[Drops] – Graphic Canon Vol. 1 – Russ Kick (org)

graphic-canon-cover
A intersecção entre artes é algo deveras fascinante quanto aterrorizante, pois quem nunca ouviu uma música reimaginada horrível, uma adaptação de livro à filme tosca, ou um filme romantizado de maneira horrível (esse último eu passo longe desde Perdidos no espaço que conseguia ser pior que o filme dos anos 90), mas tudo isso é simplesmente nossa psique guardando os momentos ruins, quando efetivamente existem experiências de reinterpretação de obras bem interessante. Não lembro muitos, mas peguemos o exemplo de Apocalipse Now, que é um dos grandes filmes de guerra de todos os tempo e é uma interpretação de Coração das Trevas, um livro absurdamente essencial no panorama da literatura, que algum dia quando tiver forças para tanto, farei uma resenha detalhada sobre ele. O fato mais interessante é que quando colocamos lado a lado as obras, elas tem pouco em comum em termos de condução da narrativa, mas a essência é a mesma.
O Graphic Canon aqui apresentado é uma experiência literária com essa singela premissa: Converter clássicos essenciais da literatura universal em histórias curtas que resumam o poder daquela narrativa. Simples, fácil e básico. Como ninguém pensou nisso até o momento? Obviamente porque minha ironia é grosseira para resumir o trabalho de Russ Kick que conseguiu reunir textos antigos de gente pequena como Eisner e Crumb, associar com novos artistas e criar uma obra que além de ter essa premissa, o faz de maneira cronológica sendo que este primeiro volume vai de Gilgamesh, passando por Odisseia, Divina Comédia, Sonetos de Shakespeare, Conto de Genji até o epistolar Relações Perigosas. O segundo Volume será mais voltado do Romantismo ao Modernismo e o terceiro relacionado com as obras contemporâneas.

Numa pegada similar a 90 livros clássicos para apressadinhos, mas sem o humor grosseiro do mesmo, vamos a um passeio pela literatura clássica reinterpretada por algum artista e sempre tendo uma introdução curta a cada obra, para contextualizar qual é a importância da mesma para a literatura universal. Você pode achar que todos os citados não precisam disso, mas há vários desconhecidos que vão instigar sua curiosidade depois de leitura como The Flea de John Donne ou Forgive us our trespasses de Aphra Behn, que alias foi uma das artes mais bonitas do volume, que é  outro atrativo de qualquer coletânea de quadrinhos, a possibilidade de encontrar artistas desconhecidos com Alex Echman-Lawn que adaptou Aphra. Na verdade chamar de quadrinho é uma meia verdade pois muitos trabalhos podem muito bem ser considerados puro design gráfico, ou artes gráficas, como a adaptação Candido.

Você pode ler cronologicamente ou pulando para as suas histórias preferidas, ou à lá carte, mas sugiro começar direto com a adaptação de Dom Quixote pelo mestre Eisner, que resume em uma breve cena de 6 páginas o espírito da obra de Cervantes. Não é o mais impactante, mas é um trabalho de gala que mostra o que é um adaptação, não uma cópia cena a cena de outra obra, mas uma visão diferente, ao mesmo que igual, da obra.Os pontos negativos são a encadernação, só capa mole e o livro é beeeem grande e o fato de algumas histórias serem só excertos, ou partes de algo, maior mas a seleção nesse caso nem te deixa notar isso por algum tempo. E Obviamente como qualquer coletânea haverá coisas feias, estranhas e fracassa dependendo do seu gosto,mas no meu caso a maioria das histórias foram adaptações inteligentes e com personalidade. Vale a pena ler, entretanto no momento somente há o original pela Seven Stories, então fica o meu Hello editoras! para esta publicação pois é sucesso garantido para amantes de quadrinhos, literatura, artes e design gráfico. Quantos conseguem fazer isso?
Fiquem com alguns trechos.

Dom quixote por Will Eisner:

Flea por Noah Patrick Pfarr
graphic-canon2

House of Lac (Mahabharata) por Matt Wiegle
graphic-canon3

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *