Espada do Destino, A – Andrzej Sapkowski

espada do destino
– Eu sou uma feiticeira, Geralt. O poder que tenho sobre a matéria é uma dádiva. Um dádiva retribuída. Paguei por ela entregando tudo o que possuía. Nada mais me restou.
Geralt não fez comentário algum.
A feiticeira esfregou a testa com mãos trémulas.
– Enganei-me – repetiu – Mas consertarei o meu erro. Emoções e sentimentos…
Tocou na cabeça do gavião negro. A ave eriçou-se silenciosamente, abrindo o bico recurvado.
– Emoções, caprichos e mentiras; fascinação e estratégias de jogo; sentimentos e ausência deles… dádivas que não podem ser recebidas… mentiras e verdades. O que é verdade? A negação da mentira? Ou a comprovação de um fato? Mas se o fato for uma mentira, então o que seria a verdade nesse caso? Quem está repleto de sentimentos que o destroçam e quem é apenas a cobertura de um fria caveira oca? Quem? O que é a verdade, Geralt? Em que consiste a verdade?
– Não sei, Yen. Diga-me você.
– Não – respondeu ela, baixando os olhos.
Aquela era a primeira vez que bruxo a via fazer isso. Yennefer nunca baixara os olhos. Nunca.
– Não – repetiu – Não posso dizer-lhe isso. Quem vai lhe dizer é este pássaro, nascido do toque de sua mão. Pássaro, diga-lhe o que é verdade.
– A verdade – disse o gavião – é um fragmento de gelo.
pág 121.

Recentemente consegui atingir uma proeza que a algum tempo tentava alcançar, e que a falta de tempo tornava inatingível: Assistir Game of Thrones. Assisti o primeiro episódio em 2011 gostei, e a vida só me fez continuar há poucos dias. Vocês podem achar isso estranho, mas eu sou velho. Um xiita de seriados que sempre achou legal assistir um por semana e ficar esperando ansiosamente pelo próximo. Nunca me acostumei a baixar uma série e assistir numa tacada só. Não é da minha geração, mas assistir Game of thrones no celular, no ônibus ao lado de senhorinhas faz mais sentido na minha cabeça. A escolha da época não é acidental: comecei a ler Robert Jordan também, já havia lido o primeiro livro de contos de Geralt de Rivia ano passado e jogo casualmente Skyrim, Dark Souls e Witcher. Posso dizer seguramente que esse é um ano de capa espada.
Quando penso na minha formação literária, é na fundação dela. Comecei a ler de verdade com Dumas, Tolkien e Michael Ende. O primeiro livro que senti aquela dificuldade gostosa de uma leitura complexa foi o Don Quixote original, mas convenhamos que era a tradução do século XIX da Nova Cultural, o que é Hard Plus, e também minhas primeiras aventuras de escritor envolviam esse estilo, entretanto…. divago mais que o costume. O resumo da ópera é que esse é um gênero que gosto muito e, ao contrário do policial que é uma pura distração, da fantasia sempre espero algo mais que pura aventura, pois assim como o FC a imaginação é um condutor muito bom para temas que estão no cotidiano. Por mais fantástico que seja um mundo imaginário, são as semelhanças com o mundo ao redor que cria vínculos com o leitor. Nesse ponto a fantasia realista de Jordan, Martin e Sapkowski é certeira em retratar mundos cruéis que destroem qualquer imaginação de lúdico que possa existir no leitor.

Continuando um tema do último post em que cito Todorov, a fantasia pode ser dividida em criar um mundo em que se desconfie do elemento fantástico, ou um em que se aceite plenamente o mesmo, se tornando um conto de fadas. Isso funciona maravilhosamente bem para distinguir Borges de Grimm, mas ainda ainda há algumas problemáticas nessa acepção que precisam de mais estudos sobre e uma delas é distinguir a narrativa que você tem que aceitar plenamente os elementos fantásticos, mas ainda assim desconfia do âmago da narrativa. É assim em Martin: por mais que Westeros tenha suas leis geológicas e seja povoada por dragões e White walkers, o foco é o pior do ser humano nas disputas de poder. Nesse ponto o pai de todos é realmente a Terra Média de Tolkien, que apesar do autor jurar não ter sido intencional é difícil não ler a saga do Anel, sem ter em mente a terrível época em que foi escrito. E é por aí que Sapkowski também guia seus personagens.
Em o Último Desejo descrevi como a escrita do autor polonês é marcada pela sujeira das descrições, violência e linguagem baixa dos personagens. Obviamente no segundo volume da saga do Bruxo isso continua, mas estranhamente temos histórias menos concentradas em monstros simbólicos e mais interessada em Geralt e sua companheira Yennefer, sendo que o autor consegue a proeza de entrelaçar todos os contos no último conto do volume, “Algo Mais”, e fazendo isso com maestria na última página. Por mais que seja então um livro de contos, todos estes estão relacionados a princípio com as várias possibilidades do amor e um nível mais profundo com a concepção de família.
O livro fica no meio termo entre o conto e romance, assim como O Último Desejo, pois são todos contos, ou novelas que podem ser lidos separadamente mas que dentro da estrutura do apanhado tem um sentido único. Enquanto em O Último desejo éramos apresentados ao personagem principal, Geralt de Rivia, que enquanto se recuperava de um ferimento ia repassando fatos de sua vida que compunham sua personalidade, ao mesmo tempo que tecia um subplot que desembocava no último conto em que ele conhecia a feiticeira Yennefer.
Aqui não temos prelúdios que amarram a história, essa agora é amarrada pelo relacionamento complexo entre Yennefer e Geralt. No espetacular “Limite do possível”, temos os personagens se reencontrando em uma caçada a um suposto dragão que ronda a área, esses estariam extintos dentro do universo de Geralt. A caçada é um desculpa para criar diversos conflitos entre os “caçadores” e entre Geralt e Yennefer. O conto é genial pelo jeito que a história é contada, e seu final surpreendente. Ele é seguido por “Um fragmento de gelo”, frase proferida pelo gavião no trecho acima, está relacionada ao amor que os dois sentem um pelo outro. Nesse conto revela-se que após o dragão os dois viajam juntos e um incidente em uma das cidades visitadas pode por tudo a perder. Em “O fogo eterno” temos uma aventuras entre Geralt, novamente sozinho em função do final do último conto, e seu amigo Jaskier. Este é mais tradicional que chega a destoar um pouco os demais. Em “Um pequeno sacrifício” voltamos a complicar os temas do romance, em um viagem de barco após convencer um príncipe de que é impossível desposar um sereia (???), o bruxo desperta paixão em uma poetisa, apesar de não corresponder a essa. A história da sereia funciona como um espelho para todo o resto que vai se desenrolar. “Espada do Destino” traz o bruxo encontrando acidentalmente uma princesa de 12 anos de idade que foge do seu casamento, a irritante Cici vai aos poucos conquistando o carisma do personagem e do leitor. “Algo Mais”, traz Geralt entre a vida e a morte novamente, a volta de Yenneffer em certo ponto e um final enigmático que continua a ideia de predestinação já presente no conto posterior.
São só seis contos, mas poderiam ser visto como novelas, visto que sua extensão é bem grande. Difícil falar do último conto sem dar spoiler dos demais e da história, entretanto o que se pode dizer é que há reflexões muito explícitas sobre a natureza do amor e da família em todos os contos. Yennefer não pode ter filhos por ser uma feiticeira, Geralt, por sua vez, foi submetido a vários procedimentos para se tornar um bruxo, inclusive mutações, e sua maior dúvida é saber se realmente tem sentimentos. Yennefer volta a toda hora em sua cabeça, até mesmo nos contos em que ela não está: “se Yennefer quando está comigo se sente como me sinto agora, então tenho pena dela.E nunca mais vou me espantar. Nunca mais vou odiá-la.” (pág 238). Nesse ponto esse é um livro mais sobre Yennefer, do que sobre o bruxo. A editora acerta ao colocar a personagem na capa, pois até mesmo a resolução final é consequência das ações dela. E a editora erra ao colocar na ficha catalográfica do livro “Ficção Juvenil”. Não só porque há temas fortes, mas porque a escrita é relativamente densa para ser considerado juvenil. O brasil quer adotar o Young Adults meio que a força, é fato, mas os livros de Sapkowski nem isso são… e o John Green continua sendo considerado literatura adulta, se é que isso existe. Enfim…
A Espada do Destino é ainda mais redondo que o O Último Desejo, a escrita do polonês te prende menos pelo universo e muito mais pelos personagens e situações abordadas que são reflexo do nosso mundo. O final de A Espada do Destino para mim foi surpreendente e intrigante. O próximo da sequência é Sangue dos Elfos, esse sim um romance. Ai veremos se ele tem fôlego para uma história maior, até o momento seus contos fantásticos são… com o perdão do trocadilho, fantásticos.
A espada do destino
Autor: Andrzej Sapkowski
Editora WMF Martins Fontes
380 pgs

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