Fábulas Completas – Esopo

 
fábulas183 – Os inimigos
 
Dois inimigos entraram num mesmo navio para fazer viagem. E, como eles desejavam ficar bem longe um do outro, um foi correndo tomar assento na popa, enquanto o outro ficou na proa. Foi então que sobreveio uma tempestade violenta e, como o navio ameaçasse ira pique, aquele que estava sentado na popa perguntou ao piloto que parte do navio corria o risco de afundar primeiro. Ao ser informado de que era a proa, disse: “Mas, no que me toca, a morte deixa de ser uma coisa tão triste, já pelo menos verei meu inimigo se afogar antes de mim!”
 
Assim,alguns homens, movidos por alguma hostilidade contra o próximo optam por sofrerem eles próprios algumas desgraças, em vista, da chance de ver o outro se desgraçar.
 
pág 273
 
Para os mais conservadores que estão vendo a explicação da fábula no trecho acima, não se preocupem, pois esta vem na lateral da mancha (o que não é possível para mim reproduzir aqui), você tem que virar o livro se quiser a interpretação canônica da fábula, isso se quiser, você pode ler todas as fábulas se aventurando por sua conta e risco pelo mundo de Esopo. Não existe tanto risco assim, vide que a nossa querida raça humana, como pode ver nessa fábula brilhante, não mudou quase nada em 2500 anos desde que o mais famoso escravo da Grécia declamava sua imaginação.
 
Existe um grande sentimento de nostalgia para mim quando se falade Esopo, pois um dos primeiros livros que conseguia ler sozinho (e ainda tenho na minha estante), era uma pequena coleção de fábula com a ilustração da Lebre e tartaruga na capa. Pela brevidade e facilidade de leitura esse foi, se a memória não me engana, o primeiro livro que efetivamente li. Também me lembro de acompanhar na Cultura uma animação tridimensional com as raposas, leões e animais falantes que ainda reforçavam ainda mais meu entendimento das histórias. Bons Tempos, Pearl Jam era novidade, Cobain estava vivo…agora o tempo passa e as edições mudam! Ainda bem, ao ver a recente edição da Cosac foi amor à primeira vista com a oportunidade de reler e relembrar. Nesses pontos que você vê realmente que o tempo passa, se o Pearl Jam hoje lança um disco bem diferente do que fazia no começo dos 90, Cobain é mais lembrado pelo mito do que pelo música, Esopo que antes constitua muito da minha infância agora me parece muito mais um fabulista cinicamente constituído para minha vida adulta.
Contudo… não caiam na prosa desse narrador. Eu persegui várias versões de Red Ridding Hood, para ler as entrelinhas pornográficas dos Grimm, e garanto que são divertidíssimas. Não é um choque para mim ler o Esopo sem os floreios e eufemismos, pois eu já sabia que era assim. Contudo, ao ler as histórias para adultos de Esopo ainda há aquela surpresa de canto de rosto ao perceber que há muito mais do que aquele universo infantil com animais falantes e alegorias nas entrelinhas, alias creio que para mim o mais interessante foram as histórias com personagens humanos em que as coisas são menos explícitas.
 
As edições “normais” costumam ser direcionadas para o público infantil, conforme aconteceu comigo, é uma maneira muito eficaz de se introduzir o prazer da leitura na criança, e isso significa que o recorte sempre é direcionado para as fábulas com animais, adaptações são feitas e as vezes são simplificadas. Obviamente já existem algumas edições com um recorte mais adulto, contudo o trabalho de edição da Cosac é muito bom e chama a atenção, muito mais do que o que já existia no mercado. Alias, esse modelo de edição de clássico poderia ser adotado pela editora pois fica perfeito com as propostas de design da mesma, muito mais do que a coleção pocket da Cosac. O livro é pequeno, com encadernação de tecido, com a capa texturizada entre a hardcover e o brochura, lembra bastante a primeira “edição especial” do Guerra e Paz, que era bem melhor e mais bonita que a normal, mas… chega de falar de design.
 
Os outros atrativos desta é a adição de 26 fábulas inéditas em português. Considerando que muitas, pela temática adulta, já são surpresa para o leitor não é identificável quais são as inéditas em si, mas isso também é relativo, conforme a introdução de Adriane Duarte exemplifica, o próprio processo de atribuir autoria à Esopo é complicado. A edição brasileira compilou duas clássicas edições completas gringas, a tradicional de Chambry e uma mais dubitável, a de Perry. então dizer que este é Esopo completo é o que se tem para hoje, mas nada impede que se atribuam mais fábulas no futuro. Mas estamos falando de um ser que viveu à 2500 anos, ter conservado quase 400 fábulas dele já é um feito e tanto, a Poética II de Aristóteles que o diga.
 
No mais, eu não gostei muito da organização ser alfabética, creio que quando você organiza uma coleção, seja ela de obras completas, há de se ter uma ordem para se dar uma personalidade à seleção, e se fizer errado será efetivamente xingado por isso, mas quando se adota o alfabético é algo certo mas que carece de personalidade. Isso é frescura minha eu sei, mas tenho que compartilhar.
 
O que não é frescura e é técnico, são as ilustrações. Uma ideia ótima de deixar o traço fresco e desenhar os animais com roupas e as vezes até partes humanas, para se reforçar a ideia de que eles são alegorias da vida, contudo há uma exagero as vezes com muita coisa desenhada ao mesmo tempo, e muitas que não correspondem a história, como em a “Lebre dentro do poço e a raposa”  uma história básica que deve estar em outras coletâneas mais tradicionais e qual ilustração para isso? Uma raposa com um pênis, fazendo xixi numa lebre dentro de uma privada! Você fica com um WTF na cabeça, isso só como exemplo. Logicamente é uma edição mais voltada ao público adulto, contudo com tantas ilustrações assim parece estar berrando “É SÓ PARA ADULTO!” e não precisa ser assim. Ou seja eu também não gostei das ilustrações como um todo, mas tenho certeza de que há quem goste, entretanto eu dou muito pouco valor para isso tipo de livro, mais vale o texto e nesse ponto o livro é fantástico e um ótimo livro presente para este fim de ano, pois é quase certeza de que todos já leram alguma coisa de Esopo mesmo que não saibam.
 
Vale a leitura.

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