Ódio, amizade, namoro, amor, casamento – Alice Munro

“Não parece provável que alguém pudesse levar em tal consideração os sentimentos de crianças, naqueles dias. Eram o novo ofício, sofrer ou reprimir. 
Eu não criei problemas. Após o choque inicial, não permiti que ninguém visse coisa alguma. O empregado me provocava sempre que punha os olhos em mim (“Seu namorado fugiu de você?”), mas eu nunca lhe dei atenção.
Eu devo ter sabido que Mike iria embora. Assim como sabia que Ranger era velho e que em breve morreria. A ausência futura eu aceitava – é que eu simplesmente não fazia ideia, até Mike desaparecer, de como podia ser a ausência. Como todo meu território seria alterado, como se tivesse sofrido um deslizamento de terra e todo significado houvesse sido varrido, exceto a perda de Mike. Nunca mais eu poderia olhar para a pedra branca na passagem sem pensar nele e, assim, fui tomada por um sentimento de aversão a ela. Também comecei a me sentir assim em relação ao galho do bordo e, quando meu pai o serrou, porque estava muito perto da casa, senti o mesmo quanto à cicatriz que ficou. “
Página 186 – Urtigas

Ainda que todo ano, quando chega o momento de anunciar o novo prêmio Nobel de Literatura, eu esteja com aquela bandeira envelhecida e amarelada do tempo com o nome do Philip Roth, através do Nobel eu conheci ótimos autores. [Quando eu digo que conheci, ou mesmo que eu li o autor pelo Nobel não é por ele ter ganhado e sim a curiosidade em alguém que foi destacado com o maior prêmio literário. Quase como se alguns autores me fossem ‘apresentados’.]

Já li Mo Yan, Le Clézio, Doris Lessing, Orhan Pamuk, entre outros nomes e a estes posso acrescentar a última vencedora do Nobel, a canadense Alice Munro.

Enquanto lia o livro de hoje, Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento e falava com as pessoas tentei me segurar, e não parecer muito empolgado (com medo de assustar e/ou criar muita expectativa) com o livro, mas hoje eu não vou conseguir mais fazer isso. Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento é um dos melhores livros que eu já li (na vida mesmo).


Os contos de Munro me fascinaram.

A (aparente) simplicidade dos contos de Munro é o que mais chama a atenção. Suas histórias tratam de coisas cotidianas, poderia até dizer banais, mas esse comentário parece pejorativo, como se dessa forma diminuísse o alcance de suas histórias. Mas a nossa vida é construída quase que na totalidade desses momentos, simples, cotidianos e, por que não, banais. Mas é preciso um talento extraordinário para transformar isso em uma excelente literatura.

Antes de entrar nos contos, duas curiosidades:

– Todos eles tem pelo menos 35 páginas.
– Seguem uma estrutura que envolve a memória sobre algum evento do passado dos personagens.

O livro começa com o conto que dá título ao livro, e talvez seja o único que não mexeu comigo.

O conto seguinte, “A Ponte Flutuante”, o casal Neal e Jinny tenta encontrar uma maneira de lidar com a doença dela. A presença de uma nova pessoa para ajudar nesse momento onde nada parece ser natural. Acredito que o livro começa (como unidade) neste conto. Apesar de tratar de um tema tão delicado, o texto consegue ser sóbrio e ao mesmo tempo emocionante.

No conto seguinte, “Mobília de Família”, conhecemos uma família convencional (a partir da memória de uma menina) e sua tia Alfrida, que parece fugir desse modelo, com sua risada escandalosa, sempre disposta a dar sua opinião entre tantas outras coisas. Aqui acontece uma das coisas mais interessantes dos contos da autora. Ela introduz um personagem e aparentemente é o nosso ‘herói’, aquele que nós vamos acompanhar (e torcer), com as virtudes que esse tipo precisa. E do nada ele se transforma. Alice Munro nos mostra um outro lado desse personagem, seja um defeito ou mesmo algo simples (e mesquinho). Ela ‘humaniza’, os tornam reais, críveis e falíveis.

“Havia certa sensação de triunfo nela, que não era difícil de entender. Se temos alguma coisa para contar que vai deixar alguém desnorteado, e a contamos, e isso provoca essa reação, então tem de haver um balsâmico momento de poder. Neste caso foi tão completo que ela sentiu necessidade de se desculpar.”
Página 132-133

E é isso que acontece na história seguinte, “Conforto”, onde vemos o professor de ciências Lewis lutar uma batalha dura contra as pessoas que esperavam que ele ensinasse o criacionismo nas suas aulas, e depois uma doença implacável se abater sobre ele. E é fascinante que um personagem assim tão bem construído, (nobre? … tudo bem, não vamos exagerar), se mostre tão maldoso em uma reunião de amigos. Aqui de novo a autora nos mostrando aquele lado sombrio que todos tentamos esconder. É só um momento, mas é possível ver tudo.

“Urtigas” talvez um dos melhores contos do livro. A história de reencontro do primeiro amor ainda na infância passa longe daquela imagem perfeita, quase que idealizada e aqui temos pessoas com uma carga imensa nas costas. A vida de verdade não parece ter espaço para essas histórias saídas de contos de fadas. E fora que Mike é um dos personagens mais tristes que eu já vi.

Em “Coluna e Viga”, temos acesso ao vida de duas mulheres que estão ligadas de forma distintas. Quase conseguimos sentir as sensações das personagens, temos acesso a segredos que normalmente não nos é permitido.

“Polly era cinco anos mais velha do que Lorna e trabalhara, desde que terminara o segundo grau, no banco local. Quase chegara a juntar o dinheiro necessário para fazer essa viagem uma vez, mas decidira gastá-lo em vez disso numa bomba de drenagem.”
Página 218

“É claro que algumas pessoas nunca se sentem culpadas. Algumas pessoas nunca sentem nada.”
Página 224

Em “O que é lembrado”, um velório do jovem Jonas, amigo de longa data do seu marido Pierre, faz Muriel embarcar em uma viagem desconhecida com um estranho. E também faz ela imaginar como teria sido sua vida.

Em seguida vem “Queenie” e o livro termina com o devastador “O urso atravessou a montanha”,  em que o casal Grant e Fiona vivem juntos e aos primeiros sinais de esquecimento dela, vem a confirmação. Alzheimer. Ela aceita se internar em uma clínica em que uma das regras é que os pacientes não podem receber visitas nos primeiros 30 dias. Quando enfim passa esse tempo e Grant vai até a clínica, Fiona já o não reconhece mais e se aproximou muito de outro paciente chamado Aubrey. Um final impressionante, para um livro que eu não queria ter terminado de ler.

Ps. O último conto, “O urso atravessou a montanha”  foi adaptado para o cinema com o título em português Longe dela pela talentosa Sarah Polley.

Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento 
Autora: Alice Munro
Tradução de Cássio de Arantes Leite
Editora: Biblioteca Azul / Globo Livros
357 páginas
Mais informações aqui

2 comentários em “Ódio, amizade, namoro, amor, casamento – Alice Munro

  1. Nunca li nada da autora, e ler uma coletânea de contos é sempre um modo interessante de ter um primeiro contato com um escritor desconhecido. Depois de vc dizer que foi uma das melhores leituras da vila, tive de colocá-lo na minha fila.
    🙂

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