Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon

“De maneira que eu e Julia nos falamos de fato plea primeira vez em uma festa à fantasia. Ela estava vestida de Penélope Charmosa, eu de punk viciada em heroína. O traje incluía uma seringa sem ponta que eu carregava no bolso, a parte do êmbolo aparecendo. Na festa à fantasa do primeiro semestre da faculdade de comunicação, eu a econtrei na fila do bar, e sua simples presença naquele evento já foi o suficiente para me surpreender. Se me pedissem que escolhesse palavras que definissem Julia Ceratti em um cesto cheio delas, eu procuraria por comum ou séria ou dedicada. Ela era a menina que levantava a mão para perguntar a cinco minutos do final da aula.

E no entanto simplesmente aconteceu de começarmos a trocar impressões sobre aquele galpão cheio de gente, onde uma escola de samba de nome estranho costumava ensaiar, mas que agora fora invadido por estudantes universitários de classe média cada vez mais bebâdos, eufóricos e autocentrados. Alguns deles passariam a noite inteira tentando explicar aos outros do que diabos estavam vestidos. Por exemplo, aquela guria, o que é aquilo na cabeça dela? Julia ia rindo deliciosamente, ainda que às vezes seus olhos desviassem de mim, como se ela estivesse à procura de alguma coisa melhor para fazer. Quando chegou sua vez de ser atendida, tirou do bolso um dinheiro embolado. Quase não esperou pelo troco. Com a mesma mão que segurava a lata de cerveja, começou a abrir espaço entre as pessoas e avançou uns bons metros antes de se lembrar da minha presença e girar o corpo para trás. “Sempre quis falar contigo, Cora.” Disse isso de uma forma categórica, sem nenhum interesse em possíveis respostas, então desapareceu.”
Página 25


Cora estuda moda na França. Julia estuda em Montreal. Já não se falam há alguns anos. Combinam de se encontrar em Porto Alegre e fazer uma viagem de carro que planejaram há tempos (e mais parecia aquelas promessas que se perdem ao longo dos anos). Esse é um pequeno resumo de Todos Adorávamos caubóis, o novo livro de Carol Bensimon.


Cora e Julia resolvem partir nessa viagem ao interior do Rio Grande do Sul, sem planejamento e com uma regra: que nenhuma delas conheçam as cidades do caminho. 


O que chama a atenção é justamente esse modelo de história, um road novel (existe esse gênero mesmo?), em que a estrada, as cidades – meio fantasmas, meio decadentes – acabam se tornando personagens do livro.


Conforme a viagem começa a se desenrolar, vamos conhecendo um pouco mais das duas personagens e o complicado relacionamento entre elas. Desde o começo da viagem percebemos que algo aconteceu que abalou a relação e não fica muito claro (e até mesmo depois de explicado não é tão simples assim) o que é exatamente. E através dos olhos de Cora que vamos descobrindo aos poucos os detalhes, entendendo um pouco do passado e às vezes com uma vontade de fugir dele também.


O livro fluiu bem, mas tive alguns problemas. E o principal deles é que ainda que exista a viagem, não acontece muita coisa (péssimo argumento, eu sei). E ele acaba dependendo da empatia dos personagens para poder funcionar. E Cora é uma das personagens mais pedantes que eu encontrei na literatura nos últimos tempos. Em alguns momentos até que você se importa e quer saber o que acontece, mas ela é um estereótipo de estudantes da classe média que vão passar um tempo no exterior, meio egoísta, arrogante. Posso estar sendo muito duro, eu entendo que são tempos de mudança, tanto para ela, quanto para Julia, mas em algum momento do livro eu queria chegar ao final, mas eu simplesmente não me importava com a personagem principal. 


“(…) queria ver a Torre Eiffel ou o Sena ou o Louvre ou  Champs-Elysées para ter certeza absoluta de onde estava, o que para mim era uma coisa compreensível, desde que ela não postasse fotos de si mesma diante dos monumentos assim que chegasse lá.” 
Página 183

Outra coisa que me incomodou em Cora (curioso pensar que parece que eu estou implicando com uma pessoa real) é que como estudante de moda, tem um conhecimento maior do que as outras pessoas e faz referência a isso em vários momentos do livro, só que sempre do seu jeito especial. Em dado momento alguma pessoa fala alguma coisa sobre as botas dela e ela pensa que essa pessoa comum nunca vai entender a ironia a importância (histórica) dela usar essas botas Doc Martens.


(Eu, como uma pessoa comum e que nunca ouvi falar sobre Doc Martens não consegui entender muito dessa ironia juvenil, de desprezar alguém que não sabe algo que parece tão … fundamental. Para que não conhece “As botas e sapatos foram especialmente popular entre os skinheads, punks, grungers e membros de algumas subculturas juvenis” texto de um link para o sempre esclarecedor wikipediaAntes que que me crucifiquem, o momento em que ela fala sobre o assunto, o personagem que aborda ela para falar sobre as botas a acusa ela de usar botas de ‘menino’ e existe todo o preconceito sobre esses conceitos absurdos, mas a justificativa dela não é menos agressiva a seu modo.)


O maior fascínio de um road movie (impossível não comparar o road novel com o seu ‘irmão mais famoso’ do cinema) é a jornada. Quase todos os filmes que eu me lembro que seguem essa estrutura (apesar de diferente nas suas histórias) de autoconhecimento, como se o destino final não importasse, o que vale de verdade nesses casos é a travessia. Mas uma das qualidades mais interessantes do livro é subverter essa regra não escrita e tornar o interior do Rio Grande do Sul um personagem curioso (e interessante) da história. (Road Movies que me veio a cabeça: E sua mãe também; Cinema, Aspirinas e Urubus;  Flores partidas; Transamérica; Diários de Motocicleta, Pequena Miss Sunshine).


Por mais que possa parecer que eu eu não gostei do livro, ele não é ruim. Tem momentos interessantes, mas eu  esperava mais. Uma pena. Gostei muito dos outros livros da autora: Pó de parede(livro de contos) e principalmente do incrível Sinuca embaixo d’água.

Todos nós adorávamos caubóis

Autora: Carol Bensimon
Companhia das Letras
192 páginas

Um comentário em “Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon

  1. Eu adoro esses livros que tem como pano de fundo (ou de frente) grandes viagens, mas quando você falou sobre as personagens me dei conta do carinho que crio pelos protagonistas quando leio esse tipo de livro justamente porque é ele que nos leva pela estrada… Fiquei imaginando que ler um romance assim com uma protagonista pedante pode ser a mesma coisa de estar viajando com uma pessoa chata, daquelas que dá vontade de jogar pela janela hahahahaha
    Nunca li nada da Carol, então acho que vou começar pelo Sinuca embaixo d'água para não correr o risco de me decepcionar de cara 🙂
    Excelente resenha, adorei Kalebe!
    Beijos!

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