Meus Desacontecimentos – A história da minha vida com as palavras – Eliane Brum

Há pouco mais de 3 anos, mais precisamente no dia 2 de agosto de 2010, começamos O Espanador. Lembrando sempre que somos em 5 pessoas. Cada um com a sua própria bagagem, mas que juntos somos ainda mais fortes.

De certa forma posso dizer que comecei a compartilhar com vocês que acompanham o blog uma parte da minha vida com as palavras. Porque nesse tempo foram tantos textos, tantas madrugadas que eu tenho certeza que essa é uma parte fundamental da minha história.

O livro de hoje, Meus Desacontecimentos – A história da minha vida com as palavras, da jornalista Eliane Brum é um relato emocionante e sincero (e por vezes desconcertante, como quase tudo que a autora escreve).

Quando pensava no texto de hoje e relia algumas passagens do livro de hoje me deparei com esse trecho:

“Como contadora de histórias reais, a pergunta que me move é como cada um inventa uma vida. Como cada um cria sentido para os dias, quase nu e tão pouco. Como cada um se arranca do silêncio para virar narrativa. Como cada um habita-se. 
Desta vez fiz, um percurso de dentro pra dentro. Me percorri. Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra. recordações são fragmentos de tempo. Com elas costuramos um corpo de palavras que nos permite sustentar uma vida. Quem conhece as pessoas e as situações aqui contadas poderá rememorá-las por outros caminhos, a partir de suas próprias circunstâncias. Ao descrever aqueles que morreram, possivelmente confronto as reminiscências de outros. Os que ainda vivem talvez discordem do que neles adivinho porque enxergam a si mesmos de modo diverso. 
Esta é a minha memória. Dela eu sou aquela que nasce, mas também sou a parteira.”
Página 9


Eu comecei o texto falando da minha experiência porque por mais que o livro trate de uma história muito mais séria (e intensa), sempre que eu descubro como alguém começou as suas leituras, ou ainda de que forma que as palavras mudaram as suas vidas eu sinto como se fizesse parte de algo maior. Nesse último ano que passou, minha história com as palavras ganhou capítulos que juntos poderiam render um livro.

Mas vamos um pouco ao livro. Eliane Brum narra o seus primeiros passos, a história de sua familia como parte presente da sua vida. A perda da irmã de apenas 5 meses, uma das lembranças mais doloridas da família:

“Ele tinha quase oitenta anos quando me contou que, depois que a sepultaram, seguiu-se uma noite de tempestade. Na casa onde velaram a filha, ele e minha mãe se agarraram um ao outro, náufragos, varados de dor imaginando seu bebê tão pequeno, tão indefeso, sozinho no meio do aguaceiro.
(…)
Décadas mais tarde, entre 2008 e 2010, eu empreenderia como repórter uma travessia funda pela morte. Não a morte violenta que está nos jornais, mas morte silenciada – e silenciada por ser a morte que a maioria de nós terá. A morte por doença, a morte por velhice. Na primeira reportagem acompanhei Alice de Oliveira Souza, uma mulher com um câncer incurável, nos derradeiros 115 dias da sua vida. Na última testemunhei a rotina de uma unidade hospitalar de recém-nascidos que por malformação ou por doença, morreriam ao nascer ou mesmo antes, às vezes um pouco depois. Só naquele momento, ao apalpar a dor das mulheres cujas crianças viveram mais no seu desejo do que na vida, alcancei a soleira da dor da minha mãe por aquela filha. Maninha não tinha vivido apenas cinco meses, já que o tempo de um filho não se mede por dias, meses ou anos. Um filho é um mundo sem tempo. Eu estava diante de mulheres empaladas pela dor. O resto era mal-entendido. Há mal-entendidos demais numa vida humana.”
Página 22-23

Me lembro quando li o romance de estréia da autora, Uma Duas, e essa leitura foi muito impactante. A escrita da Eliane é visceral e já daquela vez parecia algo que ela confirmou no livro de hoje: que ela nos conta histórias que precisam ser contadas.

“Às vezes me perguntam  o que aconteceria comigo se não existisse a palavra escrita. Eu respondo: Eu teria me assassinado, consciente ou não de que estava me matando. É uma resposta dramática, e eu sou dramática. O que tento dizer é que, se não pudesse rasgar o papel com a caneta, ainda que numa tela digital, eu possivelmente rasgaria meu corpo. E, em algum momento, o rasgaria demais.”
Página 17

Uma das maiores qualidades do livro é ver a ligação que autora faz de coisas importantes em sua vida e de que forma isso se liga com as escolhas e seu caminho profissional (o jornalismo) ou ainda mais importante que isso: a consciência em entender as injustiças do mundo desde cedo.

Eliane Brum é uma das autoras que não importa o que acontece, ela me tira do meu centro, faz eu pensar no mundo de outra forma. Não importa se eu concordo ou não sobre o assunto que ela vai falar, eu sempre leio e me surpreendo sobre a possibilidade de enxergar o mundo de outro jeito.

Existem outras coisas importantes no livro (ele todo é imperdível, na verdade), detalhes e assuntos, mas a minha vontade mesmo é deixar a própria autora narrar sua história. Ainda que eu não tenha falado tanto assim dele, a minha intenção era mesmo incentivar a leitura.

Queria que ficasse claro que tenho certeza que vai ser uma experiência única pra cada um que já tem a sua própria história com as palavras.

Ps. Pra quem quiser saber um pouco da minha história com as palavras eu e a Juliana fizemos um vídeo para um projeto bem bacana. 
Meus Desacontecimentos – A história da minha vida com as palavras 
Autora: Eliane Brum
Editora LeYa 
144 páginas 

Um comentário em “Meus Desacontecimentos – A história da minha vida com as palavras – Eliane Brum

  1. Estou lendo hoje “MEUS DESACONTECIMENTOS” e sinto que o fôlego me falta. Meu coraçāo bate acelerado. Tomei conhecimento de sua existência por artigo me enviado por amiga . Sou velha. Muito velha . E sempre impliquei com máscaras muito embora as use com frequęncia. Sem livros sou morta. Vivo nas histórias de outros. Obrigada pelas suas histórias poesias.

  2. Estou lendo hoje “MEUS DESACONTECIMENTOS” e sinto que o fôlego me falta. Meu coraçāo bate acelerado. Tomei conhecimento de sua existência por artigo me enviado por amiga . Sou velha. Muito velha . E sempre impliquei com máscaras muito embora as use com frequęncia. Sem livros sou morta. Vivo nas histórias de outros. Obrigada pelas suas histórias poesias.

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  4. Estou lendo hoje “MEUS DESACONTECIMENTOS” e sinto que o fôlego me falta. Meu coraçāo bate acelerado. Tomei conhecimento de sua existência por artigo me enviado por amiga . Sou velha. Muito velha . E sempre impliquei com máscaras muito embora as use com frequęncia. Sem livros sou morta. Vivo nas histórias de outros. Obrigada pelas suas histórias poesias.

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