Espuma dos Dias, A – Boris Vian

espuma dos diasBruscamente, a estrada virou de novo e eles se viram no meio das minas de cobre. Elas se estendiam em patamares dos dois lados, alguns metros abaixo. Imensas extensões de cobre esverdeado, no infinito, desenrolavam sua aridez. Centenas de homens, vestidos com macacões herméticos, se agitavam ao redor dos fogos. Outros empilhavam vagonetes elétricos. O cobre, sob efeito de calor, derretia e corria em riachos vermelhos margeados por escórias esponjosas e duras feito pedra. Aqui e ali, era reunido em grandes cadinhos, onde máquinas o bombeavam e o canalizavam para tubo ovais.
(…)
– Por que eles tem tanto desprezo? – perguntou Chlóe – Trabalhar não é bom…
– Disseram a eles que é bom – disse Colin – Em geral, achamos bom. No fundo ninguém acha isso. Fazemos por costume e justamente para não pensar nisso.
– Em todo caso, é idiota fazer um trabalho que máquinas poderiam fazer.
– É preciso construir máquinas – disse Colin – Quem vai fazer isso?
– Oh! Claro – disse Chlóe – Para fazer um ovo é necessário uma galinha, mas, uma vez que temos a galinha, podemos ter montes de ovos. Melhor, então, começar pela galinha.
– É preciso saber – disse Colin – quem impede que as máquinas sejam fabricadas. Deve faltar é tempo. As pessoas perdem tempo vivendo, então não sobra tempo para trabalhar.
– Não seria o contrário? – disse Chlóe.
– Não – disse Colin – Se tivesse tempo de construir as máquinas, depois não precisariam fazer mais nada. Quero dizer que elas trabalham para viver em vez de trabalhar para construir máquinas que os fariam viver sem trabalhar.
– É complicado – disse Chlóe.
– Não – disse Colin – é bem simples. Deveria, é claro, vir progressivamente. Mas perdemos tempo fazendo coisas que estragam…
– Mas você não acha que eles prefeririam ficar em casa e beijar a mulher e ir para a piscina e se divertir?
– Não- disse Colin – Porque eles não pensam nisso.
– Mas é culpa deles se acham que trabalhar é bom?
– Não (…)
– Mas eles são burros?
– É, são burros (…)
pág. 95-97

O Existencialismo foi uma corrente do final do século XIX, fundada por Soren Kierkenkard em que consiste, assim como o nome pressupõe, no individuo e sua capacidade em turvar o mundo real para atribuir um significado. O ser é a totalidade de seu mundo e o confronto com o “absurdo” que é o mundo físico lhe traz uma “atitude existencial” que cria um significado na vida. Schopenhauer e Heiddeger integram outros filósofos antigos que moldaram sua filosofia em conceitos existencialistas, e mais tarde na modernidade dos anos 30/40: Sartre, Simone Beauvoir e Albert Camus. Em 1946 Sartre fez um célebre discurso no Club Maintenant, em que definiu o existencialismo em um novo patamar teórico, em que ele confronta a ideia da alma, ou de que o indivíduo já tem naturalmente certas predileções, ao esboçar que todo o ser é antes existência para depois transformar sua vivência em Essência (“A existência precede e governa a essência.”). O ser é antes Nada, para depois da vivência se definir.

Eu sei. Chaaaaato, e não me arrisco tanto a falar sobre esse assunto, pois não é minha área de estudos. Só basta dizer que Sartre ainda se concentrava muito nesse embate do ser com o “absurdo”, e para Sartre ainda por cima era um absurdo social, que motivou a existência de obras como A Náusea, Entre Quatro Paredes, Ser e o Nada entre outros. O absurdo e o bizarro moldam nosso mundo, molda o livro de Boris Vian, moldará este texto e, principalmente, molda tudo que se fala e se ergueu em torno de A Espuma dos Dias. Faz muito tempo que eu não lia algo em que minha impressão foge tanto do escopo do que foi falado na mídia.
Então como diz a outra filósofa, Anita: Prepara… que hoje é dia de Maria.
O livro segue uma história de um homem bont-vivant, Colin, que tem uma fortuna grande o suficiente para viver sem trabalhar. Ele passa seus dias inventando coisas, experimentando guloseimas preparada por seu chef e amigo Nicolas, saindo com os amigos para patinar, discutindo filosofia com seu best-friend Chick, até o momento que este começa a namorar uma mulher bonita e inteligente, Alise, e ele bota na cabeça que ele queria também estar apaixonado, e se possível por Alise. Mas como não é possível… eis que ele acha uma moça tão bonita quanto e começa uma história de amor relâmpago que desenrola primeiro numa felicidade conjugal bonita, mas breve, e vai lentamente se transformando em um história triste, pois Chlóe contrai uma doença rara e começa definhar apesar de seu incansável otimismo e essa é a espinha dorsal do livro, pois a doença vai balançar todo os pilares do mundo idílico de Colin.

O mundo de Espuma dos Dias é que há de melhor na escrita de Vian, pois apesar do resumo acima parecer uma história normal, ela não é. Este é um  mundo em que, no primeiro capítulo, Colin faz furos na banheira para escoar a água e corta as pálpebras para ficar apresentável (eu vejo aí uma alusão à Buñuel), tudo dá certo, os camundongos são amigáveis e dançam nos corredores, há um cozinheiro que pega enguias frescas nos canos do apartamento para cozinhar e várias outras imagens de idílio, é como se o mundo de Colin fosse uma representação metafísica de seu ânimo. Tanto é que nos momentos da doença de sua conjugue, o próprio cenário muda e se torna mais horrível, o que era grande, bonito, ensolarado e retratado com cores quentes, vai se transformando em um espaço pequeno, escuro e com cores frias até seu desfecho, que nada mais é que um diálogo entre um gato e um rato suicida, que fecha bem uma das ideias centrais do livro: a morte. O surrealismo e a imaginação do autor a cada novo capítulo surpreende, seja no idílio ou na melancolia de seu desfecho.

Surrealismo é uma descrição bem genérica da escrita do autor francês, isso porque o movimento de André Breton passou de vanguarda para estética no nosso mundo teórico, mas em 1946 ainda era uma vanguarda e há mais outros dois movimentos bem claros para mim na composição da obra: o Futurismo, pois ele está cheio de bugigangas e explicações que tentam ser cientificas; e, mais importante ainda, o Dadaísmo, pois o romance em sua estrutura apesar de ter uma história central, está construído com muitas cenas desconexas e diálogos que quase nunca seguem a ordem natural da expectativa.. Exemplos: Um médico chega e Nicolas o embebeda para que ele suma; Chlóe e Colin estão passeando de carro e começa um discussão sobre o trabalho moderno (trecho acima); Colin vai vender seu piano-coquetel e quando vê a quantia ele diz que é muito dinheiro por sua bugiganga, ainda que nesse ponto ele precise de muito dinheiro; Colin mata um homem-pássaro sem motivo algum quando ele está buscando a chave de seu armário… Essas são algumas entre outras cenas que você fica com uma interrogação na cabeça, pois elas não se encaixam na narrativa como um todo.

Espuma dos Dias é um obra extremamente experimental, tal qual a geração de escritores francês dos anos 40 poderia fazer e nesse grupo podemos colocar Georges Perec & Raymond Queneau, mas se estes dois estão mais preocupados com a forma, o romance não é só um amontoado de imagens desconexas em torno de uma história de amor. Ele é um livro bem mais crítico com o mundo atual do pós-guerra, que as obras de Perec (Queneau não, pois Zaziê no Metrô também é uma obra crítica para mim). Não é por acaso que haja menções à condição dos trabalhadores, que o arco dramático seja sair de sua fortuna e boa vida para ter que trabalhar na linha de frente proletária, numa tentativa desesperada de salvar Chlóe e que o filósofo-obsessão se chame de Jean Sol-Partre e o existencialismo seja visto como uma caricatura, onde um filósofo anda de elefante e tem vários guardas que com machadadas abrem caminho, e cabeças, perante os fiéis. Se visto como um romance, com uma história de amor central, há várias pontas soltas e estranhas no romance. Se visto como um grande panorama surreal da França do pós-guerra, é um dos mais críticos livros dessa geração francesa dos anos 40.

Eu assisti o filme antes de ler o livro, e uma das grandes diferenças é que a violência no filme foi substituída por mais humor na obra de Gondry, e eu não entendi, pois um dos pontos fortes da leitura é ver uma violência/morte banalizada, e perto de seu final ver uma ressinificação nela, pois os personagens que você seguiu de perto começam a ter seus destinos cruelmente encontrados. Não só Chlóe entra num arco mortal, mas outros personagens também tem destinos cruéis.

As imagens de Vian criticam o Existencialismo, a divisão de classes, a religião, e em certo ponto a guerra e o mundo capitalista. Mas existe o amor entre o casal do título que está em embate com o o absurdo deste mundo!… É lógico que não. Nesse ponto eu vou sair bem da esfera comum, pois eu não consigo engolir a história de amor entre Colin/Chlóe como algo natural. Assim como outros pontos abordados por Vian nesse livro, o amor é visto de um ponto de vista mais crítico do que fundamental. E a razão de minha descrença nessa história tem um nome: Alise.

Alise? você se pergunta… Sim! Colin a princípio deseja Alise e isso fica claro nos primeiros capítulo, depois ele deseja se apaixonar pelo simples fato que todos os estão fazendo. Quando conhece Chlóe, a psicanálise poderia interpretar que Chlóe é a materialização do desejo de Colin pela namorada do amigo. Felizmente Vian não tenta brincar com Freud e Jung no romance. Contudo é um pouco estranho para mim que uma história de amor tenha um mote tão estranho… eu poderia perdoar se isso fosse realmente esquecido, mas não é…. a todo momento o romance reitera que Colin se importa com Alise e Chick. Ele dá 1/4 de sua fortuna para que este casal viva bem, quando Chlóe está doente ela mesmo que queria que Alise vivesse com Colin e na reta final Alise e Colin tem um contato mais carnal em que chegam a seguinte conclusão:

– Por que será que eu não te encontrei antes? – disse Alise – Eu teria te amado igual, mas, agora, não consigo. É ele que eu amo.
– Eu sei – disse Colin – Agora eu também amo mais a Chlóe. 

Esse amor não é retratado no romance. Vian não perde tempo colocando as bases do que considera “amor” e sim nos resultados de quem vive esse amor. Logo que Colin se casa, Chlóe desenvolve um flor no pulmão, que além de a consumir, consome toda a fortuna e vida de Colin. Alise vive um amor psicótico por um homem obcecado por um filósofo, a ponto de não amá-la tanto quanto seus livros encadernados. Isis não casará com Nicolas, pois ela “não é boa o bastante para ele”, que a trai com todas. Quem é Isis? Então, ela é tão relevante entre os personagens que só agora mencionei ela, mas ela é o sexto personagem principal e é absolutamente vazia como personagem. Sabemos que ela é rica e tem cachorrinhos. Só. Alias, Chlóe, não fica tão atrás em profundidade. Apesar de todo romance girar em torno dela, sua personalidade é otimista e parece viver para ser o amor de Colin, seja lá o que signifique. Ela e Isis são extremamente bonitas, isso o romance deixa claro. Essa falta de profundidade provavelmente é da época em que foi escrito certo? Errado. Boris Vian era amigo intimo de Sartre e Simone de Beauvoir, ele com certeza tinha um respeito muito grande pelo sexo feminino. Isso também é uma crítica: as caracterizações femininas na literatura, tanto é que Alise, ao contrário delas, tem muita personalidade e se torna ao final do romance, uma personagem principal, pois estranhamente os últimos capítulo se centram nela e em Chick.

Essa construção não é acidental. Alise é muito importante no desfecho da obra e faz um reflexo ao relacionamento de Colin, essa são as razões de não conseguir digerir a “história de amor” como a contracapa sugere. Para mim Espuma dos dias é um livro muito mais crítico à sociedade francesa burguesa do que uma história de amor, e uma problematização ao pensamento existencialista. Se Colin joga a máxima existencialista no final do romance “Não são as pessoas que mudam, são as coisas”, o romance mostra exatamente que o meio social pode mudar uma existência, que é uma problematização que a filosofia de Sartre enfrenta ao ser confrontada diretamente com o Marxismo, sua obra da década de 60 tenta resolver isso, mas sua morte deixou o eixo existencial X social inacabado.

Eu poderia continuar principalmente pelo eixo de que o livro é lembrado como representante da escrita criativa da década de 60, Nouvelle vague (está na contracapa e eu acho isso b-i-z-a-r-r-o), e ninguém situa o romance como um romance de 1946, que é bem influenciado pelo pós-guerra, e sobre algumas outras coisas também… mas eu creio, caro leitor, que você já acha que viajei bastante nessas “breves” linhas. Mas em um romance em que pianos fazem coquetéis, flores matam, fuzis crescem no solo com calor humanos… é um pouco difícil não viajar. Alias, o romance vale a leitura mas você tem que deixar a sua mente se levar, com certeza nem tudo terá um sentido objetivo claro por se tratar de um romance experimental (uma amiga minha está sorrindo no momento), mas no sentido emocional ele vai te chocar, inquietar, fazer rir e até te levar a um melancolia com sua história e isso é o mais.

O filme é um bela obra de Michel Gondry na composição visual, e não chega nem perto de ser crítica e sim emocional. Mas um problema que a fita tem, é que a passagem do humor para o melancólico é brusca e não gradativa como no romance. Em uma cena você está rindo e de repente tudo se transforma… mas apesar disso é um filme bem diferente que só uma obra como essa poderia inspirar. Segue o trailer:

A Espuma dos Dias
Autor: Boris Vian
Tradução: Paulo Werneck
Editora Cosac Naify
256 pgs

Um comentário em “Espuma dos Dias, A – Boris Vian

  1. Tudo o que você disse me fez olhar a obra sob uma perspectiva diferente, isso até certo ponto, porque ainda não a li. Como você, também vi o filme primeiro, e o livro ainda está entre minhas próximas leituras. Mas concordo quando diz que o filme tem uma atmosfera mais emocional. Todo esse lado crítico, o retrato de uma sociedade burguesa, e a prova concreta que me faça enxergar a história como um romance experimental (ainda que muitos absurdos possam ser vistos no filme) espero encontrar na leitura.
    Ótima resenha, aliás.

    Um beijo, Livro Lab

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