Trabalhadores do Mar, Os – Victor Hugo

De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cansaço. Os grandes mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de pústulas.
Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo que mata. Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as folhas de cocleária selvagem, magras produções das fendas secas do rochedo. Mas ocupava-se bem pouco com o sofrimento. Não tinha tempo de distrair-se do trabalho para cuidar de si. A máquina da Durandé estava de saúde. Era o que bastava.
A cada momento, para necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na água e saía, como se passa de um quarto a outro.
As roupas já lhe não secavam. Estavam em bebidas de água da chuva que não parava e da água do mar que não seca nunca. Gilliatt vivia molhado.
Viver molhado é um hábito que se adquire. Os pobres grupos irlandeses, velhos, mães, raparigas quase nuas,crianças que passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos ângulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.
Estar molhado é ter sede; Gilliatt suportava essa tortura estranha.De quando em quando, mordia a manga da japona.
O fogo que ele acendia não o aquecia: o fogo no meio de um grande espaço arejado é um meio de socorro; seca-se de um lado, umedece-se de outro.
Gilliatt suava e tiritava.
Tudo lhe resistia em roda dele numa espécie de silêncio terrível. Ele sentia o inimigo.
As coisas tem um sombrio Non possumus. (Não podemos)
A inércia delas é um lúgubre advertência.
Imensa má vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava-o a água,a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupo, a fome mina-lhe o estômago. Ele suportava a opressão em um conjunto fatigante. O obstáculo, tranquilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade. gilliatt tinha consciência de um desprezo sombrio e de um ódio que fazia esforço para diminuí-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que ficava, tinha que lutar com hostilidade impenetrável. Não podendo po-lo fora dali, punham-no debaixo dos pés.
458-459

Semana passada discutíamos no nosso Clube de Leitura os desdobramentos da força da natureza em As Nuvens, de Juan José Saer. O que mais me chamava a atenção na obra do argentino era o fato de conseguir emular as características da escrita do século XIX, não em vocabulário, mas em construção de um relato que poderia ser tentado com tendência modernas como a sociologia, psicanálise entre outros lugares comuns. Lembrei instintivamente de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, por alguns outros motivos, mas percebo agora que essa briga do homem com a natureza poderia ter me levado a toda a obra de Conrad, parte da de Zola, ao eterno Moby Dick e a este quase esquecido clássico de Hugo, como que para dizer que a Natureza era o grande desafio da humanidade no fim do século XIX.

Um de meus mestres, Georg Luckács, dedica um livro inteiro para explicar o romance como uma relação entre o herói e o mundo em que vive. Apesar de ser bem fácil de ler, a Teoria do Romance, proposta por ele pode ser grosseiramente resumida a isso. Hoje temos o mistério de nossa própria mente como o canalizador da aventura romântica, a quantidade de romances subjetivos nunca foi tão grande, isso por que o mistério é quase nulo para as mentes contemporâneas tanto que a fantasia e a ficção científica são escapes ainda mais fortes no século XXI. Entretanto antes das revoluções industriais/tecnológicas apesar de todo o racionalismo que o iluminismo e a queda da monarquia iam proporcionando, ainda havia um campo que seduzia por sua força, e impressionava pelo mistério: o Mar.

Se Mellville e Conrad são os ápices dessa literatura, ela foi tão prolífica quanto os romances de cavalaria no século XVI ou os policias na atual era. O belo romance de Hugo entretanto, assim como toda a sua obra, é um anti-romance marítimo, ainda que seja um dos mais aflitivos estudos do homem contra a natureza.
Tenho a opinião que a obra de Hugo é um eterno questionamento sobre as formas românticas que imperavam na época, não ao ponto de se filiar ao Realismo, que já estava em pleno vapor na época, que escreveu sua produção mais conhecida, mas ao ponto de construir um literatura única que vai ao limite do que era o romantismo, tanto é que quando falavam em Condoreirismo nas divisões do romantismo é basicamente uma  tentativa de enquadrar Hugo na divisão Romântica.
Em seus romances os personagens principais estão a margem da sociedade, flertam com a estrutura romântica mas tem desfechos ainda mais cruéis que o wertheriano dos mais efusivos. A realidade da condição social também sempre pontua, e apesar desta ser um obra que fala sobre a solidão e a natureza, há silhuetas de melancolia na situação de seu herói e muitas pinceladas políticas, pois na época em que escrevia este Hugo estava exilado na ilha em que cria sua história: Guernesey.
Os trabalhadores do mar também complementa uma trilogia temática iniciado por Hugo com Notre Dame de Paris, que é conhecido aqui como Corcunda de Notre Dame, esse primeiro livro criticava os males do espírito, com uma alvo central na religião. Os Miseráveis seria o segundo ananke (fatalidade em grego) em relação a falência das leis e este o terceiro, que está seguindo  introdução de Hugo, relacionados “as coisas”, mas isso para mim é muito amplo, o que lê quer dizer é o estudo sobre a fatalidade da Natureza. Todas essas por sua vez tem a maior das fatalidades no centro: o amor.
Para falar sobre a Natureza, ele pega o gênero popular da literatura marítima e vira-o do avesso. Aqui a luta contra a natureza não é um acaso e sim um trabalho buscado pelo herói do romance, Gilliatt. Todas suas provações e o famoso embate com um polvo gigante são parte de um acordo para salvar um embarcação encalhada e quase destruída em uma ilha, e como para reforçar o simbolismo da briga do homem contra a natureza, há o fato irônico de que a embarcação, chamada de Durande, é na verdade um dos primeiros barcos a vapor e um bem de muita valida para o outro personagem principal do romance, Mess Lethierry. O simbolismo nas obras de Hugo é impressionante, o personagem principal vai salvar da destruição um barco que é a própria encarnação de que natureza pode ser domada.
A expedição de Gilliatt é solitária, seu trabalho beira o impossível e o consome mentalmente e fisicamente como o trecho em destaque demonstra de leve. Fato é que a segundo parte é a alma do romance, onde toda a angústia da situação é passada de maneira constante ao leitor. Enquanto a primeira parte é mais extensa e constrói os dois personagens principais e a situação que fará Gilliatt empreender suas tarefas.
Faço questão salientar que são só dois personagens, pois esse romance difere bastante dos dois primeiros da trilogia, uma vez que aqui é claro que há dois centros na narrativa. Em Notre Dame e Miseráveis há um porrada de personagens que podem ser considerados principais (e por isso que eu não gosto da tradução Corcunda de Notre Dame, Quasímodo é legal mas não é necessariamente o personagem principal). Aqui Gilliatt é um homem recluso, órfão, que vive com um pequena fortuna apesar de se vestir como pobre, seu grande hobby é pescar e viver em sua casa, que é vista como mal assombrada pela a população. Mess Lethierry, é um homem que viveu sua vida no mar e revolucionou os negócios ao construir a primeira embarcação a vapor. Estes dois são os ditos cujos do título, que apesar da diferença de idade e pontos de vista sobre como dobrar o mar, eles são tão similares nessa paixão pela água que chegam a se confundir. Eles são restos de uma cultura que estaria para acabar, o próprio romance faz isso ao não pintar uma idílio e sim um choque de realidade com a dureza e sofrimento de Gilliatt.
Por ter só esses dois personagens, apesar de ter uma longa introdução no primeiro livro oscilando no tempo/espaço, e alternando personagens como ele faz muito bem, há uma impressão de ser um romance mais linear. Um exemplo é que em Notre Dame uma cena acaba, como a de Quasímodo sendo recepcionado como “Rei” e aí você é lançado para outros lugares e personagens, 200 páginas depois você volta a sua conclusão sob um ponto de vista e isso acontece o livro inteiro. Isso é uma característica dos folhetins e logo do Romantismo, mas de longe Hugo é que imprime melhor essa segmentação da narrativa, entretanto Trabalhadores é mais simples nesse aspecto.
Ele se constitui com poucas mudanças bruscas e delineia o caso que colocará Gilliatt em briga com a Natureza, o acidente com a embarcação e seu “voluntarismo” para a missão. Isso porque nada é de graça nessa vida, Mess Lethierry promete a quem conseguir trazer de volta o motor a vapor, a mão de sua sobrinha que nada mais é que o amor platônico de Gilliatt.
Nesse ponto que a veia romântica pula mais forte no pescoço de Hugo, mas não para celebrar o amor e sim para questioná-lo em seu simbolismo. O que Gilliatt quer não é somente dobrar a natureza selvagem do ambiente, mas dobrar também a natureza do amor. A terceira e curta parte é a resolução dessa ideia, e como em toda a obra de Hugo ela é ao mesmo tempo bela e cruel com seus personagens.
Na edição presente, a Cosac manteve a tradução de Machado de Assis, que foi feita junto ao lançamento da obra, em 1866. Não gostei muito dessa ideia, pois algumas expressões mudaram muito como no trecho em destaque há “em roda dele”, que se tornou, em português moderno, “em volta dele”. Isso fica pulando na minha cabeça toda vez que leio, mas não podemos reclamar do Machado em si. Mas a parte legal é que há além de ilustrações de Hugo, dois textos que estavam programados para complementar o título mas nunca saíram oficialmente por ordem do editor. A primeira eu concordo com ele, “Arquipélago da Mancha”, que explica em detalhes a ilha de Guernesy. Com certeza se você gostou muito da história é um ótimo “extra”, mas também pode ser maçante pois é bem extenso. O segundo poderia ser o começo da segunda parte, pois é uma grande resolução filosófica sobre a questão natureza intitulada “O Mar e o Vento”. É muito bonito e está no final como um posfácio, o que não interfere na estrutura original da obra, mesmo porque a tradução de Marília Garcia para ambos deflagra claramente as diferença com expressões da de Machado, então nem daria para colocar no meio do texto sem  causar estranhamento.
Em suma, Os trabalhadores do mar é um grande clássico da literatura, agora em uma edição digna de sua importância, às vezes injustamente esquecido pois as duas primeiras partes da trilogia foram mais popularizadas com filmes e adaptações, mas em que nada deve a estas e a genialidade de seu autor, que para mim é o grande escritor francês do século XIX e que me perdoem Stendhal e Baudelaire.
Os trabalhadores do mar
Autor: Victor Hugo
Tradução: Machado de Assis
Editora Cosac Naify
704 pgs

4 comentários em “Trabalhadores do Mar, Os – Victor Hugo

  1. Ótima resenha. Eu iria comprar o livro de qualquer maneira, já que sou meio fanboy da Cosac, mas sempre dou um pulo n'O Espanadores para saber a opinião do pessoal aqui.
    Aliás, nunca mencionei antes (provavelmente por relapso), mas saiba que acompanho o site faz bastante tempo e o trabalho que é feito aqui é digno de palmas e elogios. Parabéns pelo blog espetacular! Continuem assim que vocês fazem a alegria de muitos seguidores como eu.

  2. Otima resenha!! Eu gosto muito desse livro, apesar do peculiar final que me abalou muito. Na verdade, eu acabei descobrindo o que aconteceria no final, antes de chegar na metade e eu lrecisei de muita força de vontade, para não corar enquanto lia. Uns dos meus capitulos favoritos, é “garrulices e flúvios” sendo o 1 paragrafo.

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