Você vai voltar pra mim e outros contos

“Embora o próprio cardeal tenha assegurado a Joana que o marido foi estancado até não restar nele sopro de vida, ela não aceitou que ele não tivesse morrido. Cade o corpo?, ela perguntou. E sempre pergunta. Diz que só vai se considerar viúva no dia em que trouxerem o atestado de óbito de Raimundo e mostrarem sua sepultura. 
Ela acredita que os espancamentos deixaram Raimundo desmemoriado, talvez até cego ou aleijado, e que desde então ele perambula pelas ruas, perdido, sem saber como voltar para casa. Não aceita como prova de morte o atestado de óbito fornecido pelo Governo, que não diz em que dia ele morreu nem onde, nem a causa mortis. De fato é pseudoatestado, só serve para a família cuidar do inventário e seguir a vida. E Joana segue a vida, mas a seu modo. 
Uma ou duas noites por semana, ela junta algumas moedas e sai envolta em seu xale. Exibe a fotografia de Raimundo aos moradores de rua, pergunta se apareceu algum andarilho ou indigente desconhecido de mais idade e de tez branca. Se dizem que sim, ela quer saber debaixo de qual marquise ou em qual abrigo da Prefeitura ele está e vai atrás dele. No caminho vai deixando uma moeda aqui, outra ali.” 
Páginas 59-60
Há uns dois ou três anos, me assustei ao descobrir que, até então, a Ditadura Militar não fazia parte do currículo programático obrigatórios do Ensino Médio. Dar ou não este conteúdo era opção da coordenação da escola. Mas como não falar sobre isso? Gerações muito próximas à minha (e imagino que de muitos que estão lendo isso) viveram de alguma forma este período. Não é, portanto, algo longínquo, perdido na história e memória coletiva. Tratar apenas do “milagre econômico” e depois da enorme dívida externa para abordar o tema não é suficiente para compreender o período em que a política e o clima de perseguição eram tão predominantes. E, por mais que certos editoriais a nomeiem de “ditabranda”, o regime militar é algo que trouxe efeitos muito significativos na nossa sociedade. 
Muitos livros já foram escritos sobre o tema, é fato. Mas tenho a impressão que poucos são acessíveis ao público geral, que pouco ou quase nenhuma informação teve acesso. E ainda há uma grande mácula nesta história. Detalhes não ditos, documentos perdidos, desculpas e explicações escusas, desaparecidos e crimes insolúveis que precisam ser esclarecidos.
Você vai voltar pra mim me parece um ótimo panorama sobre os anos de chumbo. O novo livro de Bernardo Kucinski (autor também de K., que já resenhei aqui) é uma coletânea de contos que mostra inúmeras facetas da Ditadura Militar a partir de histórias do ponto de vista daqueles que lutaram contra ela. Assim como no livro anterior, Kucinski parte de histórias reais para construir suas narrativas ficcionais. 
Na apresentação, o autor salienta que aqueles já mais familiarizados com o período retratado poderão reconhecer aqui e ali certos fatos e personagens que inspiraram as narrativas. Mas aqueles que não tenham nenhuma intimidade com o tema, poderão “sentir um pouco a atmosfera de então, com nuances e complexidades que a simples história factual não conseguiria captar’. E foi essa sensação que tive ao ler o livro. Por vezes ficava conjecturando se aquele conto falava de uma história que conhecia. Mas o importante ao terminar a leitura não foi esta identificação, mas a riqueza de todas as histórias. 
Todas as narrativas são curtas e bem precisas. Ainda que cada uma guarde um estilo diferente (o que lembrou bastante alguns capítulos de K., que experimentavam tipos e recursos diferentes de narrativas), os contos são objetivos em abordar o tema e suas várias facetas. “Tio André”, fala sobre os efeitos nefastos da tortura e perseguição política. Como continuar vivendo após sofrer tudo isso?, é uma das questões que o conto coloca; a esquerda festiva (ou quase isso) apresentada em alguns personagens de “Recordações do casarão”, é o oposto do conto “O filósofo e o comissário”, que traz uma crítica aos opositores mais xiitas; “Terapia de família” e “A entrevista” mostram a dificuldade dos filhos em aceitarem que os pais foram ausentes por conta da militância; “Joana” (conto do trecho acima) e “O velório” apontam para o problema dos desaparecidos políticos, perguntas sem respostas até hoje. Um dos que mais me assombrou foi “A instalação”, em que duas primas que não se conhecem, se encontram já mais velhas. O ritmo deste conto é bem simples, mas a surpresa que ele nos reserva me deixou sem ar. 
Como dito anteriormente, o livro traz um ótimo panorama sobre a Ditadura Militar. É um livro que emociona, que nos faz pensar, lembrar certas coisas e traçar paralelos com a atualidade. E a leitura é recomendada, seja para compreender o que se passou, seja para que a história nunca seja calada.

Você vai voltar pra mim e outros contos
Autor: Bernardo Kucinski
Editora Cosac Naify
192 pgs

Um comentário em “Você vai voltar pra mim e outros contos

  1. Caramba, fiquei pensando quantos textos li sobre a ditadura, e a conclusão é que possivelmente quase nenhum. Realmente nossa desinformação quanto a esse período específico da nossa história é muito grande.
    Gosto muito desses temáticas extremas, se é que é certo usar esse termo, holocausto, apartheid, enfim esses extremos, acho que a leitura é uma forma de tentar entender um pouco do porque as pessoas cometem tanta atrocidade a troco de nada.
    Dica anotada!!
    bjão

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