Tirando Pó – Narrativas Digitais

Já fizemos aqui alguns paralelos entre literatura e cinema, normalmente essa comparação vem de mim, pois narrativas em geral me fascinam, seja tradicionalmente em livros, na Sétima Arte e também como jogos eletrônicos. Esse é um lugar delicado, pois o consenso geral é de que esse tipo de mídia tem um monte de alienado matando multiplayer em batalhas sangrentas sem nenhum conteúdo… E essa noção não estaria totalmente errada, apesar de ser um exagero, mas só para certa parte da cultura gamer. Desde de que Mário era chamado de Pulador, e enfrentava o Donkey Kong em busca da princesa, até os dias de hoje, muita coisa mudou e uma das características que mais evoluiu são as histórias contadas por essa mídia, alguma delas são tão vastas e cheias de conteúdo que precisam de um bom amontoado de horas ou anos para serem completamente absorvidas, vide Skyrim que tem até livros inteiros para se ler no game. É Sério…
Mas essas estruturas narrativas seriam para uma segunda parte. Eu tentarei focar um pouco mais no tradicional e mostrar como a literatura influencia também em diferentes aspectos a produção de uma obra digital. E isso apesar de parecer surpreendente para alguns, já vem desde o surgimento dos primeiro consoles. Uma das primeira adaptações de um livro para game que fez sucesso, foi  Fahrenheit 451 no Commodore 64 em 1986.
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Fahrenheit 451 em gameplay para Apple.
Essa é a opção mais direta de qualquer adaptação, há outras ainda mais ousadas que é onde minha análise quer se centra, como uma grande homenagem aos livros infantis.
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Unfinished Swan (2012) – Santa Mônica Studio.
A história do game é uma metalinguagem direta com a literatura infantil. Um jovem órfão guarda consigo os últimos desenhos de sua mãe, em especial o desenho inacabado de um cisne. Este ganha vida uma noite e sai do quadro e o menino passa a persegui-lo. A partir daí você controla o menino que tem a única habilidade de lançar tinta no mundo branco ao seu redor revelando assim escadas, estátuas e textos que contam a história de um rei e seu reino.
A mecânica de lançar tinta a princípio aproxima o jogador da arte de desenhar. você pode simplesmente ir descobrindo o caminho com um rabisco, ou revelar o cenário inteiro. Conforme você avança, essa mecânica é preservada, mas vai revelando cenários cada vez mais surpreendentes, como que extraídos de um livro infantil. A própria transição entre fases mostra as páginas de um livro em branco sendo viradas, nada é dito mas a aventura do menino é um passeio pela última obra de sua mãe e a história do rei que você vai desvendando fase por fase, é uma alegoria de como se viver a vida, como uma mensagem dela para ele. Não é preciso dizer que seu final tem uma sensibilidade diferente a tudo que você possa ter jogado.
Plataforma: PS3
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Trailer com os cenários de Unfinished Swan

witcher 2
Saga Witcher (2007, 2011 & 2014) – CDProjekt
Essa saga prevista para terminar agora em 2014, é um caso raro de uma série de livros poloneses que teve uma continuação direta como game. Sapkovsky criou a série 1990 e a terminou em 1999 (2 livros de contos e 5 romances) com o fim da história de Geralt, eu já resenhei o primeiro exemplar em português aqui. No momento leio o segundo volume de contos e em 2014 continuo. Após 8 anos que Geralt, o personagem principal, foi deixado de lado, o autor foi convidado a ajudar na criação de material para um jogo relacionado aos livros. Ele poderia ter tomado o caminho mais fácil e centrar a história no período de contos de Geralt, onde a noção de tempo seria mais flexível, mas decidiu continuar a história com uma nova trilogia, onde Geralt teria sido lançado novamente à batalha mas com amnésia, logo tudo que aconteceu antes acaba não sendo um empecilho para quem nunca leu a obra original. O que é ótimo, pois os livros só têm tradução hoje em função do jogo.
Em muitos aspectos Witcher é a narrativa atual de jogos: Mundo aberto, vários personagens, uma história principal mas que é muito mais rica com as histórias secundárias que se intercalam, mas que não são obrigatórias. O personagem principal é cativante e existem inúmeras maneiras de se jogar. Em outros ele é bem diferente o que o faz ser mais underground do que outros jogos do gênero. Primeiramente ele é um jogo bem difícil, tem um conteúdo de história bem complexo que envolve muita política e sexo, sendo que o conteúdo sexual no game é bem alto e ele tem muitas passagens somente de conversa e sem ação, e isso infelizmente é decisivo para muitos jogadores. Mas quem conhece e topa o desafio de encarnar Geralt de Rivia, se torna um fã, ainda que a legião deste seja pequena.
A história, segundo o autor, termina este ano, ainda sem data. Mas pelo andar da carruagem será épica. Uma das caraterísticas mais marcantes do mundo do escritor polonês é a criação de um conto de fadas sem esmero, com muita sujeira. Aqui os monstros não todos ruins, os reis são corruptos, os elfos subvivem na miséria e há um preconceito cruel com anões e outros não humanos. O personagem principal deveria se preocupar em caçar monstro sem escolher lados, mas a todo o momento Geralt tem que fazer escolhas que mudam o andar da narrativa, outra caraterística do jogo moderno, mas aqui não se resume a bem e mal, pois é difícil decidir sobre um mal menor ou maior.
Plataforma: X-Box 360, PC
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Você opta por permanecer neutro com Loredo, um capitão racista que o acolhe na cidade, mas em dado momento você também tem que invadir o segredo que este guarda.
American McGee’s Alice (2000) – Rogue
Uma das razões de não se conseguir adaptar com perfeição algumas obras literárias é porque elas não tâm a mesma linha de ação que um jogo eletrônico toma. Enquanto no cinema tudo também é linear, na narrativa eletrônica há várias possibilidades de ação que poderiam mudar uma história. Para mim a melhor adaptação literal é esta de 2000 que conta a história posterior ao que aconteceu com Alice após voltar do país das Maravilhas. E basicamente ela enlouqueceu! Alegre
Um jogo bem tradicional de pular em plataformas e combater inimigos, o destaque fica por conseguir recontar a mesma história de uma perspectiva diferente e ainda acrescentar novos elementos. O roteiro deste jogo faz o filme do Tim Burton parecer uma brincadeira de criança, pois a temática é muito mais insana e a Alice tem uma cara de psicopata que é ainda mais reforçada com a faca de cozinha que ela carrega. Os elementos que fazem a menina perder os parafusos não é só a visita ao País das Maravilhas, mas também um acidente que a deixou órfã.
Plataforma: PC
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bioshockBioshock (2007) – 2K
Peraí esse eu conheço! É um jogo de tiro (FPS) e não tem nenhum livro associado. Claro que você pode passar o jogo inteiro sem saber disso, você também pode passar o jogo inteiro chutando a história de lado, em função de sua estrutura, mas creio que aí você encaixaria dentro da grande crítica de Andrew Ryan ao final do jogo… Mas isso são só detalhes, o fato é que o Bioshock original é inspirado sim em uma obra, e não é somente em caráter literário, mas em caráter filosófico. A obra em questão é Nação, de Ayn Rand.
Há outros pontos do pensamento dessa filósofa pouco conhecida aqui, mas creio que a concepção de uma nação de super-homens seja a pedra base para a construção de Rapture, uma cidade onde só a pura nata humana seria aceita: filósofos, cientistas, biólogos, todos no mesmo lugar para criar a sociedade perfeita… E é óbvio que vai dar errado. Você é um homem que sobrevive a queda de um avião e se depara  com essa sociedade utópica destruída, fruto de um vício coletivo em uma droga genética que aguçava os sentidos.
O que nos permite associar com Rand, isso não é só essa sociedade utópica, pois até muitos outros escritores tem ideias parecidas, mas também alguns personagens que aparecem na história, como o idealizador de tudo Andrew Ryan, que tem uma assonância óbvia com o nome da escritora, e o homem que nos ajuda, Atlas, que tem o nome de seu personagem mais famoso, entre outras coisas. A importância de Bioshock dentro da cultura gamer é muito grande. Além dos detalhes técnicos surpreendentes para época (usar as duas mãos na batalha, textura da água, falta de linearidade em um FPS) ele trazia uma história muito boa, mas que exigia que você parasse para ler os textos e escutar as gravações. Se você não quisesse, poderia ir atirando como qualquer jogo gênero, contudo para quem acompanha a história e chega em seu final vê um dos maiores plot twist que torna o jogo de um simples jogo steampunk, para uma crítica enorme ao gênero do FPS.
Plataforma: PC, PS3, X-Box
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Começo histórico de Bioshock, em que somos apresentados a Rapture.

walkingWalking Dead (2012) – TellTale.
Por fim, assim como The Witcher, Walking Dead se liga diretamente com o mundo das histórias de Robert Kirkman, sendo que alguns personagens que aparecem na HQ você encontra brevemente durante a jogatina.  A diferença é que aqui não é uma continuação direta e sim uma história que acontece concomitantemente à obra original. Ele foi lançado durante o final de 2011 e 2012, composto por 5 episódios de duração média de 2 a 3 horas cada. O gênero escolhido, por incrível que pareça, era um tão morto como os musicais no cinema, ou bons livros de Fc na literatura: o point and click. Basicamente consiste em clicar em vários pontos do cenários para analisar, conversar ou realizar ações para que a narrativa ande.
Que chato, você pode pensar, mas não é. Exatamente pela maneira inventiva como eles alternam as diferentes possibilidades dentro dessa mecânica, ele nunca parece igual. Não posso dizer que o jogo seja difícil, pois não é. Mas se ele não tem um peso de dificuldade, ele tem um peso emocional forte. Você é um presidiário que está sendo levado para penitenciária quando a infecção começa, você é culpado e acaba no acidente sendo lançado nesse mundo que está começando a ser destruído pelos zumbis. Na fuga, encontra uma menina de 8 anos, Clementine, sozinha em casa e a partir daí vocês começam uma relação de sobrevivência. Ao contrário das crianças em games, e principalmente de personagens que precisam de proteção, você não se sente irritado com Clementine e sim vai se ligando a ela com muita força com o desenrolar da história.
Outro fator que pesa no emocional são os coadjuvantes, e você pode notar que algo tem uma história interessante quando você se importa não só com os principais mas com os que circundam estes. E este também é um jogo de decisões, muitas vezes entre salvar ou não um personagem, ou apoiar aquele ou apoiar o outro, e é sadicamente divertido. Muitas vezes pensava em voltar para tentar salvar um ou outro, às vezes dava certo, ás vezes não dava, e uma personagem especifica me deixou bem chocado e irritado. Mas esse não foi o único sentimento que tive no gameplay, pois ao seu final estava quase chorando e poucas coisas me deixam nesse estado. A TellTale no momento produz uma segunda temporada para Walking Dead, lançou recentemente o primeiro episódio de Wolf Among Us, outra adaptação, agora da HQ Fábulas, e segundo a lenda prepara um adaptação de Game of Thrones, tudo no mesmo formato. Mas considerando que eles provaram com este que eles sabem “contar uma história” (aha) não há o que se preocupar.
Plataforma: PC, PS3, X-Box
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Final do capítulo 2. Um dos primeiros choques que tive.
Analisar diferentes tipos de adaptações já foi alvo de meus pensamentos aqui no blog. No caso foram os filmes que sugaram minha atenção, agora partilho um pouco daquilo que vejo em games no momento. Não é igual, aliás o roteiro de um game é bem diferente em concepção do que o de um filme, contudo isso é assunto para outro tópico. No mais, aconselho a tentar algumas das indicações acima, existem outras é claro, inclusive um atual do Game of Thrones, contudo essas são as melhores em conteúdo que consigo indicar. Se for para escolher um: Walking Dead, disponível para todas as plataformas e totalmente envolvente e emocionante. Para quem achou chato, não se preocupe… eu volto para livros na quarta. Smiley piscando

Um comentário em “Tirando Pó – Narrativas Digitais

  1. E quanto a adaptação de Harry Potter para os jogos eletrônicos? Particularmente, é um universo que me entusiasma muito. Para os fãs de HP, o jogo seria uma forma de suprir o não recebimento da carta de Hogwarts e, se bem explorado como narrativa e jogo interativo, valeria muito a pena pra quem é fissurado pelo universo bruxo. Seria uma maravilha se seguisse a linha do game The Walking Dead…

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