[Mania de Listas] A lista do Milk

Por: Bruno Leite

Ah, 2013! Para mim, foi um ano bem cáustico mas, no imaginário coletivo ele será lembrado por ter sido o ano em que grande parte das nossas editoras preferidas abriram as porteiras de seus depósitos cheias de 50% de desconto para dar. Também será lembrado por ter sido um ano em que muitas pessoas – graças a Deus – descobriram que não tem cacife para falar de literatura mas, infelizmente resistem no cinismo. Foi o ano das manifestações, dos coxinhas, dos selfies, do harlem shake, mas, principalmente, será lembrado por momentos como esse:

O que é bom para o moral? Jamais saberemos… Para ajudar na compreensão de vocês sobre um assunto tão auspicioso, vamos aos finalmentes! Mãs, para começarmos bem, deixem-me explicar algumas cousas que tornam essa lista peculiar:

1) Só entrou na lista os livros lançados em 2013, nada de reedições or something; o caso de Espuma dos dias, que eu até queria falar de como foi uma leitura totalmente sentimental porquê me fez lembrar muito um irmão topetudo que se encontra do outro lado do Atlântico e que faz muita falta nessa minha monotonia toda, mas isso tudo vai ser endereçado via cartão de Natal mesmo e vou poupar vocês dessa viadagem;

2) No final da lista tem um troféu especial, três filmes e três álbuns que marcaram esse 2013 na minha módica e epiplética opinião, totalmente excelente !!!!

3) Por motivos de lotação, alguns livros absolutamente sensacionais não puderam entrar na lista como Mudança, do Nobel Mo Yan, Nada, de Jane Teller e Extraordinário, da R.J. Palácio. Outros como O futuro da arquitetura, A presença da arte, Minha cozinha em Berlim, ficam de fora por destoarem um pouco do assunto geral, mas, quem sabe não fica aqui a ideia para um off-best of 2013 pro ano que vem.

Agora sim, PRE-PA-REM-SE que vamos começar com o show das poderosas:

10º – Anatomia dos Mártires – João Tordo (ed. Leya)

A princípio, ele não iria entrar na lista, porém, recapitulando o ano de 2013 em suas esferas políticas, nada mais justo do que abrir esse ranking com Johnny Mockingbird. João Tordo é um portugatão que infelizmente é pouco conhecido por essas paragens; o seu estilo lembra muito o meu sempre bem amado valter hugo mãe com um lirismo de embasbacar qualquer coração de pedra. Nesse livro em especial ele abandona um pouco esse tom e se torna um pouco mais, digamos, virulento, ao tratar do universo do jornalismo e da construção de mitos. O gajo começa o livro contando a história de um jornalista que, depois de escrever um artigo onde põe em dúvida uma mártir do partido comunista português, embarca numa viagem para descobrir quem era essa mulher e apurar o que há de real em torno dela. Mesmo que num determinado ponto do livro a figura de Catarina Eufémia, a mártir, vá eclipsando o personagem principal, o livro questiona o leitor – seja ele qual for, a analisar seus princípios políticos, sociais e principalmente a ter senso crítico e prático sobre essas mesmas questões. Num ano em que vimos os maiores partidos de dita esquerda/direita andarem pelos mesmos trilhos, é uma leitura quase obrigatória. E lembrem-se quem não pula, quer tarifa!


9º – O Encantador: Nabokov e a Felicidade – Lila Azam Zanganeh (ed. Alfaguara)

Eu vou tentar não ser vendido e ficar enchendo esse resuminho com elogios à escritora porque isso é na maioria das vezes inútil. Mas no caso da Lila, é impossível. O livro tem uma tônica doce, leve, pungente e não raro eu era pego não lendo um livro, mas sim, frente a sua escritora, numa conversa franca e amistosa, completamente apaixonada onde o objeto de adoração é um – se não o maior – dos maiores escritores do século passado. É mais que uma aula de literatura, mais que uma confissão de tietagem maluca e está bem além de uma simples declaração de amor/agradecimento ao escritor responsável por uma profunda mudança na vida de nossa autora Miss Simpatia 2013; talvez O Encantador seja tudo aquilo que sempre sonhamos fazer em matéria de literatura e nunca nos permitimos fazer. Literalmente, um livro ousadia e alegria!

8º – A Maçã Envenenada – Michel Laub (ed. Cia. das Letras)

Seco, direto, corrosivo e grandioso. Não me refiro ao livro, mas sim ao autor. Quando Michel lançou o maravilhoso Diário da Queda virou refém do sucesso de público e de crítica que o primeiro volume de sua trilogia havia gerado. E por ser mais estrutura que sentimento, nosso escritor mostrou que não havia o que temer e lançou esse libelo aos anos 90 em toda sua aspereza. Alinhavando Nirvana, o massacre de Ruanda e um amadurecimento por osmose, Laub mais uma vez nos mimoseou com toda sua virtuose. Colocou sua classe e sua geração numa posição digna de Jânio Quadros:

o ídolo se mata, a sobrevivente de um massacre é piegas, os relacionamentos são um emaranhado de neuroses difíceis de se desfiar e o narrador parece remorar isso às portas de uma crise de meia idade; e agora, José? Agora calma, porque o Laub saberá como contar isso. E um brinde ao último da trilogia, senhoras se senhores! ~tim-tim~

Confissões de um Jovem Romancista – Umberto Eco (ed. Cosac Naify)

Existem muitas, para não dizer inúmeras, coisas extraordinárias no Umberto Eco. Esse livro é uma delas. E antes de rasgar a cartela de adjetivos que eu guardo só para os livros do Eco, queria dizer à vocês o quanto sou apaixonado por ele, não só pela escrita, mas pelo que ele fez dela, no que ele conseguiu transformá-la e, principalmente, sem ser um desses bisnaguinhas querendo falar difícil; basicamente Eco é mais do que um escritor, é um modo de vida. No livro em questão, fica difícil para um fã como eu não cair de amores, o mestre simplesmente resolve explicar para meio mundo como ele escreve e como deve ser, ao modo dele, o processo da escrita. Fica difícil quando genialidade encontra generosidade. À todos que querem ou que escrevem, esse livro apenas é imprescindível.

Papis et Circenses – José Roberto Torero  (ed. Alfaguara)

Os Novos Bahianos, na música “Dê um rolê” dizem que:

Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia,
Eu não tenho nada
Antes de você ser eu sou
Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés

Não existe melhor definição possível para definir Torero e sua atual posição dentro do panorama da novíssima literatura brasileira. Enquanto alguns se debatem atrás da forma perfeita de dizer o quanto somos isso ou aquilo pelo prisma de uma sub categoria urbana, classe média e cheia de mimimi esquizofrênicos dentro de sociedade tão absurdamente desarranjada, Torero tá ali, quietinho, vendo o futebol dele e passando a mão vez por outra na pena e sendo genial como de costume. O livro nos apresenta a história de alguns pontífices contadas de maneira, acreditem, BEM inusual. É libertador, refrescante e estimulante; ou seja, leiam IMEDIATAMENTE !!!! E só pra fechar com música, aqui vai um Caetano para arrematar tudo o que tenho a dizer sobre o livro e como ele se insere nesse ano:

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval…
(…)
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos?

5º – Dangerous Glitter – Dave Thompson (ed. Veneta)

Teoricamente, esse livro não deveria entrar na lista, porém, todavia, contudo, apenas parem e pensem: você é um pequeno mancebo com inclinações hipongas em 1967 e está engatinhando sua própria revolução sexual quando não mais que de repente ocorre uma explosão interestelar que consegue unir Lou Reed, Iggy Pop e o grão mestre de toda cultura pop David Bowie. O que ocorre depois disso? Apenas a efervescência do movimento mais importante da história do roquenrow – o glam rock. Depois desses três, tudo é permitido: de noivas se masturbando no palco ao icônico vestido de carne até chegarmos ao ponto de lamber marretas e fazermos twerk com a língua de fora.  Podia ser ficção, mas é vida real, e por ter essa inclinação no realismo fantástico, o livro ENTRA SIM!

Dave Thompson escreve bem e melhor ainda, escreve com propriedade. Explicar como esse movimento absurdo surgiu e quais suas implicações em nossas vidinhas é uma grande e árdua tarefa, que nosso belo amigo soube transcrever com muito cuidado e mais imparcialidade que eu, obviamente.  Além, claro, do nosso grande beijo à editora Veneta por ter editado o livro de maneira tão linda; acreditem o livro é ultra ilustrado, bem acabado, enfim, uma verdadeira preciosidade.

4º – Esquilos de Pavlov – Laura Erber (ed. Alfaguara)

Devo admitir que esse livro foi a maior e melhor surpresa do ano tanto que rolou até sorteio aqui no blog e uma resenha toda carregada de amor bem aqui. Não vou me alongar para muito além do fato de que desde que eu fechei o livro, sabia que Laurinha iria figurar nessa lista e ela foi a segunda autora a me fazer pensar na retrospectiva de melhores leituras. Leiam Laura Erber e não façam a barba, é o que eu tenho a dizer.

3º – Reprodução – Bernardo Carvalho (ed. Cia. das Letras)

Desde a estreia do filme Meu malvado favorito, essa expressão se tornou corriqueira em minhas rodas de conversa. Alguns acham que Vila-Matas é o seu malvado favorito, outros Philip Roth, eu particularmente prefiro o Jonathan Franzen e essa teoria só se confirma à medida em que avanço no The Kraus Project (para quem nunca viu nem comeu, só ouve falar, aqui vai uma amostra) mas porém, todavia, contudo, nunca imaginei que fosse me deparar com a possibilidade de nomear Bernardinho assim. Sobre o livro? O que diabas posso dizer para vocês? É clichê, eu sei, mas não existe necessariamente uma história, é uma experiência, experiência essa que faz você repensar sobre muitos dos seus pontos de vista. O narrador do livro é um sujeitinho altamente perturbado, uma verdadeira metralhadora de conceitos altamente antiquados que atira para todos os lados. Nem se o livro fosse escrito pelo Lobão feat. Reinaldo Azevedo com texto de orelha do Arnaldo Jabor e quarta capa do Boris Casoy ele chegaria aos pés do que esse livro representa em matéria de mal estar civil. Engraçado que alguns meses depois o Antonio Prata lançou essa crônica aqui que deu pano pra manga que, de certa forma, resume bem o espírito da coisa toda. Bernardo, seu lindo, essa medalha de bronze é sua!

2º – Lanterna Mágica – Ingmar Bergman (ed. Cosac Naify)

O melhor desse livro é ir para além da figura que se tem do grande diretor e de toda sua virtuose cinematográfica. O melhor desse livro é conseguir esgueirar por brechas abertas delicadamente ao leitor a fim de melhor entender o homem por detrás do mito. O melhor desse livro é conseguir ver além do humano no diretor sem alma, é ver como ele representa com perfeição um cidadão comum do século passado. O melhor desse livro, mesmo com a afirmação anterior, é não compará-lo com o Forest Gump. O melhor desse livro é o prefácio genial do Woody Allen. Mas o melhor mesmo desse livro é a falsa sensação de sermos íntimos de um ícone da nossa cultura, porque, afinal de contas, quem liga pra falsa sensação?

1º – Garota Exemplar – Gillian Flynn (ed. Intrínseca)

No textinho da Laura Erber eu havia dito que ela foi a segunda autora a me fazer pensar na lista de melhores do ano. Muito que bem, Gillian foi a primeira tchuca a me fazer pensar isso e muito mais do que isso, quando terminei esse livrinho maldito – sim, maldito, e quando vocês começarem a lê-lo vocês me darão razão – eu tive a clara impressão de que ninguém iria lhe tirar o primeiro lugar. Dito e feito. Um livro majestoso que consegue te fazer sentir aqueles comichões que você sentia ao ler Agatha Christie pela primeira vez. O livro, em todas as suas inúmeras interpretações é genial. Na estrutura do texto, nos diálogos, nas descrições psicológicas, nos tipos humanos, no exercício do jogral doentio e labiríntico; Garota exemplar é um livro feito pra não ser esquecido nunca. E se façam um favor, leiam-o antes de virar filme, ok?

Emocionante, não? Mas ainda não acabou. Agora, todos de pé batendo palmas esfuziantes para a entrega do nosso primeiro prêmio Neil Gaiman Espanador pelo conjunto da obra que vai para ele, o Amon-Rá da literatura ocidental: Oscar Wilde !!!!!

Nesse ano, a editora Globo nos presenteou com a formidável edição, vejam bem, O R I G I N A L do Retrato de Dorian Gray. Sim meus little monsters, esse clássico passou por censura; algumas palavras foram cortadas, outras foram substituídas pois em alguns momentos do livro, há o que chamaríamos hoje de EXCESSO DE CLOSE. Para que isso não acarretasse problemas futuros ao Wilde, o editor pediu que ele revisse esses trechos para amenizar um pouco o que chamaríamos hoje de VIADAGEM. Não que o Wilde não fosse se meter numa grande confusão depois, mas fez com que ele ganhasse um tempinho antes de se dar mal de verdade. Afora a edição que ficou linda, bem encadernada, papel decente, fonte fluída, um prefácio maravilhoso que mais é uma aula de literatura inglesa do que qualquer outra coisa, tradução impecável. Um livro para se guardar debaixo de sete chaves.

“Mas Milque, você disse lá em cima que reedições não entrariam no top”  É, realmente, eu disse isso, mas se você prestar atenção vai ver que esse texto é inédito e por ser inédito, ENTRA SIM!

Num ano de Katty Perry, Lady Gaga, Britney e  Beyoncé quem rouba a cena mesmo é a diva de todas as divas: Wilde, senhoras e senhores eu quero ouvir ~appaluse, applause, applause~

Tá grande o texto né, desculpa gente, me excedi na cidra, e aqui vão meus três álbuns e três filmes preferidos desse ano que tem como base a quantidade de vezes em que eu citei, escutei e assisti essas maravilhas ao longo do ano

3º – Arctic Monkeys – AM
2º – David Bowie – The Next Day
1º – Random Access Memories – Daft Punk

3º – O Som ao Redor – Kléber Mendonça Filho
2º – Gravidade – Alfonso Cuarón
1º – Frances Ha – Noah Baumbach

PS: Eu sei que prometi para esse ano de 2013 um especial que eu registrei bem aqui e eu prometo entregar as minhas impressões ASAP !!!! Perdi muito tempo tentando entender o que era bom para o moral =P

BEIGAS ÚMIDAS EM TODAS AS SUAS BOCHECHAS E QUE TENHAMOS UM 2014 QUE SAMBE NA CARA DE 2013!!!!

Bruno Leite: Um taurino neurótico. Um beatlemaníaco que samba. Porque literatura é luz, raio, estrela e luar.

Um comentário em “[Mania de Listas] A lista do Milk

  1. Inveja boa da sua lista Bruno! Como eu te disse excelente e seus toques de humor no texto são divertidíssimos de ler! 😛 Que bagagem cultural hein menino! Acho que conhecia a maioria desses livros mas ainda não consegui ler nenhum! Os que não conhecia me deu vontade de ler.

    Eco e Bergman são os lindos dessa sua lista…. nos filmes é a mesma coisa. Perdi de idiota a oportunidade de ver “O som ao redor” , mesmo digo para “Gravidade” vou ter que me contentar com a imagem na tela da tv. rs

    Seu post é inspirador cara! 😀

    Abraços

  2. Eh Bruno que listão é esse ! Dorian Gray tenho e li as duas “versões”, porém a que a Globo lançou é bem diferente, por isso gostei mais, achei menos romanceada, menos explicada, mais direta e objetiva como acho que era a verdadeira intenção do Wilde.
    Eu tinha um pé atrás com Garota Exemplar, mas me deu vontade de ler agora, achei surpreendente ela estar no topo da sua lista, comprando em 3,2,1!
    A Maçã Envenenada do Laub está na lista de todo mundo, tenho aqui vou ler logo!
    Dicas anotadas ! bjoooooos

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