Diabo Apaixonado, O – Jacques Cazotte

“- É Verdade, e é por sua causa; retire-se, ou então, já que que dormir no meu quarto e ficar perto de mim, ordeno-lhe que vá dormir naquela teia de aranha ali bem no cantinho da porta.
Sem esperar pelo fim da ameaça, ela foi deitar-se na esteira, soluçando baixinho.
A madrugada avança,o cansaço me vence e proporciona uns momentos de sono. Só acordo com o dia claro. É fácil adivinhar o rumo que meus primeiros olhares tomaram. Procurei ver onde estava meu pajem.
Estava sentado num banquinho, todo vestido, apenas sem gibão; havia soltado os cabelos que encostavam no chão, cobrindo-lhe, com cachos soltos e naturais, as costas, os ombros e até o rosto.
Na falta de algo melhor, ele desembaraçava os cabelos com os dedos. Nunca o mais belo pente de marfim passeou por mais densa floresta de cabelos loiros; a finura era idêntica às suas outras perfeições; um leve movimento meu mostrou que acordara, e ela afasta com os dedos os cachos que lhe escondiam a face. Imaginem o despontar da primavera emergindo dos vapores da manhã com seu orvalho, sua frescura e seus aromas.
– Biondetta – digo-lhe –, pegue um pente; há um aí na gaveta da escrivaninha.
Ela obedece. E logo, com uma fita, seus cabelos são presos no alto da cabeça de modo rápido e elegante. Ela pega o gibão, abotoa-o com intensa minúcia e senta-se no banquinho com ar tímido, embaraçado, inquieto, que desperta forte compaixão.
Se eu tiver de ver, pensei comigo, durante o dia todo mil cenas, cada uma mais excitante que a outra, sei que não vou resistir; tentemos o desfecho se for possível.”
pág. 35-36

Quando um clássico esquecido cai em minha mão, raramente o desprezo, pois o interesse de se conhecer uma obra “nova” que o tempo soterrou é demasiadamente intrigante. Muitas vezes se descobre que apesar das virtudes ela foi lançada na época errada, ou tinha uma obra mais relevante como contemporânea na época, ou mesmo que é uma obra que se torna cada vez mais relevante a nossa época, o mundo tem dessas. O velho que se torna moderno, o moderno que cai no ostracismo. E também há aquela obra que demonstra claramente seu envelhecimento. Infelizmente Diabo Apaixonado tem muitas virtudes mas se encaixa na última hipótese, um livro engraçado, inteligente mas que expõem violentamente sua idade, mais que o Botox da Cher.
Primeira coisa. O livro é bom. Uma novela escrita em 1772 que explora de uma maneira original um dos grandes temas da literatura: o embate entre o homem e o demônio. Você provavelmente acha que esse não é um tema grandioso, mas isso é reflexo de nossa sociedade moderna, em que o demônio, em função de nosso individualismo moderno, se tornou algo mais interno e próximo de casa do que uma mitologia. Se procurarem em dicionários de termos literários, a representação do demônio na literatura é extensa, especialmente no Renascentismo e culminando no glorioso Fausto. Na antiguidade, a forma de mostrar o embate moral entre o homem racional e suas perversões ganhava os contornos de mito.

O que torna a novela de Cazotte original é a caracterização romântica que sua história toma quando Alvare, o nosso herói, é desafiado por seus amigos a puxar as orelhas de Belzebu após invocá-lo. Assim como as crianças gritam Bloody Mary no espelho à procura de emoção, Alvare aceita o desafio e é surpreendido pela aparição do mesmo, não na forma de um inteligente Mefisto ou um monstro cruel, mas na forma de uma jovem e bela garota. Que se apaixona pelo protagonista.
Alvare não é um protagonista virtuoso de todo, ele consegue ser bem complexo para uma novela romântica do século XVIII, se por um lado em vários momentos conseguimos ver boas intenções no seu coração, ele ainda usa os poderes de sua antagonista para bem própria. Esse por sua vez, batizada por ele de Biondetta, acaba se encaixando no estereótipo da mulher frágil e tentadora, que nessa história faz jus ao termo de tentação, vide que todo o embate da novela será Biondetta o tentando a amá-la e ele resistindo, devido sua natureza maléfica.
O interessante é que Cazotte brinca também com nossas expectativas, e esse talvez seja o maior mérito do romance; em certo ponto estamos nós mesmos cedendo aos encantos daquela personagem que em nada lembra por suas ações um ser maléfico. Contudo não estamos falando de uma obra que revolucionou o gênero, e você lembram o que falei da moral sobre esse tipo de história? Pois bem, a moral está presente com em sua conclusão, e o grande problema para a modernidade da novela de Cazotte. Não porque a moral apresentada está ultrapassada, apesar de ser um ponto forte também, o pior é como o escritor termina sua novela. Parece sinceramente que ele chegou num ponto que cansou de escrever e resolveu terminar tudo em três páginas; ela é muito artificial e chega até a entrar em conflito com algumas ideias apresentadas. Enfim… não estranhe se você chegar ao final e achar que o escritor quase incinerou sua obra, pois para mim foi quase essa a impressão. Mas temos que lembrar que o tempo passa, o mundo muda e minha resenha do valter hugo mãe da semana passada pode parecer uma grande besteira daqui a 100 anos (ou até mesmo hoje hehe).
Se estiver interessado em descobrir coisas novas, ler a literatura fantástica dos primórdios citada por Todorov, ou mesmo quiser uma novela engraçada, pode ser uma boa leitura. Caso contrário não recomendo.
O Diabo Apaixonado
Autor: Jacques Cazotte
Editora José Olympio
112 pgs

Um comentário em “Diabo Apaixonado, O – Jacques Cazotte

  1. Realmente não sei se leria, apesar de ter me atraído essa dualidade do protagonista, o fato de não ser de todo um herói bondoso e/ou ingênuo. Ele parece ter algo de manipulador, o que é bem interessante, ao mesmo tempo em que o demônio (na forma de garota) não parece querer vencer pela força bruta, mas pela ardilosidade ao mostrar um lado frágil/vulnerável. Interessante, apesar do “final incinerado” haha.

    Beijos, Livro Lab

  2. Acho que analisado por outro ponto de vista é um livro em que “o fim” necessariamente não via apresentar nenhum desfecho incrível. Penso que talvez o ponto mais importante seja no MEIO da trama!

  3. Esqueceu de mencionar o fantástico da obra, você falou da parte “superficial” muitas vezes ele com o leitor se questiona da possibilidafe do que está sendo vivenciado. E isso está presente do começo ao fim, esse final “incinerado” é incrível e plausível. Mão se distancia de Aurélia ou verá, e é tão enbolvente quanto o manuscrito de saragossa. É uma obra prima. Enterrada sim! Nas nossas mediocres editoras brasileiras

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