Som e a Fúria, O – William Faulkner

som e a fúria
Eu não estava chorando, mas não conseguia parar. Eu não estava chorando, ma s o chão estava se mexendo, e depois eu estava chorando. O chão não parava de subir e as vacas subiram a ladeira correndo. T. P. tentou se levantar. Ele caiu de novo e as vacas desceram a ladeira correndo. Quentin segurou meu braço e fomos andando para o estábulo. Então o estábulo não estava mais lá e tivemos que esperar que ele voltasse Ele voltou por de trás da gente e Quentin me sentou na gamela onde as vacas comiam. Eu segurei a gamela, ela também estava indo embora, e eu segurei. (…) Eles me seguraram ficou quente de no meu queixo e na minha camisa.”Bebe” disse Quentin. Seguraram minha cabeça. Ficou quente dentro de mim e eu comecei outra vez. Eu estava chorando agora, e alguma coisa acontecia dentro de mim, e eles me seguraram até que parou de acontecer. Então parei. Continuava rodando, e então formas começaram. Abre a manjedoura, Versh. Eles estavam indo devagar. Espalha esses sacos vazios no chão. Eles estavam indo depressa. quase depressa. Agora. Pega os pés dele.Eles continuavam, deslizando,claros. Ouvi T. P. rindo Continuei com eles, subindo a ladeira clara.
Benjamim pág. 24-25

(…) Veio um bonde. Tomei-o. Não vi a placa na frente. Estava cheio, a maioria era de pessoas que pareciam prósperas e liam jornais. O único lugar vazio era ao lado de um negro. Ele estava de chapéu-coco e sapatos engraxados,e tinha na mão um toco de charuto apagado. Antes eu achava que todo o sulista tinha de estar sempre preocupado com os negros. Eu achava que era o que os nortistas esperavam dos sulistas. Logo quando vim para o Leste, eu sempre dizia a mim mesmo: Você tem que encará-los como pessoas de cor e não como negros, e se por acaso não tivesse acontecido de eu ter pouco contato com eles eu teria desperdiçado muito tempo e energia até me dar conta de que a melhor maneira de encarar qualquer pessoa, seja branca ou preta, é tomá-la pelo que ela é, e deixá-la em paz. Foi então que me dei conta que um negro é uma pessoa do que uma forma de comportamento, um espécie de reflexo obverso dos brancos com que ele convive. Mas de início achei que devia estranhar não ter um monte de negros a minha volta porque pensava que era isso que os nortistas pensavam de mim, mas só percebi que sentira falta de Roskus e Dilsey e os outros naquela manhã na Virgínia. (…)
Quentin pág .94

Pois justamente nesse momento olhei para o beco e vi a criatura.(…)Só que ela não podia ver de dentro da loja, porque estava batendo um sol bem na porta, e era como se tentasse ver a luz do farol de um carro, e assim fiquei parado vendo a criatura passar, com a cara toda pintada como se fosse um palhaço e o cabelo todo lambuzado e retorcido e um vestido que se uma mulher saísse na rua com só um vestido daqueles cobrindo as pernas e o traseiro, mesmo lá no Gayoso ou Beale Street quando eu era menino, ela ia parar na cadeia. Garanto que quem veste uma roupa assim quer mais é que cada homem que cruza com ela na rua passe a mão nela. E assim eu estava pensando na espécie de idiota que usa gravata vermelha quando de repente me dei conta de que só podia ser um desses homens do circo, com tanta certeza quanto se ela mesmo tivesse me contado. Bom, eu aguento muita coisa; se não aguentasse eu estava roubado, de modo que quando eles viraram a esquina eu saí correndo atrás.Eu, sem chapéu,no meio da tarde , tendo de correr pelos becos para defender o bom nome de minha mãe. é como eu digo, não se pode fazer nada com uma mulher assim, ela nasceu desse jeito.
Jason pág 255-256

Dilsey não disse nada. Na fez nenhum movimento, mas embora sua imagem fosse para ela apenas uma forma embaçada sem profundidade, a Sra. Compson sabia que ela virara a cabeça um pouco para baixo e estava agora na posição em que ficam as vacas quando chove, segurando pelo gargalo o saco de água quente.
“Não é você que tem que suportar isso” disse a senhora Compson. “A responsabilidade não é sua. Você pode ir embora. Você não tem de aguentar um dia depois do outro. Você não deve nada a eles, nem à memória do Sr. Compson. Sei que você nunca sentiu afeto pelo Jason. Você nunca tentou esconder.”
Dilsey não disse nada. Virou-se lentamente e desceu (…)
298-99 A parte de “Dilsey”, pelo Narrador. 

O Som e a fúria é uma pancada no âmago e no estômago.

Não porque tenha descrições escatológicas, momentos subversivos ou qualquer tipo de pornografia literária. E sim porque no palco em que Faulkner faz seu experimento mais complexo há uma tonalidade imensa de escuridão reconhecível ainda nos dias de hoje na alma humana. O escritor americano parece tirar um sarro da Poética de Aristóteles, ao retratar um monte de personagens banais em uma tragédia de proporções edipianas: Um retardado castrado, um jovem universitário melancólico e um racista conservador dão as vozes para narrar em sua fala, e nas entrelinhas de seus pontos de vista, a queda de uma família aristocrata no sul dos Estados Unidos, os Compson. A quarta voz, um narrado onipresente, se concentra na vida da empregada para fechar o arco que liga uma história que, além de sua estrutura complexa, apresenta um panorama do sul racista e cruel dos Estados Unidos, com muitas imagens religiosas, freudianas e até um caso de incesto no centro da história. E isso ainda é um resumo grosseiro da obra.

Faulkner não é gentil com seu leitor. Aqui, os imensos capítulo tem somente uma data e uma voz, que aos poucos você vai descobrindo de quem se trata. Se quiser manter o suspense ou encarar o livro nu e cru, não leia nada a respeito do enredo, pois tentar decifrá-lo é a briga constante que você terá, ao menos em seu começo, e faz parte da experiência o livro.

O consolo é que mesmo que você saiba o nome dos narradores e tenha uma ciência básica da história não facilitará a sua vida em relação ao romance. Em todo caso, pare de ler aqui se isso já foi suficiente para você.
(…)

Se não foi, vamos lá: O primeiro capítulo é narrador por Benjamim em 7 de abril de 1928. No dia de seu aniversário de 33 anos. Entretanto Benjy não é um narrador comum, pois tem um grave problema cerebral, e como dizem os outros personagens “nasceu bobo”.  A doença nunca é descrita, parece algum tipo de retardo e com certeza não é síndrome de down. Benjamim confunde épocas, pula eventos e durante o dia de seu aniversário você não sabe exatamente o que está acontecendo nesta data e o que é lembrança em sua cabeça. Suas descrições além de serem sempre confusas entre a atitude de sua cabeça e o que seu corpo realiza, ficam marcadas com várias cenas que se repetem em contextos distintos e mudanças no tempo da narrativa, que mesmo que sejam marcadas em itálico não deixam claro qual a sua ordem. Somente quando você termina o livro e volta nesse começo é que consegue identificar o que era presente e o que era passado/imaginação.

Junte-se a isso o fato de que mais pra frente você descobre que, assim como em Cem Anos de Solidão, os Compsons tem vários homônimos e você só nota essa possibilidade perto do fim da narração quando um dos personagens aparentemente muda de sexo. Ou seja, Faulkner começa o livro remetendo demais plástica ao título do livro retirado de Macbeth: “O mundo é conto tonto dito por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa”.

Ele não facilita a vida de seu leitor e superar esse primeiro capítulo é a grande barreira que o livro pode oferecer. E apesar de dar a impressão de ser o reino do caos a narração de Benjamim, ela não é. Ela é bem construída dentro da obsessão de Benjamin com Candance/Caddy, normalmente sendo vista como uma criança pelo narrador – fica claro que sua idade oscila bastante na memória do narrador, principalmente quando ela está na nossa imaginação como uma criança mas não está fazendo coisas de criança. Esse tipo de imagem construída do deslocamento temporal inexistente em sua fala e cria imagens fortes e é um dos pontos mais espetaculares da criação de Faulkner.

O segundo narrador porém é aquele que mais vai cativar o leitor, pois é um típico homem moderno, com ideias avançadas para época e vai entrar em constante atrito com o mundo que o cerca. O capítulo se passa em 1910 e já mostra como há uma grande distância temporal nos fatos recordados por Benjamim, que está sempre vivendo o presente até de coisas que já passaram. Esse capítulo também cria uma cisão grande com o que foi narrado por Benjamim pois 1 – Não se passa na casa dos Compson; 2 – O narrador é Quentin, que não se decidia entre ser um homem ou uma mulher na fala de Benjamin; e 3 – O único elemento que o liga mais fortemente ao primeiro é a figura de Candance, que também é revista na visão de Quentin.

Aqui descobrimos que todos os personagens são irmãos: Benjamin, Candance, Jason e o narrador Quentin, um menino aqui em 1910. E a grande divergência é como veem a personagem de Candance. Se Benjamin a via como pura e uma amiga, Quentin a vê com sensualidade e como um amor platônico. Sim… é isso mesmo. Quentin apesar de ser socialmente são com seus ideais sobre a liberdade racial, a sua bondade nata e bom caráter, tem uma obsessão sexual pela irmã.

Esse narrador também não é fácil, pois apesar de sua narração ser feita com começo, meio e fim de uma viagem com amigos que ele realizou em 1910, ela tem digressões súbitas a respeito de Candance e do dia em que ela resolveu se casar, pois “ela precisava se casar”. O incesto é lentamente colocado na roda e introduzido, você a princípio não quer acreditar que ele está falando, mas o fato é que ao final da narrativa é impossível não pensar que todo o mal-estar psicológico é devido a este relacionamento que ele tem com a irmã. Mas você me pergunta se o ato é consumado no livro. A maioria dirá que não, inclusive porque Faulkner fez um apêndice no final de 1946 que esclarecia muitas coisas, e esta presente na edição da Cosac, e onde ele admite que o incesto está mais no plano do platônico e simbólico, contudo o texto em si e sua complexidade psicanalítica apontam sim para que tenha ocorrido.

Nessa parte há muitos encontros e choques sociais de Quentin com as pessoas do novo mundo dos 1900: escravos livres, estrangeiros vivendo nos Estados Unidos, pobreza e miséria, enquanto ele banido de casa, vivendo na faculdade com o dinheiro das vendas da terra do pai, melancólico e não correspondido pelo amor da irmã, que em breve se casará. Um romântico onde eles não podem existir.
Na terceira voz, de Jason Compson, as coisas vão começar a fazer sentido. Se passa em 6 de abril de 1928, um dia antes da narrativa de Benjamim e mostra toda a vida deste, que é um dos personagens mais odiosos da literatura. Conservador, maquiavélico, odeia a sobrinha, Quentin que tem 18 anos, odeia os empregados negros, odeia toda a raça negra, judia, os estrangeiros e, porque não, as mulheres. Ele é o típico patriarca do século XVIII mas sem família para isso. Cuida de sua mãe que falece lentamente, em uma casa antiga, o único símbolo do que foi família Compson e chantageia a irmã Candance, para conseguir juntar dinheiro. Também descobrimos que Quentin se matou em 1910 afogado.

Na fala de Quentin ficava claro que Candance precisava casar para esconder alguma coisa, aqui fica claro que é a filha que ela teve e cujo o pai é desconhecido. Pelo ponto vista de Jason, Candance é uma vagabunda, a mãe também acha que ela se prostitui para sobreviver e queima todos os cheques que ela envia mês a mês para a filha. Contudo este é a narração em que Jason parece estar contando a história para alguém, e Jason não é confiável, é de quem mais desconfio sobre o ponto de vista, pois não vem direto da cabeça do personagem, é deliberadamente construída. Na fala de Jason parece que a cidade odeia Candance, mas em uma das histórias do apêndice fica claro que  Candance se divorciou e não era bem vista, mas não era odiada na cidade como Jason tenta nos convencer.

Jason é extremamente racista e é a parte mais repulsiva do romance, apesar de elucidar muitas coisas, a raiva pelo personagem prepara terreno para o desfecho.

Este ocorre com um narrador onipresente seletivo. Ele escolhe ficar do lado de Dilsey, a empregada desde de sempre da família, no dia depois do aniversário de Benjamin, 8 de abril de 1928. E na fala de Benjy já estava contido em seu meio o início do crime que narra o final do romance, a decadência final dos Compsons. A casa, em 1928, tem uma mãe moribunda; o cruel Jason; Quentin, que ninguém sabe quem é o pai e é mal vista na cidade; Benjamin em suas doença; e Luster, um menino de 14 anos que cuida de Benjy e é filho da personagem mais forte do romance, Dilsey, que como Faulkner diz “resistiu”. Ela é o símbolo não de bondade ou justiça, mas de uma pessoa boa que faz o possível para impedir a destruição da família, ainda que essa já venha anunciada a tempos. O fato de ser negra, reforça a grande imagem anti-preconceito que está em todas as páginas do romance, que é sua imagem social mais forte, uma vez que os Estados Unidos de 1929 ainda eram extremamente racistas (e em algumas cidades ainda são hoje). Dilsey é a voz da razão no meio da narrativa de loucura que é a queda da Família Compson e se seu final é aberto para interpretação (O que será que os personagens viram no final?) sua mensagem social é clara.

Esse é um romance fácil? Não. Mas é um dos melhores que já li. É incrível como os clássicos ainda dão surras gigantescas em livros atuais, há uma coisa ou outra que se sobressai mas estes grandes escritores tem aquele “a mais” que faz uma obra escrita em 1929 parecer mais moderna que muito romance com grandes pretensões.

Por fim, esta é uma obra bem interpretativa que ainda tem muita discussões pela frente. O apêndice de Faulkner não afirma nada, mas esclarece algumas coisas como o que acontece com Jason, como Quentin se matou, de onde vinha o dinheiro de Candance e também afirma o ponto polêmico de seu romance como algo simbólico. Mas o fato é que para mim o incesto de fato ocorre no livro, mas isso é um ponto de vista, de acordo com o arco trágico dos personagens. O romance deixa não só essa, mas outras pontas soltas que você deve usar as pistas para chegar a uma conclusão, mesmo que essa seja só uma ideia. uma impressão, que mudará muito de acordo com a época que você vive. Quem consegue criar esse tipo de complexidade não só merece o Nobel, mas a alcunha de ser um dos maiores escritores de todos os tempos e pessoalmente para mim, é o maior escritor americano.

Vale muito a leitura.

O som e a fúria
Autor: William Faulkner
Tradução: paulo Henriques Britto
Editora Cosac Naify
384 pgs (na edição da Portátil)

3 comentários em “Som e a Fúria, O – William Faulkner

  1. Nunca li Faulkner mas admito que essa resenha me fez considerar a possibilidade de ter esse livro na minha prateleira. O que mais me atraiu foi essa mistura de vozes, essa confusão entre lembranças e acontecimentos, passado/presente,… Complexidade interessante. E concordo plenamente que muitos clássicos são atemporais e é isso o que os torna especiais, diferentes.

    Um beijo, Livro Lab

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