[Colaboradora] A passagem tensa dos corpos

Por: Andreia Arruda

“Eu reuni os mortos em uma longa listagem que, por inaptidão minha, não foi à página. Sou impedido de escrever. Oral, minha listagem mantém o registro de todas as mortes que acompanhei.

Aguardo agora, com expectativa, que mais um óbito se efetive. Houve um envenenamento, e a vítima está a sofrer.

Presumo que o homem tremente que arranha a barriga na minha frente não tenha tempo bastante para produzir súplicas e confissão, muito menos para obter o endereço correto do lugar destinado aos salvos e merecedores

     se é que este homem merece salvação. A má índole do veneno, espalhada por todos os órgãos do homem, está a digeri-los. Aposto em seu rápido excídio.

Quando o homem caiu, tonto de contaminação, ele tinha os dedos presos à toalha da mesa da sala de jantar.

   Levando-o, com um vaso de rosas, ao chão. Partiu-se o vaso, e os cacos espalharam-se pelo assoalho.

Na cozinha, a esposa está calada.

A filha continua deitada no sofá em um cômodo ao lado.

No quarto do filho, a porta bateu.

O envenenado contorceu-se até atingir um canto da sala e ali ficou.

Deixando com lentidão o sofá, a filha aproximou-se da mesa de jantar com um pano seco, enxugou a água do chão e colheu as rosas. Distraída, machucou-se com os cacos

     dois furos contíguos na sola do pé, e saiu novamente.

As contorções pararam. Onde estão os médicos, uma enfermeira, a esposa do homem, seu jovem filho, que não cheguei a ver, e a filha, que não retorna?

A  vida do homem terá termo. Seu sofrimento é evidente.  Aquilo que o constituía dentro

     alcança o exterior na forma líquida. Fora dele, aos poucos, parte do homem espalha.” pags 20-21


Seguindo a premissa de que adoro livros “diferentes”, o livro que falarei hoje, A passagem tensa dos corpos, para mim ilustra bem esta categoria, tanto em estrutura do texto, quanto a história em si. Para lê-lo você precisa se despir de toda e qualquer concepção sobre morte ou espírito. 

É a história de um Ser sem forma física (mas isso não quer dizer que seja um espírito) que precisa cumprir determinadas “tarefas” para recuperar a forma física. Porém, isso não é o mais estranho da história. Ele observa uma família composta por mãe, pai e dois filhos, um rapaz e uma moça, mas o pai está morto, e o filho jamais aparece, pois fica trancado no quarto. 

A maior parte da história acontece na sala de jantar, onde a mesa está sempre posta, inclusive para o pai, que apesar de morto, tem lugar reservado na cabeceira da mesa de jantar como todo bom chefe de família. Mãe e a filha passam toda a narrativa discutindo e cuidando dos preparativos do casamento da moça, que tem um pequeno detalhe, não tem noivo nenhum (oi?).

Entre as narrações deste Ser que observa esta peculiar família, mais especificamente as loucuras de mãe e filha, há uma espécie de obituário. Coisas do tipo: tantas pessoas morrem de tal coisa em Juiz de Fora, Patos de Minas, Poços de Caldas… A morte é um tema muito presente o tempo todo no romance, mas é tratada de maneira diferente do habitual.

Esse Ser tem uma relação muito forte com o paladar, ele descreve sensações como sentir o gosto da bebida que restou numa garrafa quebrada de um bêbado que dorme na rua, ou a fixação que ele tem pelas pernas da mãe da família, ao vê-la dormindo fica imaginando lamber as pernas lisas dela… Em meio a leitura você começa a imaginar este Ser como uma língua gigante, descrevendo assim parece muito bizarro, mas no decorrer do livro, envolto por este mundo do autor, você acha muito natural imaginar esta imagem. É um livro super rápido de se ler, recomendo muito a leitura para quem busca algo que o tire do lugar comum.


O autor nasceu em Belo Horizonte e é muito jovem, tem trinta e poucos anos. Em 2008 venceu o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura com o projeto que deu origem a este livro. Ele lançou este mês, também pela Companhia das Letras outro romance, mas ainda não li, mas pelo que soube a respeito, não tem muito haver com o A passagem tensa dos corpos

A passagem tensa dos corpos
Autor: Carlos de Brito e Mello
Companhia das Letras
256 pgs


Andreia Arruda: Publicitária de formação, curiosa por vocação. Cinéfila. Adora literatura diferente do convencional, autores novos e atualmente está visitando muito a literatura na América Latina. É muito eclética.

4 comentários em “[Colaboradora] A passagem tensa dos corpos

  1. Oi, Andreia, em 2011 fiz empréstimo desse livro e comecei a ler mas achei tão diferente [do que estava habituada] que acabei 'abandonando', mas sempre recordo que era um livro que me deixou muito curiosa e digo que preciso lê-lo futuramente.

    🙂

  2. Oi Maura, tudo bem?
    Acho que você deve mesmo retomar a leitura, o livro é realmente muito bom e intrigante, e o autor vai te conduzindo para a história deste Ser que você acha até natural. Coloca na listinha de prioridade, vale a pena.
    Beijos e obrigada 🙂
    Andreia

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