Extraordinário – R. J. Palácio

Nunca vi o August como as outras pessoas o viam. Eu sabia que seu rosto não era exatamente normal, mas não entendia por que as pessoas que não nos conheciam pareciam tão chocadas ao vê-lo. Horrorizadas. Enojadas. Assustadas. Há muitas palavras para descrever o olhar delas. E por muito tempo não entendi. Ficava louca: louca quando ficavam olhando, louca quando desviavam o olhar.
“Estão olhando o quê, droga?”, eu dizia as pessoas, mesmo aos adultos.
Então, quando eu tinha uns onze anos, fui passar quatro semanas em Montauk com a vovó enquanto o August fazia uma grande cirurgia no maxilar. (…) Eu estava tão feliz lá! Acho que devem ter sido os melhores dias de minha vida.
Voltar para casa depois de quatro semanas foi muito estranho no começo. Lembro-me muito vividamente de cruzar a porta e ver August vir correndo para me dar as boas-vindas, e de por uma fração de segundo enxergá-lo não do jeito como sempre tinha enxergado, mas como as outras pessoas o viam. Foi apenas um flash, um instante enquanto ele me abraçava, completamente feliz por estar em casa, mas fiquei surpresa porque eu nunca o tinha encarado daquele jeito. E nunca sentira aquilo: algo que na mesma hora fez com que me odiasse. Enquanto ele me beijava com todo o carinho, tudo o que conseguia notar era a baba escorrendo no queixo. E, de repente, ali estava eu, como todas aquelas pessoas que ficavam olhando fixamente para ele ou desviando o olhar.
Horrorizada. Enojada. Assustada.
Ainda bem que durou um segundo: no momento que ouviu a risadinha estridente de August, tudo acabou. Tudo voltou a ser como antes. Mas aquilo havia a aberto um porta. Um pequeno olho mágico. E do outro lado havia dois Augusts: o que eu enxergava cegamente e o que as outras pessoas viam.
Pág. 92-93
Da parte de Via.

Ser a pessoa fisicamente diferente dentro da escola é uma experiência ruim, se não traumática para certas pessoas. Somente depois de adultos que entendemos o por quê da uniformização. Eu odiava uniforme, mas eles diminuem as pequenas diferenças que podem se tornar gigantes quando se tem 10 anos, seja pelo tênis que usa, pela classe social que se vive, por uma cicatriz ou pequena deformidade. Crianças podem e são cruéis. Nosso herói de Extraordinário nada mais tem, desde nascença, que uma anormalidade crânio-facial e apesar de ter passado seus primeiro anos em casa este é o momento em que ele vai para o ginásio, mais especificamente o 5º ano do fundamental. Não será fácil para August…
Mas é bem menos intenso do que imaginei quando comecei a leitura, há um clima até em seus momentos tensos que me remeteram ao bom humor de  Pequena Miss Sunshine, onde mesmo com uma morte no meio do filme nada tira o Shine Happy People da trilha sonora… é nessa pegada que Palacio constrói sue conto moderno, apesar que na primeira parte do livro ele pareça um pouco repetitivo, isso só fará sentido estético quando começarmos a ver os outros pontos de vistas.

Sim. este é um romance juvenil que consegue lidar com impressionantes 6 vozes narrativas, todas diferentes entre si nas particularidades. Esse é um Faulkner juvenil então? Não. Esse recurso é bem menor para construir diferentes pontos de vista em relação a uma cena específica, mas para mostrar a evolução das pessoas ao redor do menino e do próprio menino, e também para complexar ainda mais a situação.
Explico. A primeira parte é a voz narrativa de August e suas percepções como menino de 11 anos que é sempre visado onde quer que vá, ele não se importa com todos se surpreendendo com ele, diz que é até normal, mas ele repete isso com cada nova pessoa que encontra, e descreve o olhar e como aquela pessoa se chocou e como a outra fingiu, ou seja essa parte é um pouco maçante. Mas quando as crianças entram na história para apresentar o menino ao novo colégio, as coisas começam ficar um pouco mais dinâmicas: O comitê de boas vindas é formado por Julian, um menino que finge ser um bom aluno quando está perto do adultos e é um crápula sozinho (quem não conheceu um desse?), Charlote, a mais inteligente da turma que está em qualquer lugar para aparecer (quem nunca conheceu?) e Jack Will, o bruto porém simpático que não está nem aí (quem nunca foi… quer dizer, conheceu?). Nesse momento que você começa a ver o contraste entre o personagem principal inocente, e as demais crianças: Ele será devorado.
Nesse ponto você também pode ficar um pouco incomodado com a insegurança do personagem. Qualquer um que sofreu discriminação na escola, se levantaria com mais força que August. Contudo não devemos esquecer que a interação com a sociedade também é uma brincadeira diferente para o personagem e considerando que ele nunca se descreve, não sabemos exatamente qual é o tipo de problema que ele tem no rosto. Ele solta que não tem orelhas aqui, mais tarde como ele come devido ao problema no maxilar e você fica intrigado. E quando vem a primeira grande crise, a fragilidade do personagem nos faz pensar se ele sobreviverá a isso. Aí autora corta inteligentemente para o ponto de vista de outros e após conhecermos o August nu e cru de seus pensamentos, nós surpreenderemos com estes personagens e em como ele evolui. Como ele conseguiu?
A primeira é Via, o diminutivo de Olivia, com toda fúria pela situação e muito menos tolerante que o irmão, no trecho acima ela descreve seu momento de dúvida que é um dos elementos mais humanos e interessantes, pois todos esses coadjuvantes vão problematizar o relacionamento com August. Também é na parte dela que temos a descrição do rosto do nosso herói, e quando você acaba ele ainda é um tanto inimaginável mas bem real e você começa a compreender melhor o por quê de tanto receio, pois basicamente nada em seu rosto é “normal”, e o fato de você tentando fazer uma imagem de seu rosto vai acompanhar o romance inteiro até seu final em que uma metáfora faz você entender o exato formato de August. E assim como os personagens, você entende o ponto do livro.
Ainda na lista de narradores, temos Summer, a primeira amiga a se aproximar do herói de verdade e Jack Will, seu melhor amigo a princípio forçado mas tem o arco dramático principal do livro, personagem ao qual eu me identifiquei bastante. Obviamente o menino diferente na classe vai dividir opiniões e formar uma pequena guerra de popularidade na classe, com direito a brigas, bilhetes malcriados e várias referências a Star Wars, filme preferido de August, o que é sempre bem vindo. Também temos Julian, namorado de Via, que para mim acrescentou muito pouco à história e Miranda, uma antiga amiga de Via que gosta muito de Auggie, uma personagem bem interessante que poderia ser mais aprofundada nessa relação de irmã de espírito. E temos também o próprio Herói que volta no final, mas ele é um personagem bem diferente daquele que encontramos no começo, muito mais sociável e divertido do que o menino que só sentia pena de si.
Essa evolução é brilhante na maneira como é contada, pelos outros narradores. Isso permite a surpresa do leitor e também o horror das situações nas entrelinhas que August nem ficou sabendo, como a mãe de Julian que ameaça o diretor de estar mudando a escola para ser “inclusiva” e como isso era ruim para ela (what?!?). Ou na parte de Jack, que descobrimos que a mesma dita cuja, pegou a foto da classe e excluiu August via Photoshop, dentre outras bizarrices que a história só consegue ser crítica e forte deixando o personagem de lado e mudando o foco.
Absolutamente fantástica a construção e uma história muito tocante que pode levar o leitor às lágrimas. Fica a dica aos mais sensíveis, e também é um tratado sobre as várias faces do bullying. Apesar de seu tema extremo, a situação e os contratos entre as crianças no quinto ano são tratados com realidade pela autora, o bom é que apesar de mostrar o bullying em sua forma mais cruel, ela aponta a solução vindo das próprias crianças e da-lhe Shine Happy People
Vale a leitura. Smiley piscando
Extraordinário
Autora: R.J. Palácio
Tradução: Rachel Agavino
Editora Intrínseca
320 pgs

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