[Colaboradora] Os Huxleys

Por: Melissa Padilha

Há uma família que me chama e sempre me chamou a atenção, é a família Huxley. Os mais ligados à literatura, lembram-se com toda certeza de Aldous Huxley, escritor de diversos livros entre eles, Admirável Mundo Novo. Porém, aqueles que, como eu, são também ligados às ciências ou às curiosidades da vida, sabe que a família Huxley tem uma história bastante interessante e antiga, desde os idos de Charles Darwin.

Permitam-se, neste blog de literatura, discursar um pouco sobre Biologia. Na realidade, sobre um biólogo inglês Thomas Henry Huxley, avô de Aldous. O velho Huxley era biólogo e amigo de Charles Darwin. Era um cientista e educador bastante respeitado, mas acima de tudo um feroz defensor da teoria da evolução, mais precisamente da teoria da seleção natural, desenvolvida durante a sua época pelo seu amigo Darwin. 

Darwin demorou anos e mais anos para publicar sua teoria, principalmente devido ao seu perfeccionismo extremo, ao tentar “fechar” todos pontos de suas ideias revolucionárias, e também porque ele sabia que o que estava formulando abalaria não só o conhecimento científico, mas mais fortemente as crenças que os cercavam. 

Huxley foi um dos pouquíssimos confidentes de Darwin, com o qual discutia as ideias e os parâmetros com os quais estava trabalhando. Foi Huxley também que apoiou a ideia de Alfred Russel Wallace, que obteve resultados iguais a Darwin na teoria da seleção natural, publicasse e apresentasse um artigo contendo os resultados de ambos pesquisadores, na Linnaean Society of London

Darwin com o tempo se tornou um homem recluso e avesso às criticas e debates de sua teoria. Coube então a Huxley a defensoria e divulgação pública de suas ideais. Passou então a ser conhecido como o “buldogue do Darwin”, justamente pela sua maneira enfática de influenciar jovens pesquisadores e de defender aquilo que concordava. 

Huxley foi um homem corajoso, na confrontação de ideias com seus opositores (grande parte homens importantes na sociedade inglesa do final do século XIX). Em sua famosa discussão com o Bispo Samuel Wilberforce, quando questionado por esse: “se foi através da sua avó ou do seu avô que ele alegava a descendência de um macaco”, Huxley não se acanhou e disse, sendo ovacionado pelo público: “Se a questão é se eu preferiria ter um macaco miserável como avô ou um homem altamente favorecido pela natureza que possui grande capacidade de influência mas, mesmo assim emprega essa capacidade e influência para o mero propósito de introduzir o ridículo em uma discussão científica séria, eu não hesitaria afirmar a preferência pelo macaco”

Huxley, além de todo esse histórico científico, foi pai de 5 filhas e 3 filhos, com uma imigrante australiana Henrietta Anne Heathorn. Entretanto, o que nos interessa na sua “genealogia literária” é Leonard Huxley, escritor e editor, famoso por escrever diversas biografias. Sua maior contribuição literária foram os três volumes da biografia de Thomas Huxley, seu pai. Além disso, escreveu sobre outros cientistas como Darwin e o botânico inglês Joseph Dalton Hooker.

Dentre seus filhos e filhas, a grande maioria casou-se com escritores (e parentes de Darwin), seu filho mais novo Andrew Huxley, foi vencedor do Nobel de Fisiologia em 1963 e o biólogo Julian Huxley foi o primeiro diretor-geral da UNESCO e escreveu mais de 50 livros. De novo, seguindo a genealogia literária, chegamos finalmente ao mais famosos de seus filhos, no mundo da literatura, o escritor Aldous Huxley. 

O que sempre me chamou atenção quando li pela primeira vez Aldous Huxley, foi o background intelectual de sua família e isso sempre me fascinou tremendamente, não só pelo fato de ser bióloga, mas pela personalidade forte e coerente que aqueles que assinam com o sobrenome Huxley possuem e pelas marcas que vão deixando tanto na ciência quanto na literatura.

Aldous se destacou na literatura com diversos livros, entre eles o seu mais famoso, Admirável Mundo Novo, romance distópico, publicado em 1932, no qual aborda assuntos como a liberdade individual, frente a uma sociedade na época que estava imersa em regimes políticos autoritárias, o qual experimentou vivendo na Itália de Mussolini durante certo período e o inspirou a criar importantes aspectos de sua obra. 

O próprio Aldous era essencialmente um humanista e pacifista, por isso uma de suas preocupações era forte influência que a mídia de massa poderia causar nas pessoas. 

Enfim, conhecemos Aldous Huxley por seus diversos livros, mas nem todos conhecem esse histórico familiar brilhante, que vem atrás desta figura importantíssima da literatura mundial. Por isso, como já disse, minha fascinação com essa família só tende a aumentar a cada nova descoberta. 

Melissa Padilha, paulistana que gosta mesmo é de mato, bióloga e paleontóloga, a Felícia dos cachorros, mas queria muito era ter também um dinossauro de estimação. Lê de tudo, mas adora mesmo é um bom drama da Jane Austen. Escreve sobre suas paixões no blog De coisas por aí.

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