Frankfurt 2013 – Relato de um viajante

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Ao andar pelas ruas da chuvosa cidade alemã semana passada, por vezes via um carrinho de som entoando a última flor do lácio aos ouvidos daqueles estrangeiros. Mas não era um Chico ou Caetano que versavam em Frankfurt, e sim uma mistura estranha de axé-funk-e-similares que eu, aliás, tenho muita dificuldade em identificar. Ninguém parava para apreciar, ou mesmo para dançar – o que se acontecesse seria muito engraçado na minha humilde opinião – mesmo porque as músicas que escutei não eram de uma qualidade muito apreciável, mas pode ter sido azar meu, uma vez que os quatro dias que passei lá não seriam nem metade do suficiente para ver toda a produção que estaria na cidade divulgando a cultura brasileira. Mas o que vi não era nada menos similar que a cidade de Brasília, Copacabana, nosso projeto somente estético para a Copa ou nossos filmes de exportação que conseguiram o milagre de transformar a miséria/favela em uma aventura exótica. Ou seja, o Brasil para estrangeiros ver que nada se assemelha ao nosso Brasil cotidiano.
Felizmente tivemos nossos escritores que conhecendo essa realidade resolveram incendiar as discussões a respeito do Brasil.
Na cidade devo informar que entre os brasileiros o discurso de Michel Temer pela esquisitice da fala, que abrangeu até mesmo suas tentativas poéticas e erros de Ministérios, era muito mais comentado que os outros. Ao chegar no Brasil entretanto, descobri que os holofotes aqui estavam em Luiz Ruffato, o que demonstra que a ferida que ele tocou é muito mais brasileira que europeia. É difícil quando jogam na cara coisas que queremos esquecer, principalmente de maneira tão direta como ele o fez na abertura. Assim como Junger Boss, o diretor de Frankfurt, falou em seu encerramento sobre que a perspectiva do alemão para o povo brasileiro havia mudado, que para eles o Brasil era um lugar onde 90% das pessoas não trabalha e são alegres, isso se deve ao fato de Luiz Ruffato e outros escritores terem mostrado essa face mais cruel de nosso “pequeno” país.

Há aqueles que estão batendo no peito que defendem as ideias do Ruffato, como a grande maioria que acha que eles está equivocado. Assim como os melhores filmes, o discurso de Ruffato dividiu muito as pessoas, o que é ótimo do ponto de vista de marketing, pois aqui estamos nós, uma semana após este fato, ainda discorrendo sobre. Mas ruim na essência da proposta, uma vez que essa não é um obra subjetiva e sim um discurso que deveria ser, e é em certo ponto, objetivo.
Então calme lá. Na verdade eu não estou dizendo que gostei do discurso, aliás se for olhar de um ponto de vista analítico eu não gostei, mas do ponto de vista de quebra de paradigma acho que foi essencial para instigar a outros escritores a apresentar um ponto de vista mais social como Férrez, Ubaldo, Paulo Lins e até mesmo o CEO da Canongate, entre outros sobre nossa terra de extremos chamada Brasil.
Assim como o que conheço de romance de Ruffato, o seu discurso foi um boa ideia mas cuja a execução deixa a desejar, pois ao invés de mostrar um país de desigualdade constituído historicamente de paradoxos, o discurso de Ruffato só pinta um Brasil horrível em todos os aspectos só salvo por uma “democracia” recente que pode ser a luz no fim do túnel. Substitua Brasil por Nigéria, ou algum país africano recém constituído, e caberá como uma luva. Mas todos nós sabemos que o Brasil é mais complicado que isso. Ao salientar nosso racismo e preconceito, ele parece crer que o Brasil é diferente da maioria dos países. Ao colocar a democracia atual como salvadora, mostra uma crença ao nosso regime político quando a própria palavra democracia em nosso país merece um olhar mais crítico.
Em suma, o discurso de Ruffato é contundente com nossa realidade mas sua forma apresenta-se como uma série de estatísticas ruins do nosso país e um desfecho lúdico de que o livro para ele pode transformar tudo isso. O discurso é fraco em construir alguns aspectos essenciais das nossas contradições, que podem ser expressas na situação em Frankfurt: enquanto toda a montagem do evento quer demostrar uma país internacional e bom, o eufemismo, as palavras do escritor mineiro querem construir um monstro, que é uma hipérbole. A verdade obviamente está em algum lugar do meio. Nesse ponto o belíssimo filme Flores Raras em um cena exprime melhor nossas contradições, quando Elisabeth Bishop faz um discurso logo após o Golpe Militar e decreta “vocês são um país estranho, quanto mais tempo vivo, menos entendo. Vocês acabaram de perder sua liberdade e saem nas ruas para festejar como se nada tivesse acontecido.”
Há quem explique, querida Bishop, mas o fato palpável é que apesar de todas as críticas e a exposição social apresentada em Frankfurt, o que é muito bom a meu ver, a feira é na verdade um palco gigantesco de negócios. E segundo as estáticas apresentadas ao final de feira, foram vendidos direitos para o exterior três vezes mais do que o mesmo período ano passado. O que significa que terá mais gente lendo nossos autores nos próximos anos no mundo.
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Outras coisas interessantes que vi durante minha passagem por lá foram as estatísticas da Bookscan que já tem 60% do mercado livreiro brasileiro mapeado no momento e mostra que os supermercados são um ponto importantíssimo para a difusão literária em nosso país, e que menos de 1% dos livros publicados nesse ano representam boa parte (70%) do comércio geral de livros. Também divulgaram que os e-books brasileiros além de best-sellers tem uma estranha tendência a vender mais para os livros de filosofia e ciências sociais. Não peçam explicações, eu não entendi ainda… e obviamente o Brasil proporcionalmente a seu tamanho tem um número muito pequeno de livrarias e leitores ativos, não era necessário nenhum instituto inglês com números aparecer para nos dizer isso, mas números são sempre legais.
Consegui passar no lançamento oficial do livro do Alex Atala em versões inglês e alemão. Aqui o lançamento será pela editora Melhoramentos ao final deste mês e corroborando a impressão de que culinária é o assunto em ascensão no Brasil, a festa do Atala teve direito a telão, vinho na faixa e uns minutinhos de conversa com o chef.
Também passei em algumas palestras mas o fato é que, nunca tinha notado que havia palestras no meio os halls antes, e isso porque elas são bem mal localizadas, com poucas cadeiras e um som que não atinge as pessoas que estão andando pelos halls, ou seja, nunca vai despertar a curiosidade dos transeuntes que passam por lá. A palestras do chefão da Canongate foi a mais interessante. Ele esboçou um pouco o que é se arriscar com publicações de risco, uma delas contarei no domingo, e sua experiência em São Paulo, abrindo mais os olhos das pessoas ali presentes, com um relato forte da condição violenta que impera na cidade.. isso eu conheço também. Havia também uma palestra sobre e-books no Brasil, mas ela acabou sendo bem aquém do esperado, uma vez que eles só falaram do Kobo e de como os clássicos são os principais downloads do mercado brasileiro que ainda está engatinhando no final.
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Junger Boss deu uma entrevista ao final que colou o ponto mais interessante para mim, a de que o mercado alemão, com muitas palestras, pode mudar sua perspectiva do país de gente feliz que é a imagem que é  vendida ao exterior. Em algum momento li na Ilustrada que uma jornalista estrangeira perguntou para Renato Lessa, diretor da Biblioteca Nacional, “Sempre ouvimos que vocês são felizes. Mas pelo que escutamos que vocês parecem tristes. Afinal você são felizes ou tristes?” apesar de duvidar que uma jornalista internacional tenha formulado uma frase tão ingênua, eu acredito no poder dramático da Ilustrada e isso não tira a genialidade da resposta de Lessa: “Somos os dois. Alguns sambas tem o ritmo alegre mas sua letra é triste.” Essa resposta deixaria Bishop ainda mais intrigada. Como disse no começo, somos complicados em essência.
O saldo comercial a princípio foi positivo pelo que li, o saldo social mudou a nossa imagem para parte do mundo e instigou discussões relevantes e isso é sempre bom para mim. O saldo que ficou devendo foi o nosso Ministério da Cultura desde as decisões do autores, a festa esquisita de abertura como nas decisões do que expor como as músicas que animavam as ruas Frankfurt e a decoração do hall do Brasil, que eu confesso não ter me detido tanto para analisar pois não deu tempo, minha função ali era outra e domingo eu encerro a série falando do que de bom: o que o mercado em geral deve nos mostrar nos próximos meses.
Até. Alegre

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