Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos – Alison Bechdel

Winnicott foi um dos pioneiros da teoria da relação de objeto. Freud via o indivíduo isolado, um ego que busca satisfação de pulsões instintivas e primitivas. Mas Winnicott é famoso por ter dito “não existe essa coisa chamada bebê …”

“Se me apresentam um bebê, é certo que também me apresentam alguém que cuida deste bebê …”

Ele via na relação mãe-bebê um paradigma para o que acontece entre Analista e Paciente. E ele utilizava sua experiência na análise dos pacientes para voltar no tempo e sonda a misteriosa vida psíquica do recém-nascido. Ele descobriu que é nesses primeiros dias que se determina a forma particular como nos relacionamos com os objetos – aliás, a forma como nos relacionamos com todo o mundo externo.  Mas Winnicott também acreditava ardorosamente no “desenvolvimento do indivíduo … desde que sai da mãe até a hora de sua morte na velhice”. 
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Em 2006 Alison Bechdel lançou Fun Home – Uma Tragicomédia em família, uma relato sobre o seu pai -professor de literatura e gay enrustido que se matou há mais de 20 anos, pouco tempo depois da própria Alisson ter contado para os seus pais que ela era lésbica. Tentar definir Fun Home dessa forma é muito simplista e não traduz a experiência que é ler essa história e conhecer a família de Alison.



Fun Home foi o primeiro quadrinho a ser o finalista National Book Critics Circle e foi reverenciado como o Livro do Ano pela revista Time. Já falei dele aqui n’O Espanador. E seria difícil falar do livro de hoje, Você é a Minha Mãe?, sem falar de Fun Home.

Em Você é minha mãe? Alison tenta entender a confusa e estranha relação entre ela e Helen, sua mãe. Só que a história começa quando ela ainda estava escrevendo o livro sobre seu pai e a dificuldade em colocar no papel um assunto tão delicado, sendo que um dos maiores obstáculo é exatamente Helen, que não quer ver sua intimidade exposta dessa forma. Não que esse seja o único motivo para a reprovação da sua mãe.

Helen e Alisson têm um relacionamento tão complicado, com uma dinâmica tão peculiar que fica claro que um dos motivos da própria autora ao escrever Você é Minha Mãe? é tentar entender essa relação. Só que isso também só veio depois de anos e anos de terapia, que também está presente na história. Ainda que essa compreensão tenha vindo depois de muito tempo e por uma série de motivos, é através da arte, do processo de escrita que a autora consegue encontrar uma certa ‘paz’. As aspas são extremamente importantes aqui, porque é impressionante ver como Alisson é preocupada, neurótica, insegura, humana e, em vários momentos, insuportável.

A forma como o livro é construído não é muito simples, seja por ele ir e voltar no tempo diversas vezes, ou mesmo por usar alguns outros recursos não muito comuns quando pensamos numa história sobre família totalmente autobiográfica.

Exatamente por usar essa estrutura desfragmentada que Alison apresenta é difícil traçar um resumo do que seria o livro, porque tudo parece estar acontecendo ao mesmo tempo (ainda que em vários momentos ela dê algumas dicas), mas mesmo assim vou arriscar algumas tentativas:

– Alisson começou a fazer terapia (e análise, que são diferentes, mas sou meio leigo com isso) há muito tempo e em todo o livro ela mostra conversas com suas terapeutas e como isso ajudou no processo todo;

– Através das sessões ela entrou em contato com autores/livros que seriam fundamentais para contar essa história;

– Os capítulos parecem seguir a linha de terapia e a forma com que ela conseguiu concluir e se organizar: 1- A Mãe Dedicada e comum. 2- Objetos Transicionais. 3- Self verdadeiro e Falso Self. 4- A Mente. 5- O ódio. 6- O Espelho. 7- O uso de um objeto;

– Entre os autores citados, Freud, Jung, Lacan, Alice Miller e Winnicott, o último é o que mais se destaca. Winnicott foi um psicanalista e pediatra britânico que acreditava que a personalidade é feita através das primeiras experiências e que não existe essa coisa de bebê sem falar da mãe (tentei um resumo, mas no livro Alisson explica de uma forma bem didática ou encontrei um texto bem básico aqui);


– A partir do momento que ela escolhe fazer o livro, ela começa a ‘gravar’ as conversas com sua mãe;

– As demonstrações de afeto entre as duas quase não existem mais. Quando tinha 7 anos, ela deixou de ganhar o beijo de boa noite da sua mãe e a sensação que as coisas não parecem ter evoluído muito a partir daí;

– A constante busca por aprovação está presente em todo o livro;

– Enquanto conta a história ou o processo de contar uma história, ela também fala sobre sua vida, pessoas com quem se relaciona e até mesmo confissões honestas e incrivelmente corajosas;

– Todos os capítulos começam com um sonho dela que dá margens a muitas interpretações;

– Ela cita também Virginia Woolf, em seus diários e também no romance O farol, onde ela consegue se ‘livrar’ da sombra dos seus pais;

– As duas terapeutas que Alisson fala no livro são muito parecidas (eu até poderia dizer idênticas, porque em alguns momentos se ela não diz o nome, fica fácil de confundir) e eu li uma entrevista onde ela explica o porquê. Ela não poderia desenhar sua atual terapeuta sem dar muitas dicas e poderia até prejudicar o trabalho dela; e

– Alisson escreve diários obsessivamente desde os seus 9 anos (como uma alternativa para uma das suas crises de ansiedade e depressão, que já começavam a se manifestar).

Poderia continuar listando alguns detalhes, mas vendo dessa forma parece seguir uma sequência comum e não o impacto de ver ela mudando a ordem, invertendo confundindo, em uma obra impressionante.

Ainda que no começo o livro seja meio cansativo (talvez pelas explicações que a autora dá sobre psicanalise da forma mais simples e compacta possível e chega até a parecer um psicanalise for Dummies), depois da metade do 2º capítulo ele vai muito bem.

Mesmo com tanta coisa acontecendo, o que me chamou mais a atenção é como ela se expõe, suas inseguranças, seus defeitos parecem estar todos ali, para podermos analisar, ou mesmo em alguns casos se identificar e saber que às vezes pensamos algumas daquelas coisas, mas só não temos a coragem de falar isso em voz alta.

Vale destacar o trabalho na tradução de Érico Assis, que na sua coluna no blog da Companhia falou um pouco do processo todo, com vários livros consultados (e listados no final do livro), além das expressões bem especificas.

Em algum momento Helen leu algo interessante sobre um livro de memórias de Dorothy Gallagher e repete para Alisson:

“A função do escritor é encontrar uma configuração na vida conturbada que sirva à trama. Não é bom notar que sirva à família, ou à verdade, mas que sirva a trama.”

Uau.

Ps. Se for possível, leia antes o Fun Home (Editora Conrad). Não que você não vá entender Você é Minha Mãe?, longe disso, mas é que o livro cresce ao você conhecer o pai de Alisson e tentar entender como Helen conseguiu chegar até ali. Ou mesmo o próprio processo da autora em escrever sobre o pai, a intimidade da sua família (e com isso um pouco da ira da sua mãe) e depois disso olhar a família na sua totalidade.

Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos.
Autora: Alisson Bechdel
Tradução de Érico Assis
Quadrinhos na Cia.
292 pgs
Mais informações aqui

Um comentário em “Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos – Alison Bechdel

  1. já li “Fun Home” e achei incrível e “Você é minha mãe” já está na minha lista. Adoro quadrinhos fico feliz por achar esse blog de pessoas que tambem gostam como eu.
    Parabens!!

    Jailto Santos
    twitter – @jailtojs

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