inteira deixa o leitor intrigado com seu conteúdo (isso é bom). A orelha que fala de sensações, já dá uma interpretação romântica do conteúdo e não fala nada sobre o enredo, já te deixa com o pé atrás, pois parece ser um romance 8 ou 80 (isso é mal). A citação ao verso de “Giorgio by Moroder” do último disco do Daft Punk, é uma elegante presença da modernidade nesse romance que se passa nos anos 80, sem contar que a melhor música daquele Cd e isso é bom também. Mas pedir que o leitor veja os filmes de Orson Wells para entender as citações, ou pelo menos não se importe com fato de ter revelações sobre os filmes, inclusive os finais, pode ser considerado ruim, pois nenhuma obra deve usar outra como base. E todos esses pensamentos vem ao mesmo tempo antes de ler a primeira frase do romance. Isso é um teaser.
Na verdade, se você obedecer a ordem natural da cinefília e tiver como base Cidadão Kane já poderá ler com tranquilidade a obra desse jovem brasileiro que é munido de uma imaginação singular nessa geração. Fato é que você tem que ser um pouco cinéfilo, falo que nenhuma obra deveria ser baseada em outra a princípio, mas existem outras que são homenagens a uma determinada coisa e obviamente você apreciará mais se tiver algum tipo de relação com a coisa, no caso, o cinema em primeira instância. Isso porque muitas das referências utilizadas no romance, e esse é um de seus charmes, é teorizar nas entrelinhas considerações sobre a Sétima Arte. Assim, quando você a tem no seu leito conjugal e vê a narradora exaltando Teorema, e dormindo em A Aventura, a vontade é entrar o romance e parlar “Antonioni é mestre, bambina!”com direito a todo gestual característico. Felizmente isso são easter eggs que nós fazem sorrir, mas o romance não se prende nisso, pois sua história é boa o suficiente para se auto sustentar.

Em segunda instância temos a homenagem à obra de Orson Wells, que nas entrelinhas traz nada mais que um resumo da vida e obra do mestre americano, cineasta que admito não ter assistido muito, e por isso falo com propriedade que você não precisa ter assistido para entender, acho que nem mesmo o Cidadão Kane no final das contas. Acompanhamos a vida de Ana, uma brasileira que vive nos Estados Unidos de 1985 e tem um trabalho inusitado: é um assassina de aluguel. Uma voz liga de quando em quando e pede que ela assassine alguém, e o alvo da vez é o cineasta americano. Como seu disfarce será de uma estudante de cinema, ela começa a se inteirar da obra de Orson e de cinema em geral para dar credibilidade ao disfarce. E acaba por se apaixonar pela Sétima e pela obra de Wells.

Em meio a isso ela faz um apanhado de sua vida até aquele momento, e dos momentos chaves que a fizeram se tornar uma assassina de 25 anos, a começar pela primeira vítima (ou não, o romance cria uma ambiguidade nisso) que fora seu pai, em um acidente no banheiro. Apesar de conter certa frieza no relato, não pensem que esse é um romance denso e que estamos falando de uma sociopata, não é esse o tom do livro. Na verdade a narrativa é bem leve e o autor já emenda logo a natureza do parricídio, caracterizando esse personagem como um estuprador da própria filha, no caso a irmã de Ana, e essa é a motivação por trás do primeiro assassinato. Mais tarde descobrimos ainda que o falecido era um torturador do governo ditatorial brasileiro… que beleza. Ele era um vilão.
Assim como os outros relatos que permeiam a trajetória da garota, um envolvido diretamente com os atos da milícia no Brasil, e outro de uma originalidade intensa, que como ela mesmo diz “foi cinematográfico”. Isso serve para definir a narradora como uma assassina de aluguel não do tipo sniper, ou piromaníaca, mas do tipo que faz um assassinato parecer um acidente que é o que a põem no rastro de Wells. Se o arco funciona bem para explicar isso, ele falha ao colocar intensidade no relato, pois em momento algum eu realmente acreditei que ela fosse uma grande assassina como a fama pressupõe, ela nunca sequer encosta em ser uma anti-heroína, algo que poderia ser esperado num assassino. Como ela só mata gente má, ela é a heroína pura e simplesmente da história. O primeiro “inocente” que ela relata é Orson, e é justamente ele quem vai criar consciência nessa assassina, apesar de ela não parecer ser uma psicopata.
Acredito no papel humanizador da arte em geral, especialmente do cinema. Quando o trem foi lançado aos espectadores no começo do século XX, aquela foi a demonstração mais espontânea da fantasia invadindo o mundo real. A montagem de cenas então criou novas perspectivas de como nós pensamos as histórias. Assistir um filme que te arrebate pode te dar novas perspectivas na vida, e é nessa jornada que a narradora embarca e constitui a espinha dorsal do romance: descobrindo filmes, diretores e a história do cinema até o ponto de conhecer pessoalmente Orson, e a oportunidade de realizar seu próprio Cidadão Kane, o dos assassinatos, fazendo algo espetacular.
Uma outra discussão amplamente abordada é a do que faz algo ser arte, em um trecho bem engraçado a narradora vai enumerando tudo que assiste entre arte e não-arte, discussão eterna entre os teóricos, mas aqui tem os níveis mais simples, e mais verdadeiros, da discussão em si. A arte é o que você sente ser arte, nada mais simples e subjetivo que isso, ainda que embarquemos em uma discussão mais ampla que o romance permite, pois seria o assassinato perfeito uma arte também? Intrigante, poderosa… mas é um romance que preza pela leveza, então não é aprofundada.
A história a partir do encontro com Wells vai seguir essa linha tênue da admiração pelo trabalho do cineasta, e a obrigatoriedade de cumprir o contrato que levam o romance para outras terras e apesar de reconhecer a originalidade de sua terceira e última parte, eu consegui prever o final do romance antes do meio. É uma história bem contada, mas te dá poucas possibilidades de final, e isso pode ser um spoiler ou um encaminhamento de leitura, então pule para o próximo parágrafo se não quiser ser influenciado, se não ver problemas, vamos lá: Sabemos de antemão que Wells morre em 1985, percebemos a leveza da história e, a dica principal, é o antes misterioso título F. que se torna bem claro durante a projeção… Quer dizer, leitura. Juntando tudo isso, o que antes eram algumas possibilidade, se tornou para mim um final bem claro. Pode não ter sido da maneira como previ, mas foi bem próximo. Obviamente você pode não juntar as peças do quebra-cabeça e ter surpresas com a última parte, mas ele te dá possibilidade de prever sim.
Há ainda uma elegante sombra da ditadura, que volta a meia volta a assombrar a narradora, não no sentido de traumatizar, mas de ser algo que estava ali. E como ela viveu boa parte da vida no estrangeiro, esse é um assunto extraterrestre para ela, como é para nossa geração. E eu achei essa sombra da ditadura colocada de uma maneira muito correta, pois é uma sombra para nossa geração (dos 30 anos) que não tem uma forma muito específica.
No mais é muito bom ver um romance que anda não pelo conteúdo revolucionário da forma, ou por algo claramente ideológico-político e sim pela história em função da história. A história de F. é muito boa, daria um ótimo filme também. Uma leitura muito boa para quem gosta de um boa história, e uma leitura essencial para qualquer cinéfilo, que goste ou não de Orson Wells, pois a verdadeira vertente da história é que o cinema pode mudar perspectivas e humanizar as pessoas. Como toda a boa arte.
F.
Autor: Antônio Xerxenesky
Editora Rocco

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