O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

“Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer em coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual vivia, não podia fugir de coisas e nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinha prazer nas coisas que me deixavam feliz.”
Página 169

Talvez as lembranças da nossa infância sejam ainda mais importantes do que imaginamos. Ou que tudo o que aconteça em nossas vidas adultas sejam reflexos ou ecos de momentos da infância. Como se em nossas vidas existissem um momento onde a fantasia (ou magia?) é quebrada e o que fica a partir de então seja a dura realidade da vida

Falar de alguma forma sobre o rumo que nossas vidas tomaram, o fim da magia e da fantasia depois de ler um livro tão belo, nostálgico como esse O Oceano no fim do caminho, livro mais recente de Neil Gaiman, parece contraditório. Gaiman talvez seja um dos poucos escritores que conseguem conciliar a fantasia  e o nosso mundo real como se fosse uma só coisa, de uma maneira sutil e precisa.


O começo do texto pode parecer meio pessimista, mas não era essa a intenção. É que cada livro de Neil Gaiman, parece te levar a lugares que jamais imaginamos ou talvez já seguimos por aquele caminho, só havíamos esquecido.

O Oceano no fim do caminho, primeiro romance adulto de Gaiman desde 2005 (Os Filhos de Anansi, uma continuação de um personagem de Deuses Americanos), começa com um homem adulto voltando a cidade da sua infância para um funeral (sempre acontece com todos, mas a perda de alguém querido quando já temos um entendimento de como o mundo funciona é de certa forma um desses momentos de ruptura) e depois de dizer as palavras certas, começa a vagar de carro:

“Eu sabia que era hora de ir para a casa movimentada e acolhedora da minha irmã, toda arrumada e preparada para a ocasião. Conversaria com pessoas cuja existência eu apagara da memória havia anos, e elas perguntariam sobre o meu casamento (fracassado dez anos atrás, um relacionamento que foi se desgastando lentamente até que um dia, como sempre parece acontecer, chegou ao fim(, e se eu estava namorando alguém (não estava; não sabia se conseguiria, não por enquanto), e perguntariam sobre meus filhos (crescidos, com suas próprias vidas, queriam muito ter podido vir), e sobre meu trabalho (o trabalho vai bem, obrigado, eu diria, sempre sem saber como falar do que faço. Se conseguisse falar, não precisaria fazer. Eu faço arte, às vezes arte verdadeira, e às vezes isso preenche os espaços vazios da minha existência. Alguns. Nem todos.) Falaríamos sobre os que já se foram. Nós nos lembraríamos dos mortos.”
Página 12

Ainda no carro ele começa a tomar um caminho que ele acreditava não se lembrar mais: A Fazenda das Hempstock. Mas ao pisar na fazenda é como se o tempo não tivesse passado e logo se lembrou de como chegar ao lago que havia no fundo da casa, mas pensando bem não era bem um lago, pois a dona dele chamava de Oceano.

Quando tinha 7 anos, ele não tinha muitos amigos e sempre procurava refúgio nos livros. Ele se lembra bem do dia que o carro do pai havia sido roubado, mas foi encontrado rapidamente no fim da estrada que dava para a fazenda. No carro um homem se suicidou e na tentativa de afastar o garoto que ficou impressionado, ele é levado à fazenda. Lá ele conhece uma garota um pouco mais velha chamada Lettie.

Lettie Hempstock é uma garota que aparenta ter 11 anos, mas tem uma sabedoria e uma sensibilidade que não parece ser muito normal. A família Hempstock parece ser diferente do normal.

Contar mais que isso seria injusto com o livro e a história que merece ser lida. Basta dizer que Lettie vai ensinar o valor da amizade, família, a escuridão, o sacrifício entre tantas outras coisas que fica difícil de explicar.

O Oceano no fim do caminho é daqueles livros que quando você acaba, passa um bom tempo ainda dentro da história. Como que paralisado em sensações e pensamentos que remetem a vários momentos das nossas vidas. Como se conseguimos enxergar uma espécie de véu que separa a inocência que pensamos ver na infância e todo o resto. A Magia e a realidade, lado a lado, como se fossem uma só.

Gaiman é um dos favoritos d’O Espanador e sem dúvida um dos meus preferidos (está no top 3), e a cada lançamento sempre gera uma expectativa que nem sempre sei separar da leitura, mas esse O Oceano no Fim do caminho foi diferente. Ao mesmo tempo que ele tem tudo a ver com a obra de Gaiman, ele é uma experiência muito pessoal, como se fosse uma confissão, uma história que precisava ser contada, compartilhada.

Até por toda essa expectativa e essa impressão das condições do livro, tive que encontrar um tempo só para ele. O lançamento foi em junho, mas não consegui começar a história. Até que chegou um momento que a narrativaveio ao meu encontro, e aá não teve jeito: mergulhei de cabeça e se puder façam o mesmo. Vocês não vão se arrepender.

Ps. Foi lançada uma edição especial e super limitada em inglês ilustrada pelo Dave McKean (parceiro de longa data de Gaiman) e autografado pelo autor (não encontrei mais essa edição na Amazon). Segue algumas das imagens:

O Oceano No Fim do Caminho
Neil Gaiman
Tradução: Renata Pettengill
Editora Intrínseca
205 páginas
Mais informações aqui

4 comentários em “O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

  1. eu amo esse livro, foi com certeza uma das minhas melhores (se não a melhor) leitura de 2013. Gaiman é incomparável quanto mistura realidade e fantasia, mas esse livro é tão sensível e introspectivo, acredito que um momento diferente na obra do Gaiman.
    Eu ainda não sei como me expressar sobre esse livro, mas também fiquei como que pensando horas depois que terminei, digerindo, raciocinando e interiorizando tudo aquilo.
    É lindo demais !
    bjos

  2. Meu namorado me deu esse livro (e A Sonata Kreutzer, do Tolstói) de presente de aniversário, mas ainda não consegui lê-lo. Depois da sua resenha eu senti aquela fagulha que sempre nos pega quando devemos iniciar uma leitura. Talvez seja a hora de lê-lo. Vocês saberão, se isso realmente for verdade.
    Beijinhos e parabéns pela delicadeza da resenha. Ela nos faz sonhar! <3

  3. Esse foi o primeiro romance do Gaiman que li e ele simplesmente arrasou comigo!!
    Um dos melhores desse ano, com certeza, bem como da vida!
    E pra mim foi dificílimo conseguir falar e escrever sobre ele, K.!!
    Parabéns, adorei o que pontuou!! E essa edição ilustrada? ô vontade!!! ;o)

    Xerinhos!

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