Obra Completa – Murilo Rubião

obra completa
Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.

Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído,abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa, uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lenço do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outra ocasião indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras.
(…)
Numa das vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou.Ao primeiro movimento que fiz elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço.”
In Ex-Mágico da Taberna Minhota. pág 22-23

Todorov faz uma distinção fundamental dentro da literatura fantástica, entre o maravilhoso e o fantástico propriamente dito. Para ele o maravilhoso é uma narrativa em que você é obrigado a aceitar o mundo descrito e não vê necessariamente nenhum eco com o mundo real, já no fantástico, o subtexto sempre aponta para uma inquietude que é possível ver a sombra de nossas vidas por trás narrativas. Esse conceito de fantástico foi levado ao extremo pelo realismo mágico latino-americano, e nós como bons brasileiros mais uma vez ignoramos todo o movimento na América Latina e nos refugiamos dentro do nosso neorrealismo social.
Murilo Rubião nos anos 60, e J. J. Veiga posteriormente, são aqueles que mais se aproximaram de tentar um diálogo com o realismo mágico, criando mundos que desafiavam a estética em muitos sentidos. Até mesmo em termos de concepção de obra, Rubião é um caso à parte, pois constituiu uma obra em mais de quarenta anos que é resumida em um volume de pouco mais de 200 páginas. Algo que já seria ainda incomum para um poeta, se torna um marco “esquisito” para um escritor que pode ser visto como a principal voz da literatura fantástica em nosso pais. A obsessão por reescrever todos os contos, mesmo após anos, ainda criou uma diversidade de versões para os mesmos contos, e, dentre outras particularidades, criaram uma obra ímpar dentro de nossa literatura.

Rubião não fica definido também como um expoente do fantástico ou do maravilhoso, pois se em alguns contos podemos ver alegorias de nossas pacatas vidas, em outros não há rastro de um sentido alegórico nas linhas da prosa, somente uma pura imaginação que produz coelhos metamorfos, festa eternas, homem que não sabe se está morto, entre outras maluquices.  Seria exagero dizer que a obra do escritor desafia a terminologia de Todorov (apesar de outros escritores o fazerem), mas podemos dizer que os contos de Rubião não estão preocupados com o mundo que cerca a história e sim com a melancolia de seus personagens.
O mágico do trecho acima relembra seus dias de depressão quando tinha poderes que escapavam de sua compreensão, mas nos dias de hoje, quando já não tem os poderes, também demonstra um pesar em sua voz. “Teleco”, apesar de se transformar no que quiser, sofre com a própria falta de personalidade e as últimas linhas de seu conto são aterrorizantes. Em “O Convidado”, um dos contos mais extensos do volume (10 páginas), vemos um homem que é convidado a uma festa que se torna cada vez esquisita, e temos a impressão que ela se estenderá pela eternidade.
Os temas que tocam nas grandes perguntas e colocam os personagens em combate com o mundo que vivem também têm grande destaque na obra do escritor mineiro, ele até chegou a ser comparado com Kafka, com Pirotécnico Zacarias, mas ele confessou não ter lido o escritor tcheco. Um pouco difícil de acreditar, vide que há alguns contos que criam a típica atmosfera kafkiana de situação insolúvel, como “A cidade”, em que o visitante começa a ser julgado por fazer perguntas demais, ou mesmo “Edifício” em que a construção do prédio desafia normas, prazos, alturas e também cria uma sensação de eternidade. Assim como para muitos a obra de Kafka é uma eterna procura do homem por Deus (coisa que discordo em parte), essa visão da pequenez do ser em contraste com a onipotência de uma instância maior como o eterno, é um tema que pode ser encontrado em Rubião.
O que é estranho ou fantástico nos atrai, pois o homem tem uma curiosidade intrínseca a ele. Assim como os antepassados olhavam para o fogo com medo e delírio antes de domá-lo, olhamos para as estrelas hoje com medo e fantasia esperando um dia poder conquitá-las, a capacidade de sonhar e, por meio disso realizar, é algo que define a humanidade e olhar para essa procura ao estranho como algo exclusivamente religioso pode levar a um erro, como fazem com Kafka.
Apesar de Rubião sempre apresentar uma epígrafe bíblica que abre seus contos, poucas delas podem ser encaradas como uma ponte do religioso ao fantástico, e sim como uma parábola para o que acontece no conto. No meu preferido “Os Dragões”, a Epígrafe é “Fui irmão dos dragões e companheiro de avestruzes.” (Jó, XXX, 29), e seu sentido, na minha interpretação, está relacionado com a falta de preconceito que se deveria encarar a vida, pois somos todos seres dentro de um mesmo mundo. É um sentido fechado? Não. 
Uma outra particularidade da obra, além de todas as outras que pontuei, é as várias visões que se pode ter da mesma história. Neste conto, por exemplo, o foco está em vários dragões que chegam a uma cidade, são primeiramente excluídos, tratados como feras e abominados, só dois se salvam pelas graças do narrador que tenta educá-los mas eles se tornam bêbados, escravos de vícios humanos, até que nada sobre dos mesmos por diferentes razões. No final a sociedade irá sentir falta dos dragões, mas há vários trechos em que o preconceito é palpável e que você sente que tem algo mais aí.
Contudo… assim como daria para escrever uma grande tese somente entre as diversas possibilidades de se interpretar as epígrafes com os contos, os próprios estão com sentidos abertos a sua interpretação, assim como o mestre Borges sabe fazer. Você pode ler “Os dragões” e encontrar outras coisas que me escapam, pois tenho ciência que não é um conto construído em torno das mecânicas do preconceito, apesar de o tema pular muito mais aos meus olhos. Talvez a principal característica para a plurissignificação, dessa vez ao contrário de Borges que enchia de mística a escrita, é, no caso do mineiro, o uso de uma linguagem extremamente seca e realista, mesmo ao descrever situações que fogem à normalidade. Até o nosso realismo mágico, é pautado na escrita realista crua, pois os escritores podem tentar ficar à margem do tempo ou da sociedade, mas isso é uma ilusão no final.
Os personagens do escritor são melancólicos, sua escrita sempre crua e precisa, e sua imaginação bem singela. Ainda que seus mundos sejam bem cinzas e tristes, o desafio de interpretação é aquilo que motiva o leitor a adentrar cada vez mais no mundo do escritor. Se você gosta de uma boa literatura fantástica não vai se decepcionar, se não, ainda assim é uma obra tão singela da nossa literatura que vale a pena conhecer.Vale a leitura e é um dos meus escritores de cabeceira.
Obra completa
Autor: Murilo Rubião
Editora Cia. das Letras
232 pgs

Um comentário em “Obra Completa – Murilo Rubião

  1. Muito interessante e veio bem a calhar esse post neste momento para mim. Tenho a obra em e-book, mas ainda não a li (na verdade, do Rubião somente li “Teleco”). Meu grande interesse/curiosidade no autor é a presença de algo do fantástico em seus textos; inclusive, cheguei a conhecer um pouco mais sobre ele em um curso que fiz de realismo mágico, e aí – claro – fiquei imensamente curiosa.

    Beijos, Livro Lab

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *