[Amigo Secreto] Oblómov – Ivan Gontcharóv

(em agosto fizemos um amigo secreto para comemorar os 3 anos do blog. Os livros vão virar resenhas por aqui. Já tivemos a primeira, da Amanda falando sobre The Gashlycrumb Tinies, do Edward Gorey)

oblomov“- De que você não gosta especificamente?
– De tudo, essa eterna correria para lá e para cá, essa ostentação de paixõezinhas inúteis, sobretudo a avareza, a vontade de passar à frente do outro, as fofocas, e conversa fiada, os insultos pelas costas, o jeito de olhar os outros dos pés à cabeça; ouvindo o que as pessoas falam, a cabeça da gente começa a rodar, fica embotada. Quando a gente olha, elas parecem tão inteligentes, com tantas dignidade no rosto, mas é só escutar e: “Deram isso para aquele, aquele outro recebeu uma concessão do governo”…. “Puxa vida, por quê?”. Fulano perdeu tudo no clube; fulano vai ganhar trezentos mil! “Que tédio, que tédio, que tédio!… Onde está o homem de verdade? Onde está o seu valor? Onde ele se escondeu, como ele foi substituído por toda a sorte de ninharias?
– A sociedade e  mundo tem que se ocupar de alguma coisa – disse Stoltz – , cada um tem seus interesses. A vida é assim….
– A sociedade, o mundo! Você Andrei, sem dúvida me levou de propósito para essa sociedade, esse mundo, para que eu perdesse toda a vontade de estar lá. A vida: a boa vida!O que eu vou encontrar lá? Interesses intelectuais, afetivos? Veja você mesmo, qual é o centro em torno da qual gira tudo isso? Não existe centro nenhum, não existe nada profundo, nada que toque o âmago da vida. São todos pessoas mortas, adormecidas, piores do que eu, esses membros da sociedade e do mundo. O que fazem eles da vida? Não ficam deitados, mas correm para lá e para cá todos os dias como moscas, e qual o sentido disso? A gente entra num salão e admira de ver como os convidados são distribuídos com simetria, como se acomodam de maneira gentil e sóbrio… diante das cartas de um baralho. Nem se discute é uma das missões sagradas da vida! Ótimo exemplo para uma mente em busca de movimento! Por acaso não são uns cadáveres? Por acaso não passam a vida toda dormindo sentados? (…)”
pág 251-252.

As palavras do herói Oblómov a seu grande amigo Stoltz ainda soam nos dias de hoje com um leve ar de profecia e uma grande cara de crônica em nosso mundo globalizado e impessoal. O personagem criado para ser um contraponto do mundo moderno nessa pequena obra prima de Gontcharóv tem seus momentos de brilho e audaz luta quixotesca contra as engrenagens da vida. Entretanto ele sofre de algumas manias românticas e um prolixidade que pode afastar alguns leitores, pois o grande fato da leitura deste clássico esquecido é que ele demora muito para efetivamente começar.
Ler a primeira das quatro partes de Oblómov é como ler Guerra e Paz, ou pelo menos dá uma sensação temporal similar, muito porque o autor simula na escrita o estado vegetativo em que nosso “herói” se encontra com maestria ao nos faz experimentar toda a chatice do cotidiano de Oblómov, e suas repetições por 1/3 do livro. E apesar de ser um recurso, como o resto da leitura prova a partir da segunda parte, isso deve afastar muitos leitores de seguirem o curso da narrativa. O grande problema não é nem a falta de acontecimentos que movimentam a primeira parte e sim o fato de se construir um personagem absurdamente desinteressante e irritante por 230 páginas.
Oblómov é o herdeiro e aristocrata rico de uma grande propriedade e negócios, mas que por estado de uma pré-melancolia não sai da cama e da casa. Todos o visitam, tentam instigá-lo a viver mas este se recusa a mover um passo para fora do aconchego do mesmo. Mesmo que esteja sendo expulso de casa, o negócio da família esteja falindo e lhe rendendo cada vez menos e sua casa esteja em estado lastimável. Ele é o retrato de uma monarquia confortável em seu poder e sem se dar conta de que o mundo muda, e sua raça ‘nobre’ está com os dias contados… Obviamente é uma crítica a Rússia do século XIX. Publicado em 1859, essa é uma das principais características a se exaltar na obra de Gontcharóv, se não o ponto mais importante da obra, o problema a meu ver é que isso ficaria claro em 80/100 páginas. Quando nosso personagem principal chega a ameaçar sair da cama pela 15ª vez, e ameaça escrever uma carta e acaba dormindo sem escrever uma linha  e você já leu 200 páginas sem sair do lugar, isso começa a se tornar maçante… mas se você sobreviver a isso vai encontrar um romance bem mais interessante em seus 2/3 restantes, porém mais tradicional.
Tudo acima é mudado com chega de Stoltz, para mim o personagem mais interessante do romance, que chacoalha a vida de nosso herói e o força a sair de seu retiro para aproveitar a vida, vide que se aproxima do meio da mesma. Nesse pequeno chacoalhão ele vai conhecer um cantora ópera, Olga, que vai mexer com sua vida e lhe abrir a porta de felicidade e mostrar finalmente um motivo válido para se viver. As partes 2 e 3 focam especificamente nos desdobramentos deste romance, e aí apesar de se tornar uma história de amor cheia de elementos comuns, ela é muito mais prazerosa e interessante que a primeira parte do romance. E mesmo que Olga não seja uma personagem dotada de uma personalidade que nos façam se apaixonar por ela, assim como Oblómov, eles constituem um dos casais mais bonitinho do Romantismo. Devo confessar que não entendia como esse romance se encaixava no movimento até o aparecimento de Olga, pois me parecia um grande estudo sobre o tédio em sua primeira parte. Mas com Stoltz e Olga dão uma injeção de ânimo a narrativa! O próprio Oblómov se torna um personagem mais gostável a partir da aparição de seu amigo alemão. Entretanto, em sua imobilidade do começo da narrativa, Oblómov conseguiu fazer uma grande besteira que vai repercutir com mais força na quarta e última parte da epopeia e o fato de não termos simpatizado com o gordinho que vive deitado, para mim, foi um fator decisivo no final do romance.
É injusto dizer que você só fica entediado na primeira parte do romance. Pois você fica também irritado com o herói, pois um de seus vizinhos, Tarantiev, é uma pessoa odiável, contudo ele o recebe em casa e firma um contrato louco de aluguel de casa, que só vai piorando sua situação financeira com o passar do tempo. Esse é o tipo de personagem pilantra que é impossível do leitor gostar, ele está se aproveitando de Oblómov e vai até o final do romance assim, e mesmo quando é finalmente confrontado já é tarde demais para a situação do nosso querido monarca… ah sim. Você percebe que isso é uma obra romântica por excelência em seu final, onde a possibilidade de felicidade em conflito com o mundo exterior é impossível.
Sem spoilers, mas já preparando o leitor, a história de Oblómov não é feliz, muito pelo contrário é o puro retrato como seu começo denúncia de um estudo sobre a queda do monarquismo. Oblómov, que começa como um ser com muito dinheiro e pouca ação no mundo é retirado para viver por um breve instante com Olga e depois ser jogado, ainda que por suas próprias falhas, em um redemoinho de dor, que é coroado, ou seguido, pelo escoamento de seus recursos o levando a pobreza. Há uma centelha de esperança em seu final, mas não com seu personagem que é um romântico trágico por natureza.
Seria um tour de force pela decadência social, contudo para que tal aconteça é necessário um personagem muito forte e inesquecível para que nos conduzisse nessa viagem, mas Oblómov foi fraco em tornar essa condução mais sensorial de sua perspectiva. Ele é demasiadamente ingênuo com o mundo a sua volta de uma maneira que faz Dom Quixote ser somente são. Isso acaba me fazendo ver sua degradação no final do romance mais como um consequência lógica de sua alienação do que do que um fato triste de ver alguém que lutou contra o mundo ser derrotado no final. Nesse ponto Quixote é mais feliz ao trazer a sua loucura para perto do leitor. A alienação de Oblómov simplesmente não desce na goela do leitor e você fica mais questionando o porque de alguém não sair da cama.
Clássico obviamente são ditados pela época que se vive, Oblómov é um clássico sim, mas daqueles que para nossa época não faz tanto sentido a não ser quando se tem  em mente a situação social de sua escrita, mas um livro deve se manter atemporal pela força de sua história, e nesse ponto o livro Gontcharóv tem uma história simples demais para as 700 páginas de sua leitura. É um bom livro, talvez excessivo pelas convenções da época, mas não tem personagens ou história para se tornar inesquecível. Uma leitura interessante mas eu aconselho para aqueles que visitem as páginas de sua história uma preparação para seu 1/3, pois ele é bem repetitivo. Para aqueles que passarem dessa dificuldade poderão um encontrar uma bela crônica sobre a Rússia do século XIX.
Oblómov
Autor: Ivan Gontcharóv
Tradução: Renato Poggioli
Editora Cosac Naify
736 pgs

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